Jogador de futebol mostra que não é tão difícil ser humano (mesmo sendo jogador de futebol) | Mais quem um jogo #14

Este não é um artigo da série Homens que você deveria conhecer, mas poderia

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A gente fala até com certa frequência sobre os privilégios que temos e, muitas vezes, não percebemos. Sobre as bolhas onde nos metemos e que, com o passar do tempo, se naturalizam a ponto de tornarem-se imperceptíveis, deturpando nossa percepção da realidade.

Agora, se nós – jornalistas, advogados, engenheiros, professores, médicos –levamos uma vida considerada normal e ainda assim temos nossas bolhas, imagine um jogador de futebol.

Quando falamos de Brasil, a narrativa do jogador famoso geralmente é algo muito próximo disso: o moleque vem de uma família pobre, começa a jogar bola, percebem que ele tem talento, entra pra um clube, é alçado ao time profissional e de repente está ganhando mais do que 99% da população brasileira. Junto com o dinheiro, vem a fama e em não mais do que alguns anos, o moleque sai da pobreza pra condição de vida que eu e você provavelmente nunca teremos. Não sei você, mas já me imaginei nessa condição e não descartei o cenário no qual me tornava um completo babaca.

Essa hipótese, por sinal, se torna real em vários casos. Como resultado dessa sequência toda, não é raro ver jogadores fazendo e falando muita bosta por aí. O personagem de hoje, porém, definitivamente não é um desses caras. Pelo contrário. Este não é um artigo da série Homens que você deveria conhecer, mas poderia.

Um pouco de humanidade, por favor

Juan Manuel Mata Garcia nasceu na Espanha em 1988. Lá, começou a jogar profissionalmente pelo Real Madrid 'B', mas também defendeu o Valencia. Em 2011, saiu de seu país para jogar no Chelsea, onde permaneceu por três temporadas até se transferir para seu atual time: o Manchester United.

Com os clubes, Mata conquistou os principais títulos internacionais que um jogador europeu cobiça (Liga dos Campeões e Liga Europa), mas integrante da seleção espanhola desde as categorias de base, Mata fez parte da geração que deu o primeiro título mundial para a Espanha em 2010, além de ter conquistado também uma Eurocopa em 2012.

Tantos títulos trouxeram muito reconhecimento e dinheiro, mas Mata nunca pareceu vislumbrado. Ao longo de toda sua carreira é difícil encontrar uma derrapada, uma declaração com a cabeça quente, um ato falho. Mata não é de provocar adversário, nem causar polêmicas desnecessárias. Uma breve busca por seu nome na internet vai mostrar que o que se destaca nas declarações deste jogador em especial é a sinceridade e uma visão surpreendentemente sensata do mundo.

Mesmo sendo um agente direto da movimentação de cifras astronômicas de dinheiro no futebol (Mata foi a contratação mais cara da história do Manchester United à época), o jogador criticou a influência do poder financeiro nos rumos do futebol. Recentemente, numa entrevista para uma canal de televisão espanhol, Mata disse que jogadores ganham um valor "obsceno" e "vivem numa bolha".

Eu não gosto do lado mercadológico do futebol. Eu amo o jogo. Eu amo treinar e competir. Eu aceitaria uma redução de salário tranquilamente se isso significasse menos envolvimento dos negócios no futebol. Nesse nível, somos muito bem pagos e algumas vezes você pensa que não existe realmente muita diferença entre x e x+3.

O futebol é muito bem remunerado neste nível. Nós vivemos em uma bolha. Em relação ao resto da sociedade, nós ganhamos uma quantia ridícula. Imensurável. Em relação ao mundo do futebol, eu tenho um salário normal. Mas, em comparação a 99,9% da Espanha e do resto do mundo, eu ganho uma quantia obscena. O barômetro que usamos para medir nossos salários é a comparação com os nossos companheiros de time e o que outros jogadores ganham em outros lugares.

Eu vivo numa bolha. A vida real é a que meus amigos vivem. Eles tiveram que procurar emprego, receber auxílio e imigrar. Isso é a vida normal hoje em dia. Minha vida de jogador de futebol não é normal. Eu fico assustado em pensar o quanto sou protegido. Quando surge o menor problema, alguém aparece para consertá-lo para mim.

A declaração não é muito diferente do que nós sabemos da realidade do futebol, mas, vindo de quem vem, surpreende pela franqueza. Não é todo dia que se ouve um jogador de futebol reconhecer os privilégios que têm com essa clareza de raciocínio. Entretanto, essa poderia ser apenas uma declaração vazia do jogador espanhol se não viesse acompanhada de ações.

Mata não abriu mão de seus salários, fez grandes doações ou coisas do tipo, mas parece ter escolhido sua causa. Através de suas palavras e, mais recentemente, de seus gestos, se mostrou disposto a tentar furar a tal bolha onde vivem os jogadores de futebol.

Constantemente associado a trabalhos voluntários em instituições de caridade, Mata parece ter desenvolvido atenção especial aos portadores de deficiência, sejam elas físicas ou mentais. Quando na temporada passada o Manchester engatou uma sequência de vitórias, os jogadores do time tomaram conhecimento de um torcedor especial que poderia estar servindo de amuleto. Tratava-se de Alex Nield.

Torcedor fanático dos Diabos Vermelhos, assim como seu pai, o garoto de 9 anos tem paralisia cerebral, mas mesmo assim viaja por toda a Europa para acompanhar os jogos do time. Em maio deste ano, na partida do United contra o Norwich, Alex teve uma oportunidade de ouro: acompanhou o aquecimento do time de dentro do gramado. A presença inesperada chamou a atenção de Mata que se dirigiu até o garoto e fez questão de cumprimentá-lo, tirar uma foto e agradecê-lo pelo apoio.

Ver o aquecimento de perto já seria o máximo para Alex Nield.
Imagine a reação dele quando Juan Mata veio em sua direção.
Era pra ser só um aquecimento normal, mas ficará marcado para sempre pelo menino.

A surpresa de Mata não poderia ser maior quando descobriu através do pai que o garoto reserva um carinho especial pelos jogadores que usam a camisa número oito, justamente a de Mata. Na época, Jon, o pai, disse:

"Alex ama jogadores que usam a camisa 8. Ele costumava gostar de Anderson. Mesmo que ele não fosse o melhor jogador, meu filho o adorava. Agora veio Mata e ele simplesmente o idolatra." 

Meses depois, os dois se reencontraram. Dessa vez, após o último treino do time no sábado, antes do jogo contra o Stoke City pelo Campeonato Inglês. O meio campista já era o último jogador a deixar Old Trafford, mas não exitou em deixar Mourinho, Ibrahimovic e companhia esperando mais um pouco dentro do ônibus quando avistou Alex a sua espera.

Link Youtube – Mata e Alex, o reencontro

Em pouco mais de um minuto, Mata cumprimentou o garoto e seu pai, tirou mais uma foto de recordação e chamou um segurança para garantir que ambos tivessem a oportunidade de assistir ao próximo jogo da equipe. Sem fazer questão de ganhar cartaz por isso, Mata mostrou que é fácil fazer muito por alguém com tão pouco.

Parece que o garoto tem todas as camisas do Manchester mesmo.

publicado em 04 de Outubro de 2016, 21:57
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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