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O clima no mundo enlouqueceu. E eu com isso?

As mudanças climáticas e os impactos que elas nos causam

Se você reclamou alguma vez da falta de água e de chuva em São Paulo ou do excesso de calor no Rio de Janeiro - que é capaz de fritar um ovo no asfalto - deve ter percebido que tem algo de errado com o clima.

A frequência com que fenômenos extremos, como a seca, por exemplo, têm ocorrido no Brasil e em outras partes do mundo é um dos efeitos colaterais do aumento da temperatura do planeta. Cientistas afirmam com quase 100% de certeza que o clima do planeta passa atualmente por alterações tão bruscas que podem ser uma ameaça à vida humana.

Parece até enredo de filme de ficção científica, que já ganhou lá fora a alcunha “cli-fi” (climate fiction). Mas não é. As mudanças climáticas são reais e estão no nosso quintal. Já afetam o regime de chuvas pelo mundo, fazem derreter geleiras milenares e elevam o nível do mar.

E tudo isso por nossa culpa.

“Que balela! A mudança climática sempre aconteceu. É natural”, diz o leitor indignado. E com razão. Alterações no clima da Terra ocorrem desde que o mundo é mundo. Elas podem ser provocadas por uma variação no ciclo do Sol, uma grande erupção vulcânica ou até pela queda de um meteoro – tudo isso já aconteceu e vai ocorrer de novo, daqui milhões de anos.

Mas nunca antes uma única espécie foi capaz de acelerar essa mudança devido a suas atitudes. No caso, a espécie humana. Nós mesmos.

Tudo começou há um tempo atrás…

Embora o impacto do ser humano no planeta ocorra há séculos, desde o surgimento da agricultura, foi a partir da Revolução Industrial, entre os séculos 18 e 19, que a coisa começou a desandar. A criação da máquina a vapor levou ao desenvolvimento de outros equipamentos. Surgiram as indústrias, que queimaram carvão sem restrições para gerar energia.

Os anos passaram, chegamos ao século 20 com a expertise para construir automóveis, navios, aviões, bombas atômicas. Nos tornamos capazes de extrair e usar recursos minerais de maneira muito intensa, como o petróleo, carvão, duas das riquezas naturais que poluem de forma intensa nossa atmosfera devido ao uso em excesso.

Os países se desenvolveram e a população mundial aumentou, principalmente nas cidades. Por isso, foram necessários investimentos para gerar eletricidade, oferecer transporte e telecomunicações, distribuir água e produzir alimentos. Complexos industriais foram criados, emitindo gases sem controle. Florestas foram transformadas em pastos, estradas e cidades; a pesca predatória cresceu, assim como a exploração da biodiversidade.

Alguns especialistas falam que o crescimento econômico dos últimos 60 anos pode ter mudado o rumo da humanidade para sempre e, por isso, chamam esse período de “A Grande Aceleração”. Isto porque os impactos ambientais causados a partir de 1950 se intensificaram tanto que o modo de vida como conhecemos atualmente pode estar com os dias contados.

A queima de combustíveis fósseis, como o carvão mineral, petróleo e seus derivados, além do gás natural, está entre um dos principais impactos causados pela humanidade.

O incentivo à cultura do automóvel pelo planeta contribuiu para a intensificação das emissões globais, que tornam intenso o efeito estufa.

Esse fenômeno natural retém o calor emitido pela Terra, que, por sua vez, é resultado do aquecimento da superfície terrestre pela radiação solar. Só que a grande quantidade de gases que nós estamos lançando faz o planeta reter uma quantidade de calor maior que a necessária, o que deixa o clima maluco.

Portanto, camarada, toda vez que você liga o motor do teu carro movido a álcool, gasolina ou a diesel, está contribuindo ainda mais para a poluição do planeta.

A consequência disso tudo é que a atmosfera e o oceano se aqueceram, a neve e o gelo diminuíram. O nível do mar sobe aos poucos, assim como as concentrações de gases de efeito estufa, que, em excesso, elevam a temperatura do planeta – todos esses dados já foram comprovados pelos pesquisadores de mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas.

De acordo com último relatório feito por um painel internacional de cientistas, entre 1880 e 2012, a temperatura do planeta subiu 0,85oC, o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros entre 1901 e 2010, e as concentrações atmosféricas atuais de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) atingiram os níveis mais altos dos últimos 800 mil anos.

Isso acendeu o alerta vermelho para a presença de “uma força geológica em escala planetária”, que, segundo os cientistas, vai afetar todos os países.

Ainda segundo o relatório deste painel, chamado de IPCC, se nada for feito até o fim deste século para frear o aumento da temperatura em 2oC em relação ao nível pré-Revolução Industrial, os termômetros globais podem subir até 4oC, o que causaria uma catástrofe pelo planeta: redução de água potável, espécies em extinção, oceanos mais ácidos, produção de alimentos afetada, migrações em massa, doenças, mortes...

Mudança radical

Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo (USP) e uma das principais autoridades em mudanças climáticas no Brasil, afirma que a queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) é responsável pela maior parte das emissões de gases-estufa para a atmosfera (cerca de 70%) e que o desmatamento de florestas é responsável por bem menos (11%).

Segundo ele, é preciso usar mais energias renováveis, como usinas hidroelétricas, energia solar e eólica, além de reduzir as emissões (em 70%, até 2050) vindas do uso de combustíveis fósseis. “Temos também que investir para melhorar a eficiência energética de automóveis, indústrias e geração de eletricidade”, afirmou o pesquisador, alegando que se nada fizermos, “o clima ao longo das próximas décadas vai ser realmente complicado e afetará a vida no nosso planeta de modo irreversível”.

Energias renováveis, salvação da lavoura?

Graças à tecnologia, foi possível desenvolver sistemas que produzem eletricidade e emitem menos gases de efeito estufa.

Atualmente, já é possível aproveitar o vento para iluminar cidades, a luz do sol para produzir gelo no meio da selva amazônica e até utilizar restos de alimento ou estrume de vaca para abastecer usinas que produzem eletricidade.

Também conseguimos usar o calor da crosta terrestre (geotérmica) ou a força das ondas (ondomotriz) e das marés (maremotriz). Sem contar na infraestrutura das usinas hidrelétricas, em que turbinas são impulsionadas pela passagem de água represada.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), investir nessas inovações são a chave para a redução das emissões nocivas de gases-estufa e limitação da temperatura. Ajudaria ainda se fossem eliminados os subsídios aos combustíveis fósseis, de acordo com o órgão.

Dados de um relatório sobre energia feito pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em parceria com uma instituição de Frankfurt, na Alemanha apontaram que investimentos globais em renováveis em 2014 foram da ordem de R$ 1 trilhão, valor que é 17% maior em relação ao montante aplicado no ano anterior.

Demonstrações de interesse por fontes renováveis puderam ser vistas recentemente na reunião do G-7, quando o grupo composto por Estados Unidos, Alemanha, França, Japão, Reino Unido, Canadá e Itália decidiu que é preciso cortar (zerar, se possível) o uso de combustíveis fósseis e valorizar a geração de energia por meios menos poluentes.

Segundo Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, que reúne um grupo de organizações não governamentais do Brasil, investimentos nesse setor no mundo todo já superam aplicações anuais em fontes fósseis de energia.

“O custo das renováveis (como a energia eólica e a solar) vem caindo significativamente ao longo das últimas décadas, já sendo competitivas em muitos países frente aos combustíveis fósseis. E projeta-se que, em 10 anos, a energia solar seja a fonte mais barata em qualquer lugar do mundo”, afirmou. No entanto, de acordo com Rittl, a transição para o uso de renováveis ainda não ocorre na velocidade necessária.

Sobre o Brasil, Carlos Rittl afirma que a matriz energética do país tem participação muito maior de fontes limpas do que a média mundial – “beiramos os 40% de renováveis em nossa matriz de energia , enquanto o mundo tem pouco mais de 13% de participação”. Além disso, o governo se comprometeu a aumentar a fatia de geração de energia por meios não poluentes na nossa matriz energética para 45% até 2030 (sendo 20% não hidráulicas).

Acordo do Clima de Paris: uma nova esperança

Paris, 12 de dezembro de 2015. Um dia que entrou para a história como o momento em que os terráqueos se comprometem a mudar de atitude para salvar a Terra.

Foi aprovado na capital da França um acordo internacional com diversas metas que, se cumpridas, ajudarão a reduzir as emissões de gases das nações e, com isso, limitar o aumento da temperatura do planeta entre 1,5C e 2C até 2100.

Sob a liderança do presidente da França, Francois Hollande, e grande empenho de líderes como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a COP 21 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) colocou um ponto final sobre um processo de negociação que se arrastava há mais de 20 anos e que evidenciava uma briga global entre países ricos e países pobres.

Isso porque as nações mais endinheiradas não queriam assumir compromissos mais rígidos para conter a poluição dentro de casa e exigiam que governos mais pobres ou que estivessem em desenvolvimento seguissem as mesmas regras. Isso deu muito pano pra manga durante anos e impediu que outros acordos, como o famoso Protocolo de Kyoto, não funcionassem corretamente.

Mas e daí? O que é esse tal acordo?

Ainda não salvamos o mundo. Temos muito o que fazer. Algumas dessas ações ficaram definidas, como a apresentação de medidas de cada países para desacelerar a emissão de gases do efeito estufa, as  INDCs (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas),  que vão vigorar de 2020 a 2030 e foram sacramentadas no acordo.

Outra decisão importante é que os governos ricos vão bancar US$ 100 bilhões por ano para que países em desenvolvimento façam investimentos tanto em corte de emissões como na proteção contra os efeitos da mudança climática. Não é um montante suficiente, mas ele deve aumentar de valor a cada cinco anos.

Para Rittl, do Observatório do Clima, a cúpula da ONU não foi a conclusão de um processo de negociação, apenas, mas o início de um novo ciclo, "em que se limita a interferência humana perigosa no clima global, com mais ambição em cortes de emissões e recursos para financiar as ações dos países mais pobres e vulneráveis".

É a nossa oportunidade de reequilibrar o planeta. Mas será que seremos capazes? Talvez, mas já podemos agir desde já.

Mas como? Algumas verdades que podem até doer (mas vão ajudar):

1. Evite comer carne. Sim! É difícil, eu sei. Mas a pecuária é uma das principais responsáveis pelo desmatamento no planeta. Além disso, a falta de inovação na criação do gado também prejudica o clima. A má alimentação dos bois e das vacas contribui para o aumento da quantidade de arrotos nesses animais, que liberam poderosas "nuvens" de metano para a atmosfera.

2. Reduza o uso de carro. Ai, meu Deus, e agora? Take it easy que não é o fim dos tempos. incentivos recentes em grandes cidades ajudam a se ver mais distante da cultura do automóvel. Não precisa ser tão radical e vender teu carro, basta utilizá-lo menos e seguir para o seu destino com a ajuda do transporte público. Se você preferir, vá de bike.

3. Economize água. Não é porque voltou a chover que tudo se resolveu. É preciso ficar atento a vazamentos em casa, reduzir o tempo no banho, evitar lavar a garagem de casa (principalmente logo depois que chover!). Mas também é preciso fiscalizar nos governos e cobrar atitudes para a melhor gestão das águas. Fique de olho!

Acompanhe nosso percurso sobre sustentabilidade

Esse texto faz parte do nosso percurso sobre sustentabilidade, que vai ter 4 textos destrinchando o tema de forma prática.

Na próxima reportagem vamos mostrar como os brasileiros estão se virando para proteger o planeta e o próprio bolso.

Enquanto isso, aqui você pode acompanhar todos os textos do percurso:

1. O clima no mundo enlouqueceu. E eu com isso?

2. A revolução energética já começou e você não vai querer ficar de fora

3. ...


publicado em 29 de Março de 2016, 19:29
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Eduardo Carvalho

Integra a equipe curadora do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Jornalista, migrou sem querer da cobertura econômica para a científica-ambiental – e não se arrepende por isso. Pode ser encontrado no Facebook ou por e-mail.


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