Primeiros parágrafos fodões | Listas descaralhantes #2

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Literatura é um troço chato pra muita gente. Não raro, nos deparamos com notícias como "Universitários brasileiros leem apenas de 1 a 4 livros por ano, revela Andifes" ou algo que o valha. Pois esse troço chato que eu tanto amo calhou de ser meu ganha-pão – há anos resenho livros para revistas e sites – e, por conta do ofício, recebo livros diariamente em casa.

Literatura é um prazer

Das minhas leituras, trago algumas manias. Faço anotações no livro, leio o colofão antes de qualquer coisa e coleciono primeiros parágrafos – afinal, são eles que fisgam o leitor. Um bom primeiro parágrafo leva o leitor a devorar a primeira página; uma primeira página foda leva o leitor a ler cinco; as cinco primeiras páginas do caralho levam o leitor a ler o primeiro capítulo...

Apresento aqui os cinco primeiros parágrafos que eu considero mais fodões da literatura mundial. (Inclusive coloque nos comentários os seus primeiros parágrafos fodões):

1. Carta a D., de André Gorz

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.

O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D., é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos começados, talvez, em 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão é tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.

2. Lolita, de Vladimir Nabokov

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita. A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.

3. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. 

Já que estamos fazendo uma lista, devo dizer: Cem anos de solidão está entre os três melhores livros que já li. É talvez o grande clássico da literatura colombiana e foi eleito o segundo maior livro da literatura em língua espanhola, atrás apenas de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Trata-se de um romance fantástico que conta o nascimento da cidade de Macondo e vida de sete gerações da família Buendía. Um livro lindo com suas revoluções, suas loucuras e gente que teme nascer com rabo de porco.

4. As intermitências da morte, de José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu.

As Intermitências da Morte, de José Saramago não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”

5. Trópico de Câncer, de Henry Miller

Estou vivendo na Villa Borghese. Não há um resquício de sujeira em parte alguma, nem uma cadeira fora do lugar. Estamos completamente sozinhos aqui e estamos mortos.

O norte-americano Henry Miller fez como muitos escritores no período entre-guerras e migrou para Paris. Lá, fez de si um exilado e provou tanto da vida boêmia e da liberdade quanto da quase falência e da perda de identidade. Publicado em 1934, Trópico de Câncer reflete o espírito daquela época aos olhos de um homem fragmentado. Um homem que foi, depois da publicação de seu grande livro, acusado de ser pornográfico. Pudera: o romance tem como palco pensões chinfrins e cafés vagabundos; seus personagens são artistas e putas. E este parágrafo inicial é apenas o primeiro de muitos socos no estômago.


publicado em 26 de Outubro de 2011, 07:10
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Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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