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É o outono que eu quero esquecer

Lá se foi mais um verão. O calor terminou, acabaram-se os lindos diminutivos femininos. Agora, começou a pior época do ano, pelo menos pra mim, nascido e criado em São Paulo.

Digo isso porque há lugares nesse Brasil de meu deus em que, ou chove, ou tá chovendo. Não existe, em alguns outros estados brasileiros, essa época fatídica de inconstância climática, esse maldito outono. Nessa estação do ano, tudo vira de cabeça pra baixo e as condicões são as mais problemáticas. Para sair na rua, há que haver, nos braços, nas costas ou nas mãos, alguma bolsa ou mochila grande, bem grande, pra poder levar todos os equipamentos para não se dar mal. Explico.

Outono é aquele mala da mesa de bar que você quer ver ir embora logo, que solta fumaça na cara e deixa o "silêncio desconfortável" no ar

Por essas bandas de cá, o dia começa com um sol lindo, mas mentiroso. Da janela, dá pra pensar que vai ser mais um dia lindo, mas o sol tinge o céu, mas tem preguiça demais pra trabalhar no aquecimento das horas. No outono, não se engane e saia de casa só usando aquela camiseta marota com alguma frase de efeito. Se faz necessária uma blusa, uma jaqueta, enfim, algum vestuário que vai lhe proteger bravamente do vento gelado que chega correndo, todo desavisado. Se faz sol pela manhã, logo no almoço a casa vai cair, digo, a temperatura. Mas tenha certeza de que, se vestir o casaco, vai passar calor. É o tal do outono, esse palhaço.

Aposto tudo o que tenho que, quando o Caetano Veloso escreveu o nosso "hino", a canção "Sampa", ele tava de passagem aqui em São Paulo numa época de outono. Só isso pra explicar a tal "deselegância discreta de suas meninas". Caralho, Caetano, o outono é foda! Tem que levar isso em consideração. As coitadinhas, trabalhadoras ou herdeiras, precisam sair na rua com trajes de verão e inverno, tudo ao mesmo tempo e agora. Não é fácil pra ninguém não.

No delicioso verão, fica facinho admirar todas aquelas peles de fora, tomando ar, suando delicadamente. Já no poético inverno, Todo mundo toma precauções no dia anterior para não se atrasar e, logo de manhã, todas as combinacões já estão separadas e lá vamos nós, todos elegantes para onde quer que o dia nos leve. No outono, não. O outono gosta de ver a galera se fodendo.

Gosta tanto que usa justamente o choque de clima quente com vento frio e faz chover. Maldito.

Mas não é uma chuva boa, uma chuva gostosa. No calor, a chuva cai abundante, refresca e, apesar do percalço, todo mundo leva numa relax, numa tranquila, numa boa. No inverno, a garoa corta sem dó, mas todos já estão preparados pra isso. No inverno, a garoa é a mais frustrada. A chuva de outono não, essa gosta de ver, por mais paradoxal que possa parecer, o circo pegar fogo. Imagina que você tá lá, no mundão, pensando lá na frente quando, sem mais nem menos, a chuva fode os teus planos. Ela cai quando você não tá de blusa, quando não tá perto de casa ou do trabalho, independente de quem você seja. Vendo por esse lado, se há algum jeito de redimir todas as atrocidades do outono, é que as peripércias dessa estação não distingue rico de pobre, empresário ou metalúrgico. Todo mundo se dá mal junto.

Chuvisco de outono, com a consistência de um cocô de neném, que não encharca: só te deixa puto

Até as plantinhas, que por aqui já não é lá algo tão abundante, arregam pro outono e deixam suas folhas caírem, suas flores murcharem, esperam o inverno chegar pra gritarem por primavera. Aliás, essa sim é uma estação boa, gostosa. Não deixa de ser uma época de espera pelo gran verão, aquele lindo. Na primavera, o calorzinho é maneirado e é a estação perfeita para dar belas trapadas. Juro. Tem até base científica que diz que, na primavera, a luminosidade é maior e isso faz com que as mulheres fiquem mais excitadas. Se não confere a aifrmação, me digam vocês, minhas delicinhas.

Agora, pense comigo, amigo cortador de árvores. Passamos uma estação elegante, de frio e contemplação, esperamos o calor fodendo de todas as maneiras possíveis e imagináveis (obrigado, meninas), ficamos loucos nos meses de verão, de alegria desenfreada, de luxúria, metamorfose e carnaval pra, depois de tanta coisa boa, aturarmos quatro meses de idade média, de Inglaterra do século XVIII, de lama no chão, de depressão na cabeça. Outono sacana, outono vagabundo, de dias inúteis.

Outono só serve mesmo pra escrever crônicas. Das mais ralés.


publicado em 01 de Maio de 2012, 21:02
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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