O papo sério sobre trabalho, felicidade e dinheiro

Se dinheiro não traz felicidade... o que traz?

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Tanto pelas experiências que vivi nos últimos anos, quanto às temáticas - relatos - que abordo em meus textos, é muito comum que me enviem mensagens com exatamente as mesmas perguntas. Toda semana são inúmeros os e-mails e recados no inbox querendo saber sobre o mesmo problema:

“Não estou feliz no meu trabalho, quero pedir demissão e fazer algo que me deixe mais satisfeito. O que acha que devo fazer?”

Este parece ser um problema bem comum entre as pessoas, e por incrível que pareça, a maioria das pessoas que me procuram para conversar sobre o assunto não são jovens “millennials” preguiçosos querendo uma vida de diversão, são pessoas que já possuem entre 10 e 15 anos no mercado de trabalho e estão esgotados a ponto de não saberem mais o que fazer. Curiosamente, a grande maioria é também formada por funcionários públicos insatisfeitos.

Cada realidade é de fato diferente, e aplicar as ideias que uso na minha vida podem não funcionar para todo mundo. No entanto, existem algumas boas reflexões que podem ser feitas acerca desse problema.

Seu trabalho está te matando

É indiscutível que, independente de onde você viva, sua rotina de trabalho é estressante e tende a consumir mais da sua saúde - física e mental - do que seria indicado em qualquer cenário.

Existem, de fato, pessoas em condições melhores ou piores, dependendo muito em que posição da pirâmide social se encaixam. No entanto, sabemos que até para os que estão melhor posicionados nosso modelo representa um enorme risco para os profissionais.

É de assustar que há mais de 160 anos, David Henry Thoreau já nos alertava sobre este problema, traçando duras críticas ao formato de trabalho da época. No capítulo Economia, de A Vida nos Bosques, Thoreau escreveu:

“A excessiva lida torna-lhe os dedos demasiado trêmulos e desajeitados para isso. Na realidade, o trabalhador não dispõe de lazer para uma genuína integridade dia a dia, nem se pode permitir a manutenção de relações mais humanas com outros homens, pois seu trabalho seria depreciado no mercado.”

Thoreau nos diz com todas as palavras que, já em 1850 as pessoas trabalhavam o suficiente para que isso afetasse a própria execução do trabalho, que tamanha carga não permitia atividades reais de lazer e que prejudicava o cuidado das relações mais básicas dos seres humanos.

Este é um pensamento que hoje seria associado aos impopulares millenials, geração taxada de preguiçosa e irresponsável, que foge do trabalho e só quer diversão. Mas observando os relatos de um filósofo do século XIX, entendemos que este sentimento vem de muito antes. A ideia de que o estamos atolado em trabalho e deixando nossas necessidades de lado é bem mais antiga do que a culpa que colocamos na nova geração.

Por mais que estejamos alienados dessa ideia, nós, os seres humanos, somos animais, e como todos os outros animais que conhecemos possuímos necessidades naturais que devem ser supridas. Precisamos nos relacionar com pessoas que gostamos, passar tempo ao sol, dormir uma grande quantidade de horas e nos movimentar bastante. Estresse nem sempre é algo negativo, até mesmo para animais, mas quando não conseguimos nos recuperar de nossos estressores, este acúmulo tende a causar danos enormes.

Mas dinheiro é uma necessidade verdadeira

Apesar de toda essa pressão exercida pelo modelo moderno de trabalho, temos que pagar aluguel, contas, nos locomover pela cidade e suprir tantas outras necessidades básicas que só são possíveis através do dinheiro.  

Essa é a realidade que normalmente, quando pensamos em ter uma vida mais tranquila e realizada, acabamos perdendo de vista. Tudo na vida tem um custo. O computador que usamos para acessar internet, a cama que dormimos, móveis, eletrodomésticos, a conta de internet, luz e água, nossas roupas, o aluguel e as manutenções de tudo o que utilizamos constantemente.

Olhe ao seu redor, tudo o que está vendo custou alguma coisa, nada saiu de graça para ninguém.

Quando somos mais novos, é muito difícil enxergar toda essa necessidade. Nossos pais fazem um excelente trabalho em nos privar das preocupações caseiras. Mesmo quando ajudamos em algo, pode ter certeza que existe muita história nos bastidores que não estamos acompanhando. É um cenário visível apenas por quem tem a responsabilidade de manter tudo funcionando.

Por menor que seja o apartamento e mais simples que for o estilo de vida, ter dinheiro é necessário. O que normalmente os mais jovens não costumam entender, é que se você não está pagando por toda a estrutura que usufrui, alguém está. E mais que isso, precisamos nos preparar para imprevistos futuros, como doenças, acidentes e a impossibilidade do amanhã os tempos serem mais difíceis que hoje. E nem adicionei filhos, animais de estimação e parentes debilitados à equação. Só isso já aumentaria em muito a complexidade do problema.

Tá, e qual a saída?

Um dos principais pontos que me ajudou a entender esse quebra-cabeça, foi descobrir até que ponto mais dinheiro realmente traz mais felicidade, buscando compreender a linha onde é necessário o sacrifício para me sustentar,  e em qual momento estou sendo apenas iludido pelo fetiche do consumo, afundado no ciclo de querer cada vez mais.

É indiscutível que precisamos ter uma renda razoável para que exista felicidade - no senso subjetivo de bem-estar pessoal, mas o quanto precisamos?

Precisamos apenas ganhar bem ou ser milionários? Precisamos de um carro que nos leve para onde precisamos ou de uma lamborghini conversível com porta que abre para cima? O que realmente nos satisfaz e o que é apenas um paliativo para esconder nossos problemas mais profundos?

Existem alguns estudos interessantes que nos ajudam a entender a correlação entre renda e felicidade, buscando a quantidade exata onde mais dinheiro deixa de fazer diferença.

É óbvio que esse valor pode variar bastante, levando em consideração os muitos detalhes da vida de cada um, incluindo o lugar onde mora. Mas o importante nessa ideia é que, aparentemente, dinheiro só nos traz um aumento no bem-estar até determinado ponto, depois disso deixa de fazer diferença e gera até mais preocupações.

Este efeito é muito familiar para quem trabalha faz muito tempo. Receber um aumento de salário pode gerar uma grande euforia - interpretada como felicidade - num primeiro momento, mas depois que o valor é transferido ao estilo de vida e cai na normalidade, nos sentimos insatisfeitos novamente, já ansiosos com os próximos aumentos.

Segundo Yuval Harari, autor do livro Sapiens:

“Para pessoas presas na base da pirâmide econômica, mais dinheiro significa mais felicidade. Se você é uma mãe solteira brasileira que ganha 12 mil reais por ano limpando casas e de repente ganha 500 mil reais na loteria, provavelmente sentirá um aumento significativo e duradouro em seu bem-estar subjetivo[...] No entanto, se você é um executivo que ganha 250 mil reais por ano e de repente ganha 1 milhão de reais na loteria, ou se a diretoria de sua empresa de repente resolve dobrar seu salário, é provável que seu bem-estar subjetivo dure apenas algumas semanas.”

Para quem está longe da base da pirâmide, este aumento representa uma mudança no estilo de vida, mas que ao se tornar rotina, deixará de ser algo excepcional e não afetará mais a percepção de felicidade.

Ainda sobre a ideia de mais dinheiro trazer mais felicidade, existem estudos indicando que nem mesmo ganhar na loteria, no longo prazo, causa uma mudança tão grande assim.

Num estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, pesquisadores cruzaram os níveis de felicidade de ganhadores da loteria com os de pessoas que perderam os movimentos do corpo em acidentes. Mesmo ambos os grupos reconhecendo os eventos como pontos cruciais - de forma negativa ou positiva - em suas vidas, no longo prazo nenhum dos grupos apresentou mudança nos níveis de felicidade com relação à como se sentiam antes do acontecido.

Para os que ganham muito dinheiro, a bolha de expectativa se torna cada vez maior e mais difícil de ser preenchida. Já para as pessoas que sofreram graves e debilitantes acidentes, existe um encolhimento dessa expectativa, permitindo que retorne aos níveis anteriores de felicidade.  

Mas se dinheiro não traz felicidade, o que traz?

Observando essa relação entre ganhar cada vez mais dinheiro e nossa felicidade, podemos ter a noção de que caminho não é se matar para ter cada vez mais, mas fazer o necessário para ter o suficiente.

O real contexto de felicidade é incrivelmente subjetivo e pode variar bastante de pessoa para pessoa. Tanto assim que felicidade, nos estudos mencionados, é citado simplesmente como “bem-estar subjetivo”, conjunto de sentimentos pessoais que caracterizam uma pessoa “feliz”.

E apesar de entendermos que o dinheiro é um elemento que contribui para essa noção de bem-estar, inúmeros outros fatores também contribuem para nossa felicidade. Ainda segundo Harari, em Sapiens:

“Família e comunidade aparentam ter mais impacto em nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com familiares que vivem em fortes laços e comunidades apoiadoras, são significativamente mais felizes do que pessoas que vivem em famílias disfuncionais ou não fazem parte de uma comunidade (ou numa procuraram por uma). Casamento é particularmente importante. Repetidos estudos vêm encontraram uma correlação muito próxima entre bons casamentos e um elevado bem-estar subjetivo, casamentos ruins e tristeza[...]Um inválido sem dinheiro, mas rodeado por uma esposa amorosa, uma família dedicada e uma comunidade acolhedora, deve se sentir melhor do que um bilionário alienado. Desde que sua pobreza não seja tão grave e que sua doença não seja degenerativa ou dolorosa.”

Juntando todo esse contexto entre trabalho, insatisfação e dinheiro, me parece que precisamos fazer o que é necessário para garantir nosso sustento e o suficiente para a vida prática acontecer. Que podemos sim alcançar uma certa satisfação fazendo coisas diferentes, buscando coisas novas e emocionantes, mas provavelmente nos encontraremos frustrados assim que a poeira da novidade baixar.

Tudo nos leva a crer que, seja em nosso emprego monótono ou trabalhando numa praia paradisíaca na Tailândia, enquanto não resolvermos os detalhes mais básicos da vida, continuaremos com esse vazio pendendo para ser preenchido.

É difícil apontar exatamente o que deixará cada um de nós mais satisfeitos com nossa vida, mas o que sabemos até o momento, é que se você não é mais feliz agora, meio sem grana e com algumas contas pra pagar, provavelmente não será feliz se matando para ganhar aquele mega salário.

O que fazemos o tempo todo quando tentamos contornar nossas frustrações com ganhos materiais e cada vez mais dinheiro, é a busca de preencher vazios com o que a cultura vigente nos vende como necessário. Acreditamos que para alcançar mais satisfação precisamos do carro do ano, uma casa com piscina, inúmeras viagens pelo mundo e todos os aparelhos eletrônicos lançados no mercado. É isso que vemos nos filmes, nos comerciais e nas séries de TV.

No entanto, é como tentar encher um balde furado. Podemos preencher com tudo o que nos vendem como “sucesso”, mas em pouco tempo estará vazio novamente; precisando de mais, do mais novo, mais caro e mais exclusivo. Só que enquanto não resolvermos os problemas estruturais do nosso balde da felicidade, iremos passar a vida inteira nessa infindável busca.


publicado em 21 de Dezembro de 2016, 15:39
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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