O blues é o avô do funk

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Conversando sobre blues, algumas pessoas já me perguntaram porque as letras do gênero abordam sexo com muita frequência – e abertamente, vinte ou trinta anos antes dos Beatles cantarem que "I love to turn you on" ou dos Rolling Stones "chocarem o mundo" ao cantar que “Let's Spend the Night Together”.

Mas é verdade. O rock não tinha nascido e o blues já estava, em suas letras, dormindo na casa de mulheres casadas, pulando cerca, entrando escondidos pelas portas do fundo enquanto o marido sai pela frente, afogando as mágoas no puteiro.

As brigas de casais no blues não se resolvem com juras de amor, mas com sexo. E não é bem aquele sexo "pop" e bonitinho, é mais real, mais suado, mais sujo. Por isso a traição é mais pesada, o ciúme é mais intenso, a solidão é mais dolorida.

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Muddy Waters e sua esposa: quantas canções sobre sexo de reconciliação ele não cantou?

Lendo a biografia de Muddy Waters, me deparei com aquela que talvez seja a melhor explicação disso que vi na vida, que coloca o sexo, no blues, como valor social.

"Em termos de letras, as músicas de Muddy são sobre sexo – sexo com a esposa de alguém, sexo com a namorada de alguém, sexo e problemas. Mas é sempre um problema do qual ele sobrevive, uma confusão da qual ele escapa.
Sexo era sexo, mas sexo era também uma analogia para uma espécie de liberdade, uma liberdade de servir a si mesmo, de amaldiçoar os torpedos [o mundo havia acabado de sair da guerra], o supervisor do turno da fábrica, a pistola grande do capataz.
O som das músicas refletem a efervescência recém-descoberta: Muddy, perto da base da escada socioeconômica, canalizava a sensação de possibilidades e excitação do pós-guerra. Os que nunca tiveram nada finalmente tinham algo – não era muito, mas mesmo pouco já era bastante.
O poder de sua guitarra, a força do seu som e a certeza pungente de sua voz libertavam a exuberância de um povo.
Havia motivos para celebrar, e Muddy era o veículo."

Com isso, aprendemos muito sobre o blues. E aprendemos também sobre muitos gêneros e subgêneros musicais atuais que deixamos de lado, descartando como "aquela putaria gratuita que vem da periferia". Musicalmente, o blues é o pai do rock; socialmente, ele também é o avô do funk que toca em bailes frequentados por gente que não tinha nada e hoje tem um pouco mais (de posses, de possibilidades, de motivos). É um grito, tanto de liberdade como de auto-afirmação.

Mas certamente o funk é um neto bastardo – e isso não é culpa dele, mas sim do blues, que se metia com mulheres casadas a torto e a direito.

Para deixar um exemplo bom da música de Muddy, aquela que batizou uma revista e uma banda (que, apesar de ser lançada nessa época, era algo que ele cantava anos antes, no Mississipi e violão, com o nome de Catfish Blues, mas que chamada de Rollin’ Stone, expõe o sentimento de tudo isso – além de escancarar a alma do blues: mulherengo, meio pilantra e louco de vontade de cair na estrada.

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publicado em 03 de Junho de 2014, 11:41
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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