Esquina dos Vinis: um lugar para comprar memórias musicais

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De repente você está andando pela rua e bate aquela vontade danada de comprar um jornal e ler. Você, que tem o tradicional hábito de ler notícias impressas ou é um daqueles usuários de telefone pré-pago e, volta e meia, precisa fazer uma recarga, já sabe onde saciar estes desejos: basta ir à uma banca de jornal e pronto. Problema resolvido? Depende. Se for na banca D'Vinil na Rua Campos Sales, na Tijuca, o consumidor vai ter uma grata surpresa.

Nem sempre é tão grata assim, mas para quem aprecia mais a arte da música que periódicos triviais ou conversas via telefone celular, com certeza terá uma experiência diferente de muita coisa que se vê por aí.

A decoração da banca é como um parque de diversões para fãs de música. Além dos vinis, carro-chefe do negócio e que somam 600 exemplares à venda, tem estações de K7, vitrolas, cd's e um imponente Gramofone, que o dono do negócio – Fábio Antônio – ainda embutiu uma lâmpada e agora, além de tocar discos, serve também como abajur.

Exposto como um troféu, um violão autografado por Roger Waters. E também pelo Thiaguinho, mas, sejamos tolerantes fãs do rock, até porque o Thiaguinho estava no show do Roger e deu uma tietada forte no eterno baixista, compositor e membro do Pink Floyd – contou o empreendedor em um momento Revista Caras do papo.

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Durante a minha estada de aproximadamente uma hora para fazer este texto, umas cinco pessoas pediram recarga de telefone e ouviram uma simpática negativa da vendedora Éryka Rubim e do Fábio, que também é jornalista.

Mas isso é o que menos importa, porque o que impressiona mais é a vasta coleção de discos de vinil que ocupa as prateleiras onde, supostamente, deveriam expor revistas em quadrinhos, revistas, dvds pornô, coisas para concurso público e outros produtos obscenos.

Aliás, obsceno mesmo são os exemplares que estão à venda. A lista é extensa, então tenha paciência ao ler ou pegue um metrô e vá até a estação Afonso Pena. Lá, salte e desça a Rua Campos Sales. Esta pérola urbana fica em frente à filial satânica de comidas rápidas e à uma simpática loja de skate. Se não tem como ir, veja só que pérola rara o Fábio coloca à venda na sua banca: vinil de Elizeth Cardoso, com Zimbo Trio e Jacob do Bandolim. Esse long-play é o mais antigo e foi gravado ao vivo em 1968 no Teatro João Caetano. Obra prima.

O estoque é majestoso e vai desde a gloriosa fase da MPB até os exemplares mais clássicos de um viciante e nostálgico mundo do rock e da música clássica eletrônica: Deep Purple em The House of Blue Light, Black Sabbath e o gigante Heaven and Hell, Peter Frampton Comes Alive!, o som moderno de Jean Michel Jarré em The concert in China, Iron Maiden com Live After Death, Jethro Tull Too Old To Rock n' Roll e por aí vai. Lado a lado, bem pertinho, estão duas fases do maior artista pop de todos os tempos. Michael Jackson com um dos últimos álbuns lançados, o Dangerous, e, coladinho, Os Jacksons.

Para repor o estoque com agilidade, Fábio conta com um fornecedor de vinis, que se chama Chiquinho dos Correios. Parece que este cidadão mora em Teresópolis e trabalha nos Correios. Aí está o segredo para se ter um negócio lucrativo e eficiente neste ramo. Reposição rápida, inovação e, também, saber escolher os discos para revender.

“Comprar bem e ter o mínimo de despesa. Tenho um vinil aqui há vinte anos. E ainda não vendi, mas também não anuncio em lugar nenhum.”

Fábio aposta no encontro entre obra rara e comprador que será, um dia, proporcionado pelo destino.

Em casa, tem 1.000 vinis, e observando toda aquela coleção, enquanto conversávamos, começo a me perguntar se ele teria pena de vender as obras, mas o cara é bem resolvido, e mata a minha curiosidade.

“Não ligo. Porque com o passar do tempo o gosto vai mudando. Eu tenho tantos vinis, que às vezes nem dá pra sentir saudade. Se eu vender um hoje, compro outro amanhã.”

A banca D'Vinil funciona de segunda à sábado de 10 às 19h e está sempre aberta aos amantes da música e aos interessados por uma recarga.

Mas, quer saber de uma coisa, não existe nada melhor para repor as energias que viajar no tempo e mergulhar de cabeça no fantástico mundo dos vinis.

Nota do Editor: As fotos são de Marcelo Araújo, que escreve no Viver Devagar.

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publicado em 16 de Agosto de 2013, 13:12
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Ricardo Almada

Ricardo Almada é formado em jornalismo na UVA, tijucano e tricolor de coração. Ator frustrado, porém registrado, já foi repórter na TVBrasil e editor de conteúdo na Globo.com. Apaixonado por cinema, música e teatro. Pode ser encontrado no Facebook.


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