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Greve da PM no Espírito Santo: um relato de quem está sentindo na pele

O caos nas ruas e na vida de quem está vivendo em total instabilidade

Nota da edição: O Luciano mora em Vitória - ES e entrou em contato com o PdH na noite de ontem, sugerindo um artigo sobre a greve da PM. Nós o convidamos a escrever um relato com as próprias impressões acerca da situação, já que ele está no centro do furacão. Segundo Luciano, a intenção aqui foi trazer o sentimento que predomina no Espírito Santo, tentando contribuir na divulgação das informações por uma perspectiva diferente: a da população.

No Twitter, as hashtags #ESPedeSocorro e #PrayForES estão entre as mais usadas. São fotos de ruas completamente vazias, pedidos de ajuda e relatos acerca do caos que ronda o Estado. 

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Vitória, Oito de Fevereiro de 2017.

São 01h34min da madrugada, a rua paira em silêncio após mais um dia de instabilidade. Estamos entrando no quinto dia de inatividade dos policiais militares.

O telefone toca. Mais um áudio repassado no Whatsapp. Policiais, políticos, jornalistas e população, todos estão conectados. A informação corre em tempo real.

No noticiário dos últimos dias, um grande resumo de toda mídia compartilhada: vídeos de assaltos, trocas de tiro e saques. Tudo acontecendo nos lugares mais familiares, naqueles que o povo capixaba frequenta diariamente. Reta da Penha, Shopping Mestre Álvaro, ruas de Itapoã, poucos locais ficaram ilesos até agora. E a população, atrás das grades, registra e compartilha tudo.

Caos

O momento mais caótico até agora parece ter sido de domingo para segunda - a cidade ainda funcionava normalmente. O dia corria aparentemente bem, mas reservava o pior para a noite. Estava no trânsito por volta de 21h, seguindo de Vila Velha para Vitória, onde moro. Era nítido o temor: diversos motoristas ultrapassando sinais vermelhos, cortando caminho em locais proibidos, correndo mais que o usual. Chegando em casa, fui bombardeado com inúmeras notícias de violência por todo o Estado. Acompanhávamos tensos, pelo vidro - da janela ou do celular - nossas cidades entregues a bandidos.

Cidade Fantasma

Somos todos orientados a permanecer em casa. O máximo possível. O direito de ir e vir não está garantido. Na quarta-feira não houve transporte público nas ruas, após uma experiência negativa na terça, em que os ônibus circularam em horário especial, mas não foi suficiente para evitar a violência. Diante desse cenário, a Federação do Comércio e Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) apontou R$ 90 milhões em prejuízos para lojistas do Espírito Santo até agora, reflexo da grande instabilidade do comércio, que não funciona ou trabalha em horários reduzidos. As repartições públicas seguem no mesmo padrão. As faculdades e escolas permanecem com as aulas suspensas desde segunda-feira. E o mais preocupante, a insegurança também fechou diversas Unidades de Pronto Atendimento e Unidades Básicas de Saúde.

Nos últimos dias, o policiamento vem sendo feito pelas Forças Armadas, que ainda não são capazes de instalar a ordem devido à falta de contingente – a violência diminuiu, mas os incidentes permanecem. A PM e o Governo travam uma queda de braço enquanto a população segue vulnerável, à mercê de todo tipo de criminalidade. A sensação é de completa impotência.

Estamos ilhados, encarcerados, e sem respostas.


publicado em 09 de Fevereiro de 2017, 13:52
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Luciano Ronchi dos Santos

Aficionado por música, natureza e boas companhias. Acredita que a vida acontece lá fora. Instagram


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