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Mulheres que não são só mães, mas que também são mães

Há muito que acabou essa coisa de mulher virar mãe e abandonar seus outros "eus". E que foda é ver uma mãe sendo a melhor delas e muitas outras coisas

Em 1976, John Lennon decidiu não renovar o contrato com sua gravadora. Aliás, ele foi ainda mais longe e deu um tempo na carreira. Era hora de colocar a cabeça em ordem. Casado e com filho pequeno, o músico e sua esposa Yoko Ono perceberam, então, que seria bem difícil manter o padrão de vida que estavam acostumados.

Assim, Yoko decidiu colocar a mão na massa e foi atrás da grana. Em pouco tempo, assumiu o papel de empresária e começou a negociar de imóveis a obras de arte, passando por gado. Lennon, do seu lado, colocou chinelos e ficou tomando conta da casa. Ficaram nessa rotina até um fatídico dia em 1980, quando Lennon cruzou o caminho do desequilibrado Mark Chapman e tudo se acabou nos trágicos segundos que conhecemos bem. Mas essa é outra história.

Antes disso, Lennon, um dos maiores compositores do século 20 e ícone do rock, passou praticamente quatro anos cuidando da casa.

John Lennon, em seus chinelos, cuidando do pequeno Sean Lennon

Posso até imaginar o número de pessoas que torceu o nariz para a decisão do casal na época. Mas acho difícil justificar isso com frases como “eram outros tempos” porque, se fosse hoje, muita gente teria a mesma reação. Caminhamos a passos largos no século 21, mas algumas pessoas permanecem escrevendo nas paredes das suas cavernas que a mulher – especialmente aquela que se tornou mãe – é obrigada a cuidar apenas da casa e dos filhos.

Essas pessoas detestariam morar na minha casa.

Sou casado há alguns anos e os afazeres na minha casa são divididos seguindo uma regra que considero a mais eficiente possível: cada tarefa fica com quem vai cumpri-la melhor ou com quem está com mais tempo livre.

Assim, minha esposa e eu decidimos tudo juntos e cada um executa sua parte. Talvez esse seja o nosso segredo: fazemos tudo juntos, mesmo quando estamos longe um do outro. Ela vai ao banco enquanto eu limpo o quintal. Eu vou ao mercado enquanto ela lava a louça. Ela prepara o almoço enquanto eu passo aspirador na sala.

E quando não sei cumprir a tarefa, eu simplesmente peço ajuda a ela – algo que provavelmente faria o pessoal da caverna molhar o dedo na tinta enlouquecidamente e escrever palavrões e mais palavrões sobre mim. Por isso, sempre levo o celular para o mercado: as chances de o telefone da minha esposa tocar quando eu estou fazendo compras são grandes.

– Vamos falar sobre os pimentões que você pediu para eu comprar.

– Diga.

– Eles estão aqui na minha frente, olhando para mim.

– Os pimentões?

– Isso. Como eu sei se estão bons ou não?

Lembra daquele seu professor de História, que dizia que “você precisa entender, e não decorar”? Ele estava errado. Muitos trechos da explicação dela sobre como um pimentão bom deve ser simplesmente não fazem sentido para mim, então faço questão de decorar tudo para escolher os melhores pimentões possíveis. Porque, naquele momento, essa é a minha tarefa dentro de casa. E nada vai mudar isso.

Então, é assim que funcionamos. E tanto eu como ela achamos que funciona bem. Mas existe uma coisa que apenas ela faz porque está além do meu alcance: ser mãe.

É algo que eu realmente não saberia nem como começar. Não me entenda mal, claro que eu cuido do meu enteado. Eu aconselho, aponto os erros, oriento. Faço o melhor que posso, sempre levando em conta que meu filho nasceu quinze anos antes de eu conhecê-lo. Mas, acredito que mesmo se a situação fosse diferente, eu ainda não saberia ser mãe.

Se você perguntar para mim quando meu enteado ficou gripado pela última vez, eu saberei responder. Mas se você perguntar isso para minha esposa, ela irá responder o dia e ainda falar quanto ele teve de febre, qual remédio tomou e quanto tempo se passou até ele melhorar. Esse, claro, é apenas um exemplo – e acredito que muitos homens conseguem fazer isso, mas eu não conseguiria nem mesmo se o gripado em questão fosse eu.

E ela responde tudo isso sem sequer pensar. É algo que foge à minha compreensão. Uma vez eu e ele estávamos conversando no quintal, quando ele me perguntou.

– Eu não entendo como vocês conseguem fazer tanta coisa durante o dia.

– É porque a gente se organiza. Sua mãe e eu fazemos tudo juntos. Aliás, ela e eu fazemos tudo juntos mesmo quando estamos longe um do outro.

– Mesmo assim, o dia de vocês parece ter umas trinta horas.

E talvez ele tivesse razão. O que ele não pensou é que a mãe dele faz o dia ter trinta horas para que ela possa ficar seis horas a mais com ele. E isso não é uma tarefa da casa. Isso é amor.

Sean Lennon sendo filho e Yoko Ono sendo mãe pra, daqui a pouco, ser artista 

Eu não respondi isso, mas mesmo assim joguei a carta “amor” na conversa.

– Tudo o que sua mãe faz, ela faz por você. Até mesmo quando o assunto não envolve você, na cabeça dela envolve você.

Ele sorriu aquele sorriso de adolescente que não sabe o que falar. Eu continuei.

– É por isso que ela faz tantas coisas durante o dia. E é por isso que ela brilha enquanto faz cada uma dessas coisas.

Então, é assim que nós funcionamos. E tanto eu como ela achamos que esse método funciona bem. E não porque nenhum dos dois fica sobrecarregado – bem, isso também – mas principalmente porque essa divisão de tarefas faz o tempo crescer.

E é aí que acontece a mágica.

Conforme o número de horas do dia parece crescer dentro da minha casa, o número de papeis que a minha esposa desempenha ao longo do dele cresce junto. Ela não acorda sendo mãe e esposa e vai dormir sendo mãe esposa. Enquanto passam-se as horas, ela assume outras identidades. Vira arquiteta e freelancer. Contadora e chef. Revisora e fotógrafa.

Não se trata apenas de trabalho, porque ela também acha tempo para ser fã de Star Wars e cuidar das suas plantas. Encontra os minutos necessários para fazer dancinhas na cozinha quando aquela música toca no rádio ou ainda me convidar para um café somente como desculpa para darmos uma volta no sol como se fôssemos apenas namorados.

E, para desespero das pessoas na caverna, o fato de a minha esposa assumir tantos papéis ao longo do dia não faz suas qualidades como mãe diminuírem. Pelo contrário. Ela é uma mãe cada dia melhor. E uma namorada cada dia melhor e cuidadora de plantas cada dia mais zelosa e fã de Star Wars cada dia mais conhecedora de toda a mística da série de filmes.

Seja ela arquiteta ou chef, esteja ela dançando na cozinha ou pesquisando uma receita nova, ela responderia tudo isso sem sequer precisar pensar a respeito. Ela apenas sabe, pois nenhum dos muitos papéis que ela desempenha durante o dia vai impedi-la de ser uma boa mãe, especialmente num momento em que ela precisa ser mãe.

O mesmo acontecia com a Yoko. A artista, a empresária, a negociante, ou qualquer outra Yoko que ela quisesse ser. Nenhuma delas impedia que ela se tornasse a Yoko mãe quando se sentava no chão para brincar com o pequeno Sean.

Porque tanto ela como minha esposa fazem parte daquele grupo de mulheres que não são apenas mães, mas que também são mães.

Mas o que mais me espanta mesmo não é o número de papeis que ela desempenha durante o dia, e sim a facilidade com que minha esposa consegue ser mãe quando é preciso. Não importa qual papel ela esteja desempenhando; basta meu enteado precisar da mãe que ela está ali ao lado dele.

Ele mesmo não consegue entender direito como ela faz isso com tanta leveza. Dia desses, estávamos conversando sobre isso.

– Ela postou no blog dela. Assou pães. Cuidou das plantas. Fez um trabalho no computador. Comprou o ingresso para uma exposição. Ela fez tudo isso e ainda entrou no meu quarto para me lembrar de que eu tenho médico no dia seguinte. Como ela consegue?

– Como assim?

– Nem eu lembrava mais do médico! Como ela consegue fazer tudo isso e ainda não esquecer essas coisas? Ela é uma só!

– É aí que você se engana.

Ele me olhou com cara de interrogação e eu entreguei um sorriso.

– Ela não é uma só. Ela é muito mais que sua mãe, por mais que você provavelmente só a enxergue dessa forma.

– Não entendi.

– Ela pensa em você o tempo todo, mas isso não a impede de fazer outras coisas. Ela é arquiteta. Paisagista. Ela é até a minha revisora. Ela é um monte de pessoas, porque sabe que não precisa agir como mãe o tempo inteiro para ser a melhor mãe que você poderia ter.

– Mesmo assim... Eu ainda não entendo como ela consegue fazer tantas coisas durante o dia. Não sei como ela arruma tempo.

Sorri mais uma vez.

– Amanhã eu quero que você vá ao mercado comigo. Quero mostrar como se compra pimentões.

– Para quê?

– Um dia você vai entender.

Mecenas: Saraiva

Mulher que é mãe o tempo todo não existe mais, mas toda mulher pode ser uma ótima mãe e muito mais que isso. Nesses dias multifacetados, as mulheres também são muitas coisas da hora em que acordam até quando vão dormir.

A Saraiva sabe muito bem disso e tem livros e produtos para cada faceta de mãe que existe, para cada momento de mulher.

Para acertar bem no Dia das Mães, a Saraiva vai te dar uma ajudinha. Basta ir lá no site deles, escolher qual o estilo da sua mãe e a Saraiva te devolve uma seleção de livros e produtos que se encaixam ao estilo dela ou o que ela queira ser no momento.


publicado em 05 de Maio de 2016, 11:45
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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