Guia quase prático: 7 dicas para se reconectar com os pais

Natural, em algum momento, um distanciamento saudável. Cabe a gente, agora, cuidar do processo de reaproximação com nossos pais

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Nesse exato momento, antes de começar a discorrer sobre (re)conexão entre filhos e pais e refletindo sobre isso, veio-me uma máxima: “A vida é feita de gentilezas!”. Nesse exercício, eu me punha a pensar justamente sobre os três ou quatro finais de semana que meu pai me ensinou a andar de bicicleta anos e anos atrás. Clichê?

Foi numa passagem de pedestre no centro de São Caetano do Sul, no ABC paulista, fechada aos fins de semana. Eu, com meus cinco ou seis anos, fui convidado pelo meu pai para um programa diferente: “Não é passeio”, dizia ele em tom de suspense.

Meu pai tinha comprado minha primeira bicicleta umas duas semanas antes e, no sábado em que ele me chamou para o “não passeio”, eu fiquei intrigado sobre o que era sair para não passear. Atravessamos a rua de casa e: “chegamos!”. Me lembro de ter sentido certa frustração por ter chegado tão rapidamente a algum lugar que meu pai se propôs a me levar e que “não era passeio”. O que eu não sabia é que ele, um amante de surpresas simples (mas bem pensadas), já tinha deixado minha bicicleta nova em um estacionamento de um colega, ali pertinho, antes de me acordar.

“Vou te ensinar andar de bicicleta, filho”, enfim me revelou. Na hora, lembro de ter gelado num misto de ansiedade, um pouco de medo e, claro, felicidade. Os primeiros metros foram os mais temerosos, mas logo ele disse: “calma, eu tô te segurando!”. E assim foi naquela e na manhã do sábado seguinte; eu, minha bicicleta nova (ainda com rodinhas!) e meu pai.

No terceiro fim de semana, ele falou que ia levar a bicicleta sem rodinhas desta vez. Aquele friozinho na barriga voltou a aparecer. “Vamos tentar do mesmo jeito. Você pedala, olha pra frente e eu te seguro”. Cinco metros depois, eu olhei pra trás, meu pai não estava segurando. Eu tinha pedalado os primeiros metros sozinhos, mas logo ao saber disso, desequilibrei e caí. Meu pai levantou a mim e a bicicleta e olhou meu joelho. Mercúrio no ralado e voltamos à praça para mais alguns metros. Caí novamente, mas dessa vez sem escoriações.

Uns anos depois, ele me confidenciou que, já nas primeiras horas, do primeiro dia de treino, eu tinha andado sozinho. “Eu só ficava perto, fingindo estar te segurando, para você não ter medo”.

Divagando sobre isso hoje, refleti que a gentileza do meu pai naquele momento foi exatamente o que facilitou eu aprender a andar de bicicleta. Quanta gentileza do meu pai! Quanta gentileza! Ele, assim como todos os outros, carinhosamente se colocou no meu lugar (teve a empatia sobre meus medos) para que eu me sentisse seguro e conseguisse.

Há alguns anos minha relação com ele não é a mesma. Muito por isso, como espectador da vida que adoro ser, acabo observando como alguns amigos mantém essa conexão (ou alguma parte dela) com seus pais. A Mari Zen, amicíssima, tempo desses levou a sério um projeto que se propôs a fazer com o pai. O seu Reinaldo sairia de São Paulo para 11 dias de caminhada rumo a Aparecida. A Mari, jornalista, se propôs então a manter o blog contando cada dia da aventura dele.

Com muito carinho, acompanhei todo esse dia a dia (da Mari publicando no blog e do seu Reinaldo caminhando, pelas próprias histórias e fotos contadas no posts). Todo esse processo era tão maior que o blog em si. Tão legal quanto as histórias contadas lá era ver o compromisso e confiança que a Mari e o seu Zendron tinham entre si, com o propósito de registrar aquele momento especial da vida dele(s). Era uma reconexão da Mari com o pai que não acontecia, necessariamente daquela forma, há algum tempo.

Conversando com a minha terapeuta sobre o tema, a Janaina Rodrigues, ela sabiamente resumiu esta reconexão com os pais, depois que nos tornamos adultos: “As relações familiares não fogem à rega de qualquer relação interpessoal. Ou seja, o modo como as pessoas se relacionam depende de suas histórias pessoais e da maneira como interpretam eventos. Os relacionamentos são mantidos por  interesses e afinidades, portanto pais e filhos podem estar perto ao experimentarem coisas novas para ambos e tantas outras coisas simples, pois o que realmente importa é a vontade de estarem próximos”.

A vida e nossas relações, de fato, não são uma matemática simples, mas algumas atitudes cotidianas podem ajudar nessa reaproximação com os nossos depois que saímos de casa.

1. Relaxa, algum distanciamento é natural e saudável

É fato. Tanto nós quanto nossos pais sabemos que nossa relação muda, assim como as demandas afetivas se transformam ao longo da vida. O que nos define na infância é a dependência dos pais com os cuidados básicos: alimentação, higiene e afeto. Durante o crescimento, atribuímos outras funções como educação, regras e limites e valores familiares e culturais dos pais para com os filhos.

Já na fase adulta, os filhos se estabelecem emocional, financeira e socialmente. Passam a ter sua própria vida, independentemente da rotina diária que mantém com seus pais. Essa troca de experiências trazidas da rua para a família é saudável. Os pais certamente entendem e orgulham-se de ver os filhos formando a própria vida, casando, tendo seus próprios compromissos, formando uma nova família.

Mas, claro, que mesmo diante de toda a sabedoria, ninguém está preparado para um distanciamento radical. A saída de casa é justamente o momento de nos reaproximarmos da família para continuar a aprender e também ensinar coisas novas, das experiências que vivemos longe do ninho onde nascemos. O Anderson Martiniano, outro amigo terapeuta sempre disposto a divagar sobre estes assuntos comigo, comentou que “na fase adulta, a relação, antes modulada por expectativas dos pais sobre seus filhos, transforma-se em filhos que esperam que os que os pais aceitem suas individualidades, crenças e opiniões, quebrando a ideia de dependência”.

Reforço: os pais, de alguma forma, entendem todo esse processo, ainda que ele seja um pouco doloroso para eles.

2. Seu pai sabe a respeito da sua organização do tempo

Como em qualquer outra interação humana, o relacionamento familiar não representa um modelo de perfeição. Porém, quando existe diálogo, confiança, apoio, respeito e interesse mútuo, podemos afirmar que os laços do amor, via de regra, unem pais e filhos por toda a vida.

Nossos pais, assim como nós, já passaram pelo momento de “desgarrar” da família. Então, fiquemos tranquilos, pois eles têm plena consciência que, uma vez fora de casa, nós assumimos outros compromissos, conhecemos outros núcleos afetivos e outras fortalezas para aprendizados.

É claro que não vale abandonar (no sentido figurado ou literal) a família. Aos filhos cabe entender que qualquer cobrança vinda dos pais (“quando você vem aqui?”) faz parte de um novo aprendizado que começou mesmo antes dele nascer e, por isso, não há culpa no meio do caminho.

O Anderson tem uma dica para não sentirmos culpas: “Uma forma de, nós, enquanto filhos, não sentirmos alguma culpa (por estarmos fazendo nossas coisas e não estarmos sempre junto dos pais) é assumir que as relações não são determinadas pelos feitos e, sim, pelos afetos. A culpa surge quando os pais cobram de seus filhos os seus esforços ou quando os filhos se submetem à ideia de que precisam, a qualquer custo, devolver o que receberam”.

Sem culpa, com afeto!

3. Whatsapp tá valendo, mas não é tudo

Hoje em dia, a tecnologia pode ser, claro, (e é!) nossa grande aliada para manter aquele contato quase que em tempo real com todo mundo, inclusive com nossos pais. Introduzir essa ferramenta no seio familiar é até muitas vezes tarefa nossa, pois eles nem sempre estão acompanhando os avanços na mesma velocidade que nós. Eu acabo passando dias sem estar com a minha mãe, mas mesmo assim não deixamos de trocar umas mensagens de “oi, tudo bem?” ou mesmo de “como está sua semana?”. Vira e mexe presto assessoria para que ela possa me enviar uma foto do que está acontecendo lá em casa.

Outro grande amigo usa o Whatsapp para comentar partidas de futebol e assuntos sobre política no dia a dia com o pai. É uma das formas que eles encontraram de manter aquela troca (vivida na infância e adolescência) funcionando. Isso certamente faz a diferença.

É claro que os apps não substituem a ligação carinhosa em qualquer momento do dia, da semana ou do mês. Ouvir a voz um do outro é um sinal, para ambos, de que “sigo aqui por você e sei que você está aí por mim”.

Mas para além do Whatsapp e da ligação, aquela visita básica, sempre que possível e que for pra ser gostoso, faz muito bem para os dois lados: aos pais por poderem “conferir” como o filho está se desenvolvendo (sim, para eles essa avaliação ainda é importante!), se está bem de saúde, o que tem feito, pensado e passado; para os filhos, pois podem simplesmente desfrutar daquele ambiente que o formou e, muitas vezes, recarregar as energias para os próximos dias que, sei lá, serão pesados no trabalho, por exemplo.

Skype com hora marcada e sem hora para acabar - ou mesmo para um jantar com a família (cada um de suas casas) - vale muito para quem mora longe. Segundo o Anderson, “o que realmente importa é a vontade de estarem próximos”.

Além de visitá-los, trazê-los para o seu espaço também é bem especial.

4. Promova atividades com seu pai (pelo menos em alguns momentos)

Esse mesmo amigo que discute futebol e política com o pai pelo Whatsapp, tempo desses fez algo pelo “velho” que, sinceramente, emocionou. Por questões algumas limitações de saúde, o pai já não sai tanto de casa, ficando para os filhos (não obrigatória, mas carinhosamente) a tarefa de levá-lo a lugares que ele já não frequenta sozinho.

Um belo dia, esse amigo comprou ingressos para um jogo de futebol e armou um esquema para poder levar o pai, mesmo em uma cadeira de rodas. E assim foi feito. Todo o “sacrifício” do filho fez com que os dois puderam torcer juntos em um estádio novamente.

O engajamento da Mari, que citei no início, é outra forma que ela encontrou de se reconectar ao pai - só ela e ele, numa cumplicidade pelo mesmo objetivo. Objetivo este que, claro, ia muito além de postagens em um blog, mas de contato durante aquela viagem tão importante para o pai. Naquele contexto, ela foi o elo entre ele e o mundo cotidiano.

Quando eu ainda mantinha um relacionamento próximo com o meu, ele fazia alguns trabalhos artesanais. Era comum os sábados em que íamos juntos ao Brás ou à 25 de Março (em São Paulo) para que ele pudesse comprar seus materiais. Eu não era determinante naquele momento - ou ele podia fazer aquilo sozinho -, mas aproveitávamos o passeio “simplesmente” para ter a companhia um do outro.

“É preciso reinventar os espaços e os encontros, pois não devemos aceitar que os programas estejam baseados nas obrigações e, sim, na vontade de querer encontrar e fazer acontecer. Não acredito que tenhamos que definir eventos, mas, sim, vontade pra querer conviver”, pontuou a Janaina.

Em resumo, os relacionamentos são mantidos por interesses e afinidades quando, por exemplo, pais e filhos frequentam locais de interesse comum, experimentam situações novas para ambos e por aí vai, pois o que importa mesmo é a vontade de estarem próximos.

Faço questão de encerrar esse bloco com uma frase bem foda do Anderson: “Amor não tem lugar, nem GPS”.

5. Compartilhe os momentos importantes de sua vida com ele (se possível, em tempo real)

“Pai, nas férias vou viajar para um lugar incrível” é uma frase comum quando, nós, enquanto filhos, queremos dividir os acontecimentos de nossas vidas com eles. Mas, convenhamos, não vale só anunciar e não fazer, de alguma forma, os pais participarem desse momento. Cada relação entre pai e filho se dá de uma maneira, mas é certo que eles querem participar, pelo menos de alguns. Assim como fizeram a vida toda nas nossas formaturas, no primeiro andar de bicicleta, eles querem de alguma forma participarem dos grandes eventos, como uma grande viagem.

Eu, que acabo de voltar de férias, penso que vale (muito) a pena reservar momentos ao longo dos dias de viagem para aquela ligação ou mesmo para enviar uma mensagem contando os últimos acontecimentos. “Puxa, pai, hoje visitei um lugar maravilhoso. Veja essa foto! Quando eu voltar, quero contar todas as histórias daqui para vocês”.

Para os feitos mais cotidianos, é legal e ele vai gostar de saber que sua entrevista de emprego não deu certo, mas que tudo bem; que a apresentação no curso foi difícil, mas no final deu tudo certo; ou mesmo sobre aquele encontro, que comentamos no último almoço, foi muito gostoso.

Carinho é algo que se forma na mão dupla. Sentir-se importante para alguém é saber que assim da mesma forma que me preocupo e quero ter notícias, a pessoa do outro lado também está com vontade.

6. Convide-o para um rolê que você passou por perto e lembrou dele “esses dias”

Nos quase 25 anos que viveu em São Paulo, meu pai, alagoano, nunca tinha estado no Ibirapuera. Eu, com uns 18, fui a um evento na região do parque, sozinho pela primeira vez. Ao sair, passei por lá e fiquei sentado por alguns minutos, tomando um suco e observando. Meu pai certamente ia se sentir bem ali no gramado, com algumas barracas de artesanato em volta, crianças aprendendo a andar de bicicleta, enfim, diversas cenas. No caminho para pegar o ônibus, imediatamente liguei para ele e combinei de irmos juntos pra lá no sábado seguinte. Este final de semana talvez tenha sido um dos momentos que mais aproveitei com meu pai depois que minha mãe e ele já tinha se separado. Conversamos sobre política, nossos trabalhos, a vida, nossa família e até lembramos dos dias em que estava aprendendo a andar de bike.

A Janaina me falou algo bem forte quando levantei a questão do abandono de filhos para com os pais e que cabe muito bem nesse momento: Na maioria dos casos, o abandono é afetivo. Os filhos até frequentam a casa de seus pais, mas não se importam com eles”.

E aqui um apelo a nós, filhos: não vamos cumprir protocolos! Não precisamos! Estar no almoço da família no domingo, apenas para passar a salada para o outro é sufocante todos: para eles que, em algum momento, vão perceber que aquilo é só uma obrigação protocolar; e para nós, por estarmos nos sentindo presos àquela agenda. É muito mais saudável para todos, depois que iniciamos a fase adulta e tocamos nossa própria vida, estarmos juntos nos momentos em que as duas pontas querem estar, onde naturalmente todos, em algum momento, darão sorrisos largos, abraços, lembrarão de histórias e, enfim, será especial.

7. Leve a cervejinha (vinho ou suco) para um programa caseiro

Ah, peça e pague a pizza.

Não sendo algo protocolar, passar um fim de semana na casa dos pais é algo bastante gostoso. Pelo menos para mim, é uma sensação de estar de volta àquele lugar onde aprendi tantas coisas, cresci e tanto afeto esteve envolvido. É para onde vamos e não precisamos “levar toalha” e, caso esqueça a roupa de dormir, vai ter alguma nas gavetas.

Quando estou lá, na noite do sábado, costumo seguir o programa básico da casa: jantar e assistir novela. Às vezes, proponho um filme no lugar do “capítulo de hoje que nunca acontece tanta coisa”. O cardápio normalmente é um lanche improvisado e cada um faz o seu ou uma pizza, “desta vez de um sabor de diferente, por favor”. Às vezes eu pago, às vezes fazem questão de dividir o valor comigo e tudo bem.

Outro sábado fui jantar na casa do meu sogro e da minha sogra e levamos um vinho, assim como fazemos cotidianamente em encontros com amigos. Quando o jantar foi servido e pegamos as taças, brindamos “como se faz quando vamos no restaurante”. O sorriso ingênuo e tímido deles nos deu a certeza de que aquela noite, em casa, foi muito gostosa.

Normalmente a louça do sábado à noite fica para o domingo. Como agora somos “visita”, não nos deixam mais lavar uma colher. É aí que está o pulo do gato. Claro que não nos tornaremos os lavadores de louça oficiais do domingo de manhã da casa dos nossos pais - até porque quando eles veem à minha casa, eu não os deixo mais fazer nada -, mas vez ou outra oferecer, de modo carinhoso, lavar os pratos que ficaram é uma bela forma de reconexão.

Trago novamente trecho da minha conversa com a Janaína, desta vez sobre os pais enxergarem os carinhos oferecidos pelos filhos, devolvendo a gentileza de uma vida: “Quando estou na casa dos meus pais, com jeitinho, acabo lavando o que está na pia enquanto conto as novidades para eles. Ao permitir que os pais façam tudo, quando nós, filhos, estamos por perto, estamos reforçando a ideia de que eles só agradam dessa maneira. Provavelmente eles ainda não aprenderam que aceitar a ajuda dos filhos também é uma forma de relacionar-se afetivamente com eles. Nós podemos ensiná-los”.

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8- Façam uma viagem juntos:

Sair do ambiente comum, relaxar, conhecer coisas novas e explorar um lugar novo juntos. Que pai não curtiria fazer uma viagem junto com o filho?

Os shoppings Boulevard Tatuapé e Metrô Tatuapé podem te ajudar a dar um presentão para o seu pai, cada R$ 300 em compras, você ganha um minikit de ferramentas e concorre a uma viagem para a Itália com direito a uma visita ao Museu Ferrari e um Test Drive num dos carros mais icônicos do mundo, a Ferrari e tudo isso com direito a um acompanhante.

Participe.


publicado em 11 de Agosto de 2016, 15:55
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Danilo Gonçalves

Um cara alegre e gosta de ser lembrado assim. Jornalista de formação, com um pé na publicidade, gosta de Novos Baianos, Doces Bárbaros e Beatles. Já gostou de Calypso e como todo gay que se preze, é fã da Beyonce.


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