Não gosto quando minha namorada fica bêbada | ID #68

"Me pego questionando coisas do tipo 'será que eu a controlo demais?', 'Tentar controlá-la realmente evita que ela vicie em bebidas?', 'estou fazendo a coisa certa?', 'Será que ela está simplesmente se divertindo?'."

"Olá, Fred!

Bom, namoro há mais de 3 anos e, desde que a conheci, sei que ela adora bebida (principalmente cervejas). Porém, eu particularmente não sou tão fã assim. Nunca gostei de pessoas bêbadas do meu lado e digo sempre à ela para não ficar embriagada. Não que eu queira controlá-la mas tenho medo de que algo possa acontecer à ela.

Sempre que ela vai às festas sozinha (não ligo se ela quer ir sozinha) digo a ela 'não beba demais, você não precisa disso'. Porém, ela acaba por se embriagar algumas vezes e eu me sinto com raiva e decepcionado com tal atitude.

Contudo, me pego questionando coisas do tipo 'será que eu a controlo demais?', 'Tentar controlá-la realmente evita que ela vicie em bebidas?', 'estou fazendo a coisa certa?', 'Será que ela está simplesmente se divertindo?'.

Na família dela há histórico de alcoolismo. Mas o que quero é uma reflexão para essa pergunta: 'Até que ponto eu estou ajudando ou piorando?'

Obrigados desde já,

B.F."

Caro BF,

Vamos falar sobre alcoolismo e relacionamentos em que ele está presente, assunto super importante. Já abordei alguns aspectos desse assunto aqui mas quero refrescar a questão.

Afinal, o que as pessoas buscam quando bebem? E o que é beber demais? Qual o impacto em quem está por perto?

As funções do álcool

Historicamente, as pessoas sempre buscaram algum tipo de substância que altere a percepção da conciência comum, sem aditivos. O álcool sempre esteve presente em celebrações, cultos, rituais de passagem (de batismo a casamento e velório), enfim, a bebida alcóolica sempre está onde buscamos alguma forma de entretenimento. Mas existem outras funções que ignoramos no processo.

Soltar: as pessoas que são mais tensas, aflitas, obcecadas em seus objetivos podem ter grande dificuldade de fazer a passagem de uma mente focada para outra mais solta, leve, descontraída. O álcool parece atuar como um caminho mais curto para essa dimensão. Para alguns isso pode ser visto como preguiça, para outros como uma necessidade fundamental de soltar-se da própria obsessividade.

Rir: muitas pessoas, por se levarem a sério sentem um medo sutil de parecerem frágeis ou ingênuas quando precisam rir e expressar sua dimensão cômica. A bebida entra como um acessório para inibir a repressão excessiva que impõem a si mesmas, permite o contato com o seu lado meio bobo.

Amar: amar, confiar, expressar  carinho não é tarefa simples para pessoas que não foram educadas com afeto. É uma fraqueza, vergonha, até humilhante. Preferem fazer cafuné num cachorro do que elogiar um humano (usando a desculpa que um é melhor que o outro). A verdade é que os animais não nos confrontam e aceitam passivamente até comportamentes negligentes que temos com eles. Assumir todas as contradições do relacionamento adulto e expressar amor só pode ser tolerável sob o efeito do álcool. Pode ser deprimente assumir isso para alguns. Mas como julgar essa dificuldade?

Ser autêntico: amar-se é algo difícil, imagina expressar as emoções mais sensíveis, difíceis ou até vergonhosas. O álcool atua diretamente no córtex frontal, responsável por planejamento, julgamento moral e noção de futuro (causa e consequência). Tirando esse freio tirânico, a pessoa sente que tudo é possível e que é capaz de tarnsbordar o melhor de si, sentir que pertence a uma comunidade humana completa.

Apagar: para os casos em que a dependência química alcança a psicológica, o desejo subliminar de apagar a consciência aumenta muito. É como tirar férias de si mesmo, desligar o cérebro, reiniciar a máquina e sem lembrar do que aconteceu no dia anterior. Essa fase costuma ser bem problemática, pois o ciclo de apagamento da memória vai deixando rastros para quem convive e lembra de tudo o que aconteceu. O constrangimento não recai sobre quem bebeu, mas sobre quem acompanhou.

Destruir: quando o ciclo do alcoolismo está instalado parece que um tipo de auto-repulsa entra em ação com peso. Quanto mais bebe e causa estragos mais ódio de si mesmo sente e, quanto mais aversão, piores e mais frequentes são as imersões alcóolicas. Seria um exagero dizer que essa é uma fase inconscientemente suicida do processo, onde o sujeito se sente totalmente sem esperança, impotente e sem nenhuma vontade de fazer algo por si que o resgate de si mesmo. O lema é, desculpe-me a grosseria, "o que é um peido para quem está cagado". E assim segue afastando tudo o que já lembrou algo de positivo na vida ladeira abaixo

Qual o limite do humor?

Apesar de todas as funções descritas acima não serem tão danosas (com exceção das duas últimas) por que o álcool pode ser um problema para a maior parte das pessoas? Porque o usuário do álcool pode se perder nas quantidades, na frequência e transformar o uso recreativo em uma espiral de destruição psicológica e social.

E essa passagem não é tão nítida para quem faz o uso e para quem convive. Até porque não existe uma linearidade no processo.

Ora o uso pode ser pautado por uma busca genuína de maior encontro com as suas emoções, ora pode ser simplesmente um tipo de acomodação psíquica que causa atrofia emocional. Por que alguém deveria exercitar a capacidade de se soltar por conta própria se sempre tem um atalho?

Segundo o site Alcoolismo.com.br"A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que para se evitar problemas com o álcool, o consumo aceitável é de até 15 doses/semana para os homens e 10 doses/semana para as mulheres, sendo que 1 dose contém de 8 a 13 gramas de etanol. Os homens não devem ultrapassar o consumo de 3 doses diárias de álcool e as mulheres duas doses diárias, sendo que tanto homens quanto as mulheres não devem beber por pelo dois dias na semana."

Mas o ponto é que cada organismo, vida e contexto social tem suas particularidades. Para uma pessoa esses padrões de aceitabilidade podem ser bem menores e, num grau avançado de alcoolismo, mesmo esses padrões aceitáveis podem ser o estopim para uma situação bem problemática.

Todas essas características de autenticidade, soltar, rir e amar poderiam ser olhadas como um efeito virtuoso do álcool. O problema é que a maior parte das pessoas querem sentir níveis crescentes de bem-estar, mas existe uma linha que se cruza que faz o cérebro atuar na contramão do que se intencionava no início. Uma dose causava leveza, com o tempo é preciso duas e depois dez. Nessa fase, o benefício esconde na outra mão um tapa psicológico irreversível em que se misturam bons momentos e situações de tragédia.

O estigma do bebum

Quando se fala em alcoolismo é comum que se pense no tiozinho trançando as pernas enquanto volta do boteco surrado às dez da manhã, completamente enbriagado e vomitando no gran finale. No seu caso, BF, sua namorada não cumpre os requisitos e provavelmente você deve se sentir louco e se torturando por achar que está exagerando. Pode ser que haja algum nível de controle, mas talvez seja mais possível que fique tenso e fantasiando cenários horrorosos pela frente. Não há como culpar sua preocupação.

Na maior parte dos casos, a preocupação deveria girar de forma secundária sobre o álcool em si e, primariamente, sobre a função com a qual a pessoa o utiliza. Muitos transtornos emocionais são camuflados com o uso do álcool, em especial, transtornos de ansiedade e de humor, como a depressão. Na tentativa de usar o álcool como um recurso de controle de uma doença, o alcoolismo se instala como uma comorbidada que cava ainda mais fundo o buraco que existe.

Segundo uma reportagem da Época sobre o alcoolismo entre as mulheres "O primeiro dado alarmante revelado pelas pesquisas é que as mulheres estão bebendo mais do que jamais beberam e que o problema se agrava ano a ano. As estatísticas também mostram que o hábito de se embriagar está começando mais cedo do que antes. Na adolescência, as meninas já bebem mais do que os meninos, algo que não se percebia no passado. Não se trata de um problema de pessoas mal informadas ou pouco instruídas. Os números são claros ao mostrar que o consumo excessivo de bebida entre as mulheres se concentra no topo da pirâmide de renda, nas famílias de classe média alta. Outra péssima notícia é que a sociedade ainda não sabe lidar com esse drama. "

E quem está por perto, como ajudar?

É muito fácil confrontar-se com o alcoolista na maré de ansiedade e degradação que a situação induz. A posição de quem cobra melhorias pode se transformar facilmente num tipo de paternalismo infantilizador e entrar na dinâmica nociva do equilibrado versus bebum. "Você precisa se cuidar filhinha querida", essa frase subliminar acaba formulando a maior parte das motivações dos familiares. Se existe uma história de culpa, dramas e traumas o cenário fica ainda mais complexo.

Então cada um precisa tomar a sua parte da dinâmica de relacionamento, ainda que não tenham culpa, elas estão implicadas num sistema relacional bem nocivo e que retroalimenta os conflitos pessoais.

Um passo super importante pode ser se afiliar ao setor de apoio a família de alcoolistas, o ALANON. Ter contato com outras pessoas que atravessam o mesmo drama é fundamental, pois diminui a sensação de solidão, impotência e de estar enlouquecendo com o alcoolista. Nesses lugares existe todo um repertório de ações produtivas e menos problemáticas para ajudar a pessoa que adoeceu.

No seu caso, BF, talvez seja precoce essa constatação, mas é preciso observar com muita sensibilidade em que medida você acaba adotando o lugar do salvador da relação. Portanto, busque informações, converse sem julgamento, exponha os seus medos sem condenação e busque apoio profissional se estiver muito difícil, mas nunca se isole do problema, pode ser muito mais grave do que possa imaginar.

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Nota da edição: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 26 de Abril de 2018, 09:59
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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