Guia pessoal para conversas políticas

Compartilho aqui o que venho experimentando para facilitar meus diálogos políticos

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Antes de conversar sobre política com qualquer pessoa, tento sempre lembrar que:

1. A outra pessoa tem tanto direito à sua opinião e ao seu voto quanto eu, minha opinião e o meu voto não são melhores do que os da outra pessoa;

2. A outra pessoa não quer (deliberadamente) destruir o país: todas nós queremos felicidade, segurança, conexão humana significativa;

3. Não sei como foi a vida da outra pessoa, que traumas sofreu, que experiências a levaram às suas escolhas;

4. Dado que não é uma opção matar ou expulsar do país as pessoas com opiniões inaceitáveis a mim, só me resta aceitá-las ou, em período eleitoral, convencê-las;

5. Não se convence uma pessoa de nada lhe acusando de más intenções ou lhe impondo identidades ("você é isso!"), ofendendo ou excluindo;

6. O primeiro passo para convencer uma pessoa é ouvindo o que ela tem a dizer e se abrindo para sua visão de mundo, aceitando suas experiências e entendendo suas razões;

7. Meu objetivo é inclusão, não exclusão; atração, não repulsão; encontrar pontos de convergência, não de divergência;

8. Se tudo mais falhar, repetir para mim mesmo o primeiro mantra: "A outra pessoa tem tanto direito à sua opinião e ao seu voto quanto eu, minha opinião e o meu voto não são melhores do que os da outra pessoa".

Um debate eleitoral frutífero só pode se dar na base da Atenção e do Cuidado: presumindo que a outra pessoa quer tanto cuidar do Brasil quanto eu e ouvindo com atenção o que ela tem a dizer.

* * *

Essas são regrinhas pessoais, em constante fluxo. Quem achar que faz sentido e quiser adotar, fique à vontade.

Depois de passar o texto entre pessoas amigas, muitas delas discordaram fortemente do segundo ítem. Em resposta, escrevi a continuação abaixo:

* * *

Todas as pessoas querem o melhor para o Brasil

Uma pessoa que defenda propostas políticas que me parecem odiosas está, ainda assim, autoevidentemente falando a partir de um lugar de tornar o Brasil um lugar melhor.

A diferença é que temos ideias bem diferentes de como tornar o Brasil um lugar melhor.

EU acho que as ideias dela para tornar o Brasil um lugar melhor, na verdade, tornarão o Brasil um lugar pior.

Mas, do ponto de vista dela, idem: as MINHAS ideias para tornar o Brasil um lugar melhor, para ela, tornarão o Brasil um lugar pior.

Dá pra ter muita conversa e muito diálogo dentro disso.

Naturalmente, o diálogo predispõe intenção de ambas as partes.

Se a outra pessoa não quer diálogo (e ela tem direito de não querer dialogar comigo), e dado que não posso matá-la, expulsá-la, prendê-la por ter opiniões diferentes das minhas, só me resta aceitar essas opiniões.

Mas, se presumo que, por ela ter opiniões para mim odiosas e inaceitáveis, que ela QUER tornar o Brasil um lugar pior, então, quem está se colocando em um beco sem saída, fora da possibilidade de diálogo, sou EU

* * *

As pessoas não sabem o que querem e o que sentem. Quando sabem, não conseguem articular verbalmente. Quando conseguiriam, não ousam, porque têm vergonha, porque querem agradar, porque pegaria mal, porque magoaria alguém.

Ainda assim, desse jeito tosco e tropeçante, caminhamos pela vida, buscando felicidade e segurança, sempre carentes por qualquer tipo de conexão humana significativa.

Presumir essa boa-fé inerente à condição humana é o que nos permite criar uma ponte com a outra pessoa.

* * *

Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen

Faço parte da Ordem dos Pacificadores Zen. Todos os dias, ao meio-dia, repito nossos três votos:

— Praticar o não-saber, abrindo mão de certezas prévias.

— Estar presente na alegria e o sofrimento, nunca virando o rosto.

— Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.

O primeiro voto, “praticar o não-saber, abrindo mão de certezas prévias”, não significa abandonar nossos conhecimentos, mas somente nosso apego a eles, por reconhecer que esse apego muitas vezes nos impede de perceber a realidade como ela é. Quem acha que sabe, não enxerga, não aprende, não escuta: a atenção precisa ser somente para o outro, vazia de todo o peso que colocamos nela.

O segundo voto, “estar presente na alegria e o sofrimento, nunca virando o rosto”, significa enxergar a outra pessoa sem separação e sem negação, sem julgamento e sem análise, sem sujeito e sem objeto. É estarmos ali, de forma plena e destemida, abertas ao que é, aceitando a realidade do momento presente, habitando a vulnerabilidade ou o êxtase, a dor ou a alegria, da outra pessoa.

Já o terceiro voto, “agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas”, é a consequência lógica e necessária dos dois primeiros: se consigo me desapegar de meus conhecimentos e habitar plenamente o momento presente, então, a ação correta, ao mesmo tempo amorosa e política, se revelará.

O processo de corporificar os três votos em nosso dia a dia pode ser árduo e gratificante, inspirador e apavorante. O primeiro passo é reconhecer a enormidade de nosso não-conhecimento. Ao fazer isso, perdemos aquela profunda certeza na solidez de nossas opiniões. Sem essa certeza, já não nos sentimos tão impelidas a julgar e opinar sobre as vidas alheias. Sem julgar e sem opinar, nossas interações humanas começam a se tornar menos violentas, invasivas e autocentradas. Agora, já conseguimos simplesmente estar ali, ao lado de outra pessoa, de maneira plena e aberta, não mais como juízas que tudo sentenciam ou como mestras que tudo aconselham, mas apenas como pessoas capazes de ouvir e de aceitar, de acolher e de abraçar.

Longe de promover a alienação e o conformismo, estar presenta na alegria e na dor alheias a partir de uma postura de não-conhecimento nos permite e nos estimula a agir no mundo de forma mais efetiva e mais generosa, menos egoica e menos violenta, mais transformadora e mais política.

* * *

Os encontros "As Prisões"

São instalações artísticas, polifônicas e interativas, improvisadas e colaborativas, onde praticamos escutatória e atenção, generosidade e cuidado, e exploramos os limites e possibilidades da comunicação cotidiana: o que falamos?, como falamos?, por que falamos?

O nome vem de uma série de textos que estou escrevendo desde 2002, tentando mapear todas as Prisões cognitivas que acorrentam nosso pensamento: Verdade, Dinheiro, Trabalho, Privilégio, Monogamia, Religião, Obediência, Sucesso, Conhecimento, Felicidade, Autossuficiência,  Patriotismo, e a maior de todas, Eu.

Os encontros, realizados por todo o Brasil desde 2013, reúnem de dez a trinta pessoas, duram de um a cinco dias e são sempre diferentes, imprevisíveis, únicos.

Neles, enquanto discutíamos "As Prisões", os Exercícios de Atenção foram criados, gestados, aperfeiçoados, em um processo colaborativo com as pessoas participantes. Hoje, os encontros servem para praticarmos esses exercícios e para inventarmos juntas os próximos, em um processo que só poderia acontecer presencialmente, olho no olho e lágrima no suor.

Ninguém é obrigada a falar: toda fala é voluntária.

Ninguém é obrigada a pagar: todo pagamento é voluntário.

Para saber quando serão os próximos, visite minha página de eventos.

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publicado em 11 de Outubro de 2018, 00:00
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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