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Não ser a constante | Exercícios de empatia, 7

Andamos pela existência como se fôssemos a constante do universo e todo resto, a infinita miríade de coisas e pessoas, variáveis que podemos moldar e adequar à nossa vontade.

Na caixa de ferramentas mental que utilizamos para solucionar os problemas da vida, temos ferramentas de confronto, de conciliação, de conserto.

Lá no fundo da caixa, porém, raramente lembramos de uma das ferramentas mais empáticas: nos adaptar.

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Esse é o sétimo exercício de empatia. Antes de continuar a ler, ou de fazer o exercício, por favor, leia o primeiro texto dessa série, onde eu contextualizo os exercícios.

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Ser uma boa hóspede

Eu e minha companheira passamos 2013 e 2014 viajando pelo Brasil com o meu encontro "As prisões".

Em nossas andanças, dormimos em mais de sessenta camas diferentes, sempre hospedadas em casas de pessoas incríveis, generosas, abertas, capazes de dar pouso a duas pessoas completamente desconhecidas, só por admirarem seu trabalho.

Foram dois anos de muito aprendizado.

Um deles é que ser uma boa hóspede é um dos mais completos exercícios de atenção e de desapego, de empatia e de alteridade.

O mal é a falta de atenção: é o piloto automático que usamos para transitar pelo mundo, absortas em nossos próprios egos, sem ver nada mais à nossa frente, sempre ocupadas, sempre distraídas.

Em nossas próprias casas, ficamos ainda mais complacentes e confortáveis: os objetos estão onde decidimos, as regras fomos nós que criamos.

Já ser hóspede requer esforço. Exige atenção. Demanda flexibilidade.

Temos que reparar onde estão os objetos e tentar deixá-los nos mesmos lugares. Temos que limpar nossa própria sujeira com ainda mais cuidado. Temos que ter a sensibilidade de perceber quais são as regras, especialmente as não-ditas.

Ser uma boa hóspede é praticamente uma antologia de todos os exercícios de empatia: temos que praticar um olhar generoso com nossas anfitriãs, quase sempre tão diferentes de nós; ver em totalidade suas casas, seus objetos, suas regras; ouvir com atenção plena suas histórias e suas vivências; cultivar o não-conhecimento e nunca presumir nada sobre eles ou sobre como suas casas funcionam; exercer a não-opinião sobre sua intimidade e sobre suas regras.

Ser uma boa hóspede, em suma, é deixar de ser a constante, sempre um dos mais completos exercícios de empatia.

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Nossa pretensa natureza permanente

Digamos que sou uma pessoa que não gosta de muito ruído.

Moro em um apartamento alugado absolutamente perfeito para minhas necessidades. Barato, espaçoso, perto do trabalho.

Só tem um problema: é barulhento.

Dá de frente para a entrada de serviço de um supermercado que descarrega comida durante todo o horário comercial.

O que fazer?

Em minha caixa de ferramentas, tenho várias soluções possíveis:

1. modificar a fonte do barulho, processando judicialmente o supermercado até que pare de me incomodar.

2. modificar o quanto de barulho entra em minha casa, vedando as janelas com material acústico.

3. modificar o quanto de barulho entra em meus ouvidos, usando um protetor auricular.

4. modificar minha proximidade ao barulho, procurando um outro apartamento para morar.

Nenhuma dessas soluções, por si só, é ruim ou insensata.

Mas todas seguem o velho padrão ocidental: modificar o mundo para melhor adequá-lo às minhas necessidades.

Todas presumem que sou uma constante, e o universo, variável.

Afinal, não gostar, nunca ter gostado, jamais vir a gostar de ruído é uma parte permanente e imutável da minha essência.

Diante disso, naturalmente, só me resta mudar o mundo.

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Mas uma quinta solução seria:

5. modificar a mim mesmo, me transformando no tipo de pessoa que não se incomoda com esses ruídos.

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Uma ressalva política

Não estou em momento algum dizendo que a quinta solução é fundamentalmente melhor do que as quatro primeiras.

Não estou em momento algum afirmando que deveríamos sempre escolher a quinta opção.

Não estou em momento algum sugerindo abdicarmos de exercer nossa ação política no mundo.

Se não buscássemos modificar a realidade, seja em termos tecnológicos ou políticos, ainda estaríamos morando em cavernas e escravizando umas às outras.

Se escolhêssemos sempre mudar a nós mesmas seríamos as pessoas mais conformistas e passivas do mundo.

Entretanto, por que sempre escolhemos adaptar o mundo a nós, e nunca o oposto?

Por que criar essa clivagem artificial entre nós e o universo, na qual somos os sujeitos, e todas as outras coisas, objetos sobre os quais podemos e devemos agir?

Essa fronteira de pele que nos parece tão importante (de um lado, eu e minha incrível individualidade e, do outro, todas as outras coisas) é uma fronteira imaginária.

Não existe nenhum eu. Não existe nenhum sujeito. Só existe o universo e seus incontáveis objetos.

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Quem está sempre certo nunca muda

Passo grande parte do meu dia ouvindo pessoas contarem suas histórias, suas vidas, seus problemas, suas soluções.

E raramente, quase nunca, vejo "adaptar-se" surgir como possível solução para qualquer problema.

O que pensar de uma sociedade tão narcisista e autocentrada que raramente ocorre à maioria das pessoas essa simples solução:

Que uma maneira de resolver qualquer problema é escolhendo tornar-se o tipo de pessoa para quem aquele problema não é um problema.

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Expandindo nossa caixa de ferramentas

O sétimo exercício de empatia é talvez o mais simples, o mais silencioso, o mais individual:

Apenas dar-se conta da existência da opção de não sermos sempre os sujeitos, de não sermos sempre as constantes.

Não estou promovendo o conformismo. Não estou ditando como solucionar todos os problemas da vida.

Hoje, entretanto, ao considerar possíveis soluções para um dilema, eu me pergunto:

De que maneira eu poderia resolver essa questão me tornando o tipo de pessoa para quem esse problema não é um problema?

Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, não será a melhor solução.

Mas, agora, ao menos, eu sei que ela existe. Está lá, na minha caixinha de ferramentas.

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Exercícios de empatia, a série completa

1. Praticar um olhar generoso

2. Dar-se conta das pessoas

3. Ver na sua totalidade

4. Ouvir com atenção plena

5. Cultivar o não-conhecimento

6. Exercer a não-opinião

7. Não ser a constante

8. Colocar-se em outra pessoa

9. Escolher agir com empatia

10. Visualizar o privilégio

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Três avisos importantes sobre meus textos

Eles falam sempre sobre e para as pessoas privilegiadas, justamente para tentar fazê-las ter consciência de seus enormes privilégios. (Leia também Carta aberta às pessoas privilegiadas e Ação de graças pelos privilégios recebidos);

Buscam sempre usar uma linguagem de gênero neutra (Para mais detalhes, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua);

E são sempre todos rigorosamente ficcionais(Ou não: Alex Castro não existesó o texto importa. Em caso de dúvida, consulte minha biografia do meu site pessoal.)

 


publicado em 20 de Março de 2015, 11:35
File

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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