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Entre reis e fenômenos

Quando resolvi ser jornalista, lá pelos meus 14 anos, não passava na minha cabeça que um dia entrevistaria Ronaldo. Muito menos que arrancaria, na marra, uma resposta do Rei Pelé.

Nem que seria perseguido por seguranças ao tentar falar com Daiane dos Santos quando ela foi pega nos exames antidoping.

Essa porra toda aconteceu.

Em agosto de 2010, numa das reuniões da equipe de um jornal que seria lançado em São Paulo, o editor-chefe anunciou que tinha conseguido a entrevista com Ronaldo e levaria um dos repórteres. Expectativa geral. Eu queria. Afinal, a pauta era o camisa 9. O camisa 9 das Ferraris, da convulsão e do penteado escroto. Meu chefe me convocou. Aceitei o desafio.

Por mais que você tente, é difícil se controlar quando se tem 20 e poucos anos e está começando na profissão. Na sua frente um dos maiores atletas da história. Meu editor, macaco velho no jornalismo, conduziu a conversa como se fosse um bate-papo entre dois grandes amigos. Perguntei pouco. Mas Ronaldo não fugiu quando perguntei sobre o Flamengo, seu ex-time do coração. Defendi a classe e arranquei uma risadinha marota do nosso entrevistado quando o maior artilheiro das Copas disse que a imprensa não anotava que só 0,03% dos jogadores ganham bem e aparecem na mídia.

Ronaldo não dá grandes entrevistas, mas sua declaração ainda é motivo de capa

Antes disso, em 2009, pelo Diário de S. Paulo, fui encarregado de tentar arrancar uma palavra de Pelé sobre um erro de arbitragem na partida do fim de semana. Eu era apenas um estagiário, portanto, não sentia muita confiança. Ainda mais quando a missão caiu no meu colo. O evento era o mais distante do esporte possível: no Palácio dos Bandeirantes, Pelé lançaria uma música em homenagem à cidade de São Paulo.

Estavam lá prefeito, governador, secretários, aspones, diversos engravatados dos cadernos de política dos jornais e eu, me sentido um peixe fora d'água com mochila nas costas, jeans e tênis. Como durante a entrevista não consegui chegar na Majestade, tive de usar uma das coisas que consagrou Pelé no Santos e na Seleção Brasileira: o drible.

Vi que o eterno camisa 10 estava escapando e resolvi sair do Palácio. Como um ponta arisco, consegui chegar ao gol, ou melhor, até o Rei. Ele estava entrando no carro. Joguei verde, perguntei sobre o tal erro de arbitragem. Pelé me responde com um lacônico?

Não vi o jogo, desculpe.

Tudo bem, Rei, acontece. Agradeci e fui embora. Frustrado? Um pouco. Mas poderei falar aos meus filhos que, um dia, Pelé não soube responder a uma pergunta minha.

Poucos segundos com o Rei marcam qualquer profissional

Nem só de "não-respostas" são feitas boas histórias. Jornalistas, em geral, são seres boêmios por natureza. Trabalhar de ressaca não é ensinado nas universidades, mas deveria. É um verdadeiro desafio. Principalmente quando uma das principais atletas do país é pega nos exames antidoping.

Falo da ginasta Daiane dos Santos. Era finzinho de outubro de 2009. Fui escalado para cobrir o lançamento da segunda edição do Novo Basquete Brasil. Na noite anterior, enquanto escrevia o livro-reportagem que seria meu Trabalho de Conclusão de Curso na universidade, tomei uma dose do amigo Jack Daniel's para inspirar as ideias. Uma, não. Várias. Acordei daquele jeito, e, graças a Deus, com a bexiga cheia. De pé, resolvi conferir o horário em que eu deveria estar no Clube Pinheiros para o lançamento do NBB. Era dali a uma meia hora. Eu estava a cerca de uma hora e meia do jornal.

A matemática das horas, somada à ressaca, foi fatal. Corri feito um louco, passei por metrôs lotados, até chegar ao Pinheiros com um atraso aceitável. Para minha "sorte", Daiane do Santos foi flagrada no antidoping pelo uso de furosemina, um diurético. Adeus, pauta do NBB, pois Daiane treinava, veja só, ali mesmo no Pinheiros. Nem preciso dizer que a ressaca passou na hora, com tanta adrenalina correndo no sangue.

Eu e outros companheiros da imprensa passamos por bloqueios de segurança e por cima de ameaças de expulsão do clube para chegarmos até o técnico de Daiane, o argentino Raimundo Blanco. Conseguimos falar com ele. Escrevi em parceria com o repórter Wagner Vilaron uma das matérias mais legais da minha carreira.

A transformação de pautas no meio do caminho

Esse é o lado A da coisa toda, desse sacerdócio, como diriam os antigos repórteres, do jornalismo. O lado B é entrevistar figurões como Milionário & José Rico em uma feira municipal, ver o carro da reportagem quebrar em frente ao Hopi-Hari, numa madrugada em que você acabou de cobrir um jogo do Palmeiras em Piracicaba ou trabalhar fugindo das "bazucas anais" de milhares de pombos em um estádio de Jundiaí.

Conviver com reis e fenômenos é a exceção da regra do jornalismo, em que transpiração e uma dose de sorte são elementos fundamentais para o profissional. Ainda mais em tempos em que o Google é carinhosamente chamado de "melhor repórter do mundo" e o diploma, coitadinho, anda desprezado.

Mas tive sorte. Tudo bem que não ganhei respostas.

Mas tenho boas histórias para contar.

 


publicado em 24 de Março de 2012, 10:05
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Matheus Adami

Matheus Adami é jornalista. Atualmente, cobre esportes, especialmente futebol, mas já trabalhou em cadernos de política em outros carnavais. Em um ou outro campo, não tolera as sujeiras que insistem em varrer para debaixo dos tapetes. Nas horas vagas, é músico.


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