Era uma vez Bianca e eu não sabia o que falar

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A parte mais gostosa de ler um conto de fadas é a garantia de um final feliz pra história. É certo que, a menos que tenhamos o Stephen King escrevendo pra Disney -- o que é pouco provável --, o último parágrafo desse tipo de história tem a obrigação de despertar no leitor aquela sensação de estar ouvindo a música cantada pelos pássaros que rodeiam o casal.

É o vento no ar...
É o vento no ar...

Essas sentimentalidades se tornam mais fortes e frequentes nos relatos que antecedem o Dia dos Namorados. Todos os elementos relacionados ao amor se afloram, afinal, muitos veem a época como incentivo para comprová-lo. Porém, muitos desvalorizam a origem de grande parte dos relacionamentos: a atitude. Ou simplesmente o saber o que falar.

Eu, por exemplo, não soube o que dizer em 1998, ainda guri. Foi o dia que eu destruí um conto de fadas porque não sabia o que falar.

Se com 14 anos você não consegue ser muito interessante para meninas mais velhas, isso se torna ainda mais difícil andando com amigos de 16 ou 17. A sua imagem é eternizada como "o garoto mais novo, o mais baixinho" e, no meu caso, até o com maior tendência para calvície da turma toda. Era inevitável passar despercebido no quesito "pegação". Ou, em situações mais cruéis, ser escrachado como o elemento estranho dentro daquele grupo.

A rejeição que eu sofria por parte das mulheres só não era superior ao de outros devido minha habilidade nas fases aquáticas do Super Mario. Isso me fez passar por boas lembranças (especialmente as que tinham televisão e videogame no quarto). Sério, é muito bom, com 14 anos, falar que conhece o quarto da Renata do 212 ou da Fabíola na antepenúltima rua à esquerda, mesmo que seja só pra passar uma fase que interessa apertando o “B” e batendo com a cabeça do Mario nas pedras de concreto do topo do cenário.

Óbvio que era pouco, mas mesmo nos piores dias, parecia ser o necessário ou o suficiente. A esperança de um adolescente é algo muito curioso. Por mais que ele seja um sonhador, aparentemente tudo está de acordo. Há um instinto que aponta mudança na vida quando os 16 ou 17 anos chegarem. Talvez graças a imagem que os “mais velhos” passavam, ou apenas porque outros cresceriam e continuariam menores com 14 anos e dessa vez nãos seriamos nós.

Não precisou ter 16 ou 17 anos para que uma mudança ocorresse. Não precisou, vejam vocês, nem mesmo uma atitude mais drástica para que a rotina ganhasse tamanha graça.

Ela veio de Brasília. Se chamava Bianca. Era prima de uma amiga. Bianca era uma graça. Baixinha, trancinhas no cabelo e sempre de blusa branca de alças. Alças das finas. Tinha sotaque de Goiás.

E o sotaque do Goiás vocês sabe, né.

É pra derrubar os butiá, os pequi, as figurinhas e o que mais tiver no bolso.

Letícia logo tratou de apresentar a prima pro pessoal. Estendia a mão com se dissesse “ó, essa é minha prima. Tenham juízo”, claramente desconsiderando a nossa idade e o pouco valor a qualquer tipo de pudor. Apresentou Bianca ao Wilson, ao PC, ao Pacu, ao Guto, ao Testa, ao Filipe, ao Wagner e ao Salsicha até chegar no Fred. E eu não vi a mínima graça nela. Era bonita? Era bonita. Mas do que adiantava? Se ela não gostasse de Super Mario, mal tentaria interagir com o baixo clero da turma.

O único trunfo de um garoto de 14 anos
O único trunfo de um garoto de 14 anos

Os dias se passaram e foi no início das férias que um gesto entrou na páginas rosadas do conto. Ela me deu “oi”.

“Meu deus, que adolescência triste você teve, amigo”, vocês devem ter pensado agora.

Ok. Era brabo mesmo. Mas é não foi um “oi” qualquer.

Foi um “oi” de vanguarda. Foi um “oi” conceitual. Foi um “oi” sotaque goiano. Um “oi” antes do “oi” geral. Ela veio em direção ao ponto que eu estava, ignorou todos que a aguardavam e me disse “oi, Fred”. Aquilo, senhores, não era normal. As pessoas só não consideraram o fato pitoresco porque a minha insignificância era tamanha ao ponto desse ato passar em branco.

— Oi, Fred, ela disse.

— Oi, ué, respondi, com a malícia de um Don Juan, um Renato Portaluppi, um Gustavo Gitti.

— Qual é a dessa festinha amanhã?, ela indagou.

A festinha era, na verdade, uma tradição do pessoal de ir a lanchonete do bairro na sexta-feira. Sem malícia, apenas pela graça de ficar distante de casa. Expliquei o ritual e ela, sem saber, me apresentou a melhor sensação que um homem pode ter: fazer a mulher abrir um sorriso. Um sorriso de satisfação, não de agradecimento. Aquilo era novo. Deu-me tranquilidade para seguir a conversa. E o principal: me fez descobrir um novo talento.

Durante todo o resto daquela noite, a Bianca dividiu as atenções entre a prima, os amigos da prima e nas nossas conversas. Em alguns momentos, deixou o grupo e veio até mim. Puxava papo, compartilhava histórias e até me convidou para conhecer Brasília. Queria, inclusive, saber melhor como seria no dia seguinte. Disse que não havia segredos. Era só uma lanchonete, mas que, no dia seguinte, seria muito melhor porque ela estaria comigo.

Ela sorriu. Mas sorriu muito.

Eu sabia que tudo estava encaminhado. Dormi contando as horas para às 20h de sexta-feira. Não prestei atenção em nada durante o dia. Fiz umas 50 abdominais. Fui jogar futebol pra fazer o tempo passar. Peguei a melhor camiseta -- uma do CD Nine Lives do Aerosmith. Esperei o Guto e o Marcus e fui pra lanchonete. Lá, alguns amigos. Elas ainda não.

Chegaram.

Sim, ela era linda. E não, a gente não tinha essa cara britânica. Mas foi o que deu pra arranjar e ilustra bem a situação
Sim, ela era linda. E não, a gente não tinha essa cara britânica. Mas foi o que deu pra arranjar e ilustra bem a situação

Já havia virado rotina. Oi pra mim, oi pros outros. Sentou-se ao meu lado. A noite estava espetacular. A lua estava espetacular. O Grêmio na tabela do Brasileirão estava, ok, razoável, mas tudo bem, fazia de conta que estava espetacular. Sentamos num banco de praça, daqueles de concreto. Conversávamos sobre o futuro. Faculdades e eticétera. Eis que, no meio sobre as opções de cursos em humanas, ela me interrompe. E diz:

— Me dá seus olhos?

O mundo, contrariando qualquer formato de regra da astronáutica, da retórica ou da gramática, simplesmente parou. E a minha resposta foi:

— ...

Exatamente:

— ...

Eu fiquei calado. Quieto. Em silêncio. Ela, mais uma vez, sorriu. Mas dessa vez deixou o banco pra conversar com a prima.

Ela não voltou mais. E, naquela noite, beijou um amigo. Ou ele foi mais homem que eu e tomou a iniciativa.

Desculpem-me. Mas falhei miseravelmente. A surpresa foi maior. Eu esperava tomar uma atitude, não ser forçado a tomá-la. Esse despreparo do momento -- e lá se vão 15 anos -- até hoje passeia pela minha imaginação. O que, hoje, eu diria para a incauta? Sempre conto essa história para os bons amigos. Inclusive, colecionei boas respostas:

— Se eu pudesse, te daria.

— Se eu te dar meus olhos não vou poder mais te olhar.

— Fala nada. Pegava pela cintura e agarrava a guria, porra.

Gosto dessa última.

Me arrependo de ter errado? É claro que sim. Mas essa a porrada fez sua diferença no futuro. Por isso questiono quem renasce o papo de “se eu soubesse há 5 anos o que sei hoje seria mais feliz”. Isso é evidente. Ninguém sabe hoje o que vai saber daqui a 5 anos. O máximo que você pode fazer é estar preparado. E, dentro de qualquer limitação, entender que qualquer experiência, dolorosa ou não, tem um significado hoje.

Estou longe de imaginar que essa minha história com a Bianca seja um conto de fadas com um final designado ao sucesso.

Afinal, eu não tenho a menor vocação pra príncipe. E muito menos altura.

Mas adoraria saber: qual seria a sua resposta à Bianca?

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publicado em 28 de Maio de 2013, 21:00
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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