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O dia em que eu fui jogar no gol

Entre futebol, cerveja e boas conversas, como se constrói uma relação de confiança entre pai e filho

– É assim, com o lado do pé. São esses três dedos que pegam na bola.

Quando eu tinha uns doze anos, meu pai me ensinou a chutar de trivela. Nós tínhamos uma casa no interior onde passávamos finais de semana, e as “aulas” aconteceram num clube ali perto.

Eu sempre joguei bola com meu pai. Desde muito pequeno. Ficávamos um passando a bola para o outro. E isso acontecia em qualquer lugar: no quintal de casa, na garagem, às vezes até dentro de casa – para desespero da minha mãe. Bastava estarmos eu, meu pai e uma bola que o futebol começava. Era um passe aqui, um drible ali, um toque acolá...

E conversa. Muita conversa.

Eu e meu pai falávamos o tempo inteiro enquanto brincávamos com a bola. Eram aqueles bate-papos meio mágicos, onde se fala sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Com a bola nos pés, aprendi muito sobre mim e sobre meu pai. E sobre a vida.

Entretanto, aprender a chutar de trivela – que, para mim, era coisa de craque, de camisa dez – foi difícil. Eu não conseguia acertar o jeito de pegar na bola. Ela fazia a curva para o lado errado, ou não fazia curva nenhuma. E meu pai, que sempre gostou de jogar na linha, ficou ali pacientemente, no gol, me ensinando. A cada erro meu, pegava a bola, me mostrava como eu devia chutar e voltava para o gol. Ficou ali até eu conseguir acertar.

E sempre conversando comigo.

Nunca perdemos esse hábito. As conversas que tínhamos, porém, mudaram de tom conforme os anos passaram – ambos aconteceram mais rapidamente do que eu gostaria.

Logo, eu deixei de falar sobre escola e passei a conversar sobre profissões. Meu pai recebeu a bola e disse que eu precisava escolher a carreira que me fizesse feliz, sem nem pensar em dinheiro naquele momento. Controlou a bola com os pés e estávamos na época do vestibular, com ele me falando que eu não devia me sentir obrigado a entrar na faculdade de qualquer jeito. “Vai lá e faz o que você sabe; se não der, não deu. Ano que vem você tenta de novo”, ele disse, me devolvendo a bola. E eu, agora já formado, dominei a bola com um nó na garganta por causa de um namoro que havia acabado. Ele me ensinou que eu ainda iria chorar muito por relacionamentos, mas que nem por isso eu devia desistir de achar a pessoa certa. E eu devolvi a bola limpando a lágrima que caía pelo meu rosto.

Ele tinha razão. Eu me apaixonei outras vezes e uma delas deu certo. Deu tão certo que eu casei. E, ao casar, me tornei pai de um modo diferente do usual, já que minha esposa tinha um filho de quinze anos.

Fui dormir uma noite como filho e, no dia seguinte, acordei pai de um adolescente. Pior: um adolescente que odeia futebol – o que deve ser uma espécie de castigo por todos os vasos da minha mãe que eu quebrei jogando bola no quintal.

O começo foi difícil, já que eu não tinha experiência alguma no assunto. Então, aprendi da melhor forma que consegui, provavelmente junto com ele. Conversava, brincava, aconselhava, falava uma bobagem aqui, chamava para ver um filme ali. Basicamente, eu era uma espécie de irmão mais velho.

Mas teve um dia que a gente quebrou o pau. Não foi a primeira vez, nem a última. Você já brigou com um adolescente? É horrível. A discussão é sobre batatas, mas ele não te escuta e começa a falar sobre cebolas, e quando você decide que “então vamos falar sobre cebolas” ele já está lá na frente falando sobre beterrabas, sem ouvir nada do que você diz e com a certeza absoluta que entende muito mais de cebola, de batatas, de beterrabas e de cenouras (que nem foram citadas na briga) que você. Evidentemente a coisa terminou em gritos dos dois lados e eu fui trabalhar com uma dor no coração que nunca tinha sentido antes.

Passei o dia pensando nisso. Como ele já tinha mais de dezoito anos e estava começando a beber cerveja, voltei para casa com uma garrafa daquelas cervejas bacanas. Fui até o quarto dele com dois copos na mão.

– Meu dia foi horrível. Vem beber comigo.

Sentamos num canto do quintal e começamos a beber e a bater papo. Em um determinado momento, eu expliquei a ele:

– Quando eu falo que você está errado, não é porque eu quero mostrar que eu sei mais que você. É porque eu não quero que você se ferre.

Eu já havia usado esse discurso antes. Mais de uma vez, na verdade. Já havia falado que muitos dos erros que ele fosse cometer – com mulheres, escola, amigos, trabalho – eu já havia cometido antes, e ele devia ser esperto e tentar aprender me ouvindo, pois assim não erraria. Ou, pelo menos, não erraria com tanta frequência.

Até então, eu achava que isso era o que um pai deveria fazer: usar o conhecimento e a experiência para prevenir o erro. Mas ali, tomando cerveja com ele, percebi que não podia pensar dessa forma, já que eu mesmo tive um pai que não pensava assim.

Meu pai praticamente exigiu que eu escolhesse uma profissão que me fizesse feliz – e me apoiou em todas as dezenove escolhas, que fiz quando adolescente, sem jamais falar que alguma delas era “errada” – e fez questão de tirar das minhas costas toda aquela pressão de entrar numa faculdade. Meu pai sempre quis que eu acertasse, mas fez algo ainda mais importante e muito mais difícil: deu espaço para que eu errasse o quanto fosse preciso.

Dei um gole na cerveja pensando sobre isso e disse ao meu enteado:

– Eu preciso que você saiba apenas uma coisa.

Nesse momento, eu peguei uma bola imaginária e joguei nos pés dele.

– Eu preciso apenas que você saiba que eu estou aqui no gol. Se der merda, eu seguro a barra.

Ele sorriu.

E no sorriso dele, eu virei pai.

Eu e meu enteado nunca trocamos um passe de futebol. Mas hoje temos a nossa bola: andar. Inventamos um lugar longe para ir e vamos a pé, conversando. Ele me conta sobre as coisas dele, eu falo sobre as minhas. E às vezes, quando ele está apreensivo com algo, eu aconselho, indico, mostro caminhos, pondero. Algumas vezes eu até brigo. Mas sempre deixo claro:

– E se der merda, paciência. A gente resolve.

Volta e meia minha esposa pergunta sobre o que tanto conversamos quando saímos juntos. E eu respondo apenas que:

– Ah, sobre música.

Porque eu sempre conversei muito com a minha mãe e com meu pai. Mas jogar bola... Jogar bola era só com o meu pai.

Aliás, eu ainda jogo bola com ele. Às vezes, vou visitar meus pais e se encontro uma bola perdida no quintal, imediatamente coloco no pé e passo para o meu pai. É instintivo. Afinal, eu fiz isso durante a vida inteira. Foi isso que me tornou a pessoa que sou hoje.

E, mais importante, foi isso que me tornou o pai que sou hoje.

Pois foi trocando passes com meu pai que aprendi que ser pai é, antes de tudo, soltar a pelota nos pés do moleque, ir para o gol e defender todas as bolas que ele perde enquanto aprende a jogar – mas sempre deixando claro que o importante é aprender a jogar. E ficar lá pelo tempo que for preciso. Até ele aprender a chutar de trivela. Até ele encontrar a si mesmo e entender como se joga.

E sempre mostrando a ele que erros serão inevitáveis, mas não significam o fim do mundo. Pelo contrário: fazem parte do aprendizado, e saber lidar com eles é tão importante quanto aprender a acertar.

Meu pai me ensinou muitas coisas jogando futebol. Chutar de trivela – algo que eu só consegui depois de muito esforço – foi a mais simples delas.


publicado em 09 de Agosto de 2015, 00:05
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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