– Ei, Joe!

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-- Ei, Joe!

Chamei novamente a atenção do meu improvável companheiro de fuga, mas assim como da primeira vez, pareceu fingir que eu não estava ali. Ele continuava olhando pela fresta da porta da saleta do chefe da guarda, que continuava imóvel sentado em sua cadeira com um sorriso sinistro no rosto. Morto.

-- Deve haver algum jeito de sair daqui. – disse o rapaz vestido de bobo da corte e com a cara pintada – o que lhe dava uma aparência um tanto assustadora - que parecia ter no máximo 20 anos. Ele segurava firmemente a chave mestra do complexo mais estranho e inexpugnável que eu já havia me metido.

Como ladrão profissional há mais de 39 anos, eu nunca havia me sentido tão angustiado. Nem na primeira vez. Olhei mais uma vez pela sala, e pela primeira vez reparei no cinto do coringa, um pequeno boneco de uma criança vodu, certamente o artifício usado para matar o chefe da guarda. Meus pensamentos me tiraram da realidade, mas fui trazido de volta abruptamente com um chamado “Tem uma confusão lá em baixo! Essa é a hora, vamos!”.

A confusão se dava no pátio principal, a maioria dos guardas foram separar os engravatados malditos que bebem nosso vinho, descerebrados que cavam a minha terra, todos frutos de um mesmo mundo caótico e insensível. O coringa sorria diante do nosso trajeto irregular, evitando a parca guarda que sobrara no resto do complexo. Ele queria a Torre. “Não há razão para ficar tão excitado” eu disse amavelmente para meu estranho colega. “Há alguns neste lugar maldito quem pensam que a vida é só mais uma piada.” Ele se limitou a responder “Mas você e eu já passamos por isso. E esse não é o nosso destino. Então pare de ser tão hipócrita, que o relógio faz tictac e eu não quero me atrasar”.

Ele parecia saber o que fazia. "Daria um bom ladrão", pensei com meus botões. Entramos em uma sala estranha, que brilhava numa névoa púrpura, cheia de placas e avisos em uma língua que eu já não falava há muito tempo.  Joe acionou mais uma vez sua criança vodu e dois homens de jaleco branco caíram, mais duas almas nos braços de alguma deusa insana. Ele mexeu em alguma outra coisa do seu cinto “mágico” e se dirigiu ao centro da sala, origem de todo aquele brilho. Voltou correndo e sorrindo para mim disse apenas “Fogo”, e apontou para um corredor. Corri o máximo que minha idade e as juntas gastas permitiam, ainda sim, era mais rápido que quase a totalidade dos seres que neste mundo fétido habitavam.

Ao longo da Torre de Vigilância, os “príncipes” viam seu império cair em meio ao fogo, destruição e ironia. Foi um pandemônio. Suas mulheres iam e viam, desnorteadas, sem rumo. Umas indo em direção ao fogo púrpura, outras se jogando pelo penhasco formado pelo gigantesco paredão de gelo. Os pobres dos empregados saíam chamuscados, meio vivos, meio mortos. Desesperados.

Quando nos aproximávamos da Torre, o coringa brindava sua deusa com infinitas almas incautas e incrédulas. No horizonte do deserto gelado em que nos encontrávamos, junto a um rugido selvagem, surgia duas silhuetas. Não vinham do inferno roxo nem da Torre. Estavam vindo em nossa direção.

O vento uivava ensurdecedor, ao longo da Torre de Vigilância.


publicado em 01 de Setembro de 2012, 07:03
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Pedro Turambar

Pedro tinha 25 anos e já foi publicitário. Ganha a vida fazendo layouts, sonha em poder continuar escrevendo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro com isso. Fundou o blog O Crepúsculo e tem que aguentar as piadinhas até hoje. No Twitter, atende por @pedroturambar.


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