"Dear basketball" — assista o curta ganhador do Oscar, inspirado em despedida de Kobe Bryant

Kobe é o primeiro atleta da história a levar um Oscar. Ele escreveu e narrou o poema que é a espinha dorsal dessa bela animação.

Estou cá vendo o Oscar 2018, mesmo tendo assistido somente ao excelente "Corra!". Me chamou atenção imediata o prêmio levado por Kobe, atleta que admiro. Quero dispensar algumas palavras à respeito.

Sua animação foi inspirada no poema de despedida do "Black Mamba", publicado no The Player's Tribune em 2015, durante sua última temporada. Abaixo a versão legendada (e aqui a original):

Sobre desistir, "winners" e "losers"

O curta de Kobe vai no coração, transborda sentimento, fibra, humildade. É uma ode à tenacidade e ao entusiasmo da carreira de 20 anos de um dos atletas mais incríveis a pisar numa quadra de basquete.

Mas ele ser agraciado com o Oscar também me parece contar da obsessão norte-americana com vencedores.

Por isso o trecho que mais me toca é o reconhecimento de que a jornada havia chegado ao fim, o momento de jogar a toalha. O corpo não aguentava mais, por mais que a mente e o coração dissessem sim. 

Até hoje me recordo do texto "A hora certa de desistir", de Adriano Silva (amigo, jornalista e atualmente publisher do Projeto Draft), que li cerca de 8 anos atrás, quando atravessava um período bastante duro. É necessário sabedoria para reconhecermos o fim de um ciclo.

Adriano vai além ao ponderar a fantasia que os yankees nutrem com os "winners" (vencedores), expressa em toda sua glória no curta de Kobe. Por isso me permito encerrar essa breve reflexão com seu artigo. Que suas palavras possam ajudar alguns de vocês, seja a persistir ou a desistir, assim como fizeram por mim.

"A hora certa de desistir", por Adriano Silva

"Às vezes, puxar o plugue da tomada é a melhor coisa que você pode fazer.

Seja num casamento, seja num emprego. Seja num empreendimento, seja na tentativa de conquistar alguma coisa ou alguém – uma cidade nova, um novo ambiente de trabalho, um novo chefe. Há momentos para investir, para agüentar o tranco e ir adiante. Há grande valor nisso, na bravura, na persistência.

E há momentos para desinvestir, para olhar a situação de cima e com serenidade e inteligência decidir se vale a pena continuar ou não. Também há muito valor nisso. Na capacidade de sair das aventuras na hora de certa, antes que elas terminem mal.

A desistência nem sempre significa derrota. Várias vezes ela pode representar grande vitória pessoal. É preciso ter coragem para colocar o ponto final numa frase que você considera que já está longa demais ou que está ficando crescentemente mal escrita, a cada nova palavra que vai sendo colocada ali.

Isto pede uma coragem tão grande, muitas vezes até maior, do que aquela necessária para começar a frase, para começar a deitar palavras numa tela em branco.

Portanto, nem sempre passar a régua no que está rolando é sinônimo de covardia. Cair fora pode ser um ato de respeito a você mesmo. E, portanto, de sabedoria.

A sensação de encerrar uma experiência que não está mais lhe satisfazendo é bastante libertadora – difícil traduzir "liberating", do inglês. É uma lufada de frescor, de energia boa.

Uma sensação de liberdade e de poder, de agarrar de novo o volante da sua vida e a prerrogativa de decidir para onde seguir. Ainda apelando um pouco para o inglês, há marcada diferença entre o "quitter" e o "loser", dois arquétipos da cultura de competição americana. 

Enquanto, por lá, o "winner", o cara popular, o self-made man, pode tudo, conquistou o pedaço e olha tudo de cima da sua torre (de onde pode também cair a qualquer momento e se esborrachar legal), o "quitter" é o cara que recusa seguir na toada, que breca o carro, entrega as chaves e diz: "não quero mais".

Os americanos têm ainda o "loser", figura que ninguém quer ser, motivo de piada e escárnio. É o cara que se dá mal, que termina em último (ou mesmo em segundo…). É o cara que tenta e não consegue, que perde ao invés de obter, que em vez de crescer termina reduzido. Uma tremenda bobabem e uma rematada injustiça, a meu ver.

Cair é serventia desta casa chamada vida.

E qualquer um que cai pode se levantar no minuto seguinte. (Exceto se acreditar nesse jeito americano de ver as coisas e vestir o chapéu do cara que nasceu para não dar certo. Esse cara não existe. Todo mundo pode e vai dar certo em alguma coisa. Se não deu ainda é porque não achou a coisa certa para fazer.) 

Mesmo olhando com a lente dos gringos, e admitindo a visão adolescente que eles têm dessa coisa, o "loser" deveria ser incensado. Afinal, ele precisa existir para que o "winner" aconteça.

O palhaço deveria ser o cara mais bem pago porque o circo não existiria sem ele."

* * *

Palmas, Kobe. Palmas a todos que não têm cinco anéis da NBA e um Oscar na prateleira de casa. Seguimos juntos.


bônus track: assista essa edição maravilhosa do 1-on-1, com Shaq e Kobe, que foi ao ar em fevereiro desse ano. São 30 minutos excelentes, nos quais vemos muito do que há além do "winner".

 


publicado em 05 de Março de 2018, 00:58
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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