A Tartaruga, o Playboy e a Mulher de Lata: o que a imagem dos candidatos à presidência diz sobre eles?

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Cá estamos para outra análise da série Minha Roupa Diz. Desta vez, o objetivo é utilizar o conhecimento pictórico para desvendar o que cada presidenciável passa (ou tenta passar) por meio de sua imagem.

- Seria Marina Silva a quinta tartaruga ninja?

- Aécio é a versão brasileira do Talentoso Mr. Ripley?

- Dilma, por onde anda, do que se alimenta, onde vive?

E não se engane: assim como na pintura, não existe um único detalhe imagético que se crie sozinho. Sempre há a mão intencional de alguém (pintor ou assessor) a colocar algo em algum lugar.

Para que o texto não se torne uma monografia, irei analisar somente os três candidatos mais bem ranqueados – Dilma, Marina e Aécio. Importante citar que o artigo não tem a intenção de favorecer este ou aquele candidato, mas, visto que cada um é dotado de uma imagem diferente, tentar equiparar elogios e críticas entre os candidatos é algo impossível. Este é um texto com momentos zueros, mas sempre zuero com isonomia.

Caso você nem tenha lido o texto ainda e já esteja louco para comentar que tudo é culpa dos petralhas ou do cheirador ou da eco crente, recomendo que guarde toda esta disposição e gaste tamanha energia lendo um livro. Nem Deus nem o Diabo estão concorrendo às eleições, não seja ingênuo.

Sem mais conversa fiada, lá vamos nós.

Direto dos Hamptons de Minas, com vocês, Aécio Neves

Além de ser um bom vivant, Aécio tem estirpe. É neto de Tancredo Neves, primeiro presidente eleito após o fim da ditadura militar no Brasil. Como todo bem nascido que não necessita mostrar que é bem nascido, Aécio é visto, constantemente, vestindo social sem gravata – o que, por si só, já confere aquele ar cool e arrojado de homem clássico mas nada engessado.

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Quando o evento é mais formal, Aécio opta por um nó de gravata mais robusto, condizente com sua camisa de colarinho mais aberto.

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Ultimamente, é possível identificar um novo padrão no presidenciável tucano. Embora suas camisas mantenham o mesmo colarinho de ângulo aberto, suas gravatas estão com o nó muito mais estreito e simples. Esta alteração fica mais nítida quando checamos suas escolhas para os quatro debates.

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O nó da gravata foi simplificado pois geralmente associamos nós de gravata mais robustos à opulência e à riqueza – não por acaso o nome Windsor, dado ao nó, vem da família real britânica.

Também é importante notar que, durante os debates, Aécio não optou pelo colarinho mais estreito, o que seria o ideal para o nó simples. Ele manteve o mesmo colarinho de ângulo aberto que sempre utiliza ao trajar social. O resultado desta combinação é uma leve desarmonia, causada por um nó que não preenche todo o espaço do colarinho. Mas o cruzeirense não está sozinho: este é um erro frequente para a maioria dos brasileiros, que não está tão acostumada a usar roupa social

Caso ele tivesse optado pelo nó simples acompanhado da camisa de colarinho estreito, a aparência seria totalmente diferente. Mais harmônica, elegante e atual, porém mais distante da massa de possíveis eleitores. Com este pequeno equívoco, Aécio conseguiu se aproximar do brasileiro comum sem fazer nenhuma grande alteração em seu estilo. Ou seja: manteve a estabilidade e ainda aumentou a empatia.

Revendo a imagem acima, algumas pessoas podem dizer que ele estava com a gravata torta também de propósito, para reforçar ainda mais essa ideia de “povão” (inclusive, após o primeiro debate, esta observação foi feita por alguns comentaristas). Eu estava prestes a repetir essa tese por aqui, mas achei melhor pesquisar antes se Aécio era destro ou canhoto.

Sim senhor, Aécio é canhoto. Julgando pelas imagens acima, isso quer dizer que, pelo menos, ele dá o nó nas próprias gravatas. Em nós mais robustos este detalhe é mais discreto, mas em nós menores ele é bem visível e, como todas as gravatas estavam tortas para o mesmo lado, acredito que seja esta a explicação. Um caso raríssimo de peculiaridade espontânea em uma campanha política. Ponto para seu consultor de imagem que deixou essa passar!

Sansão, é você?

Durante muito tempo, foi possível ver a imagem de um homem com cabelos grisalhos, ora divididos de lado, ora penteados somente para trás.

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Agora, sem acasos, o candidato retorna ao vigor dos seus cabelos escuros. Os únicos fios brancos visíveis são os permeiam os fios acima de suas orelhas.

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A alteração na coloração dos fios foi extremamente positiva. O candidato mantém cabelos escuros que demonstram que ele é uma alternativa nova e viril e, ao mesmo tempo, utiliza discretamente alguns poucos cabelos brancos para garantir um ar mais experiente e charmoso.

Por fim, ele não alterna mais o cabelo para trás com o cabelo penteado de lado. Ao jogar todos os fios para trás sua testa ficava maior (dando a ele uma aparência de mais idade), e ele ficava com a imagem muito semelhante à dos políticos mais velhos. Ao definir que só usaria o cabelo penteado para o lado, Aécio ganhou a aparência mais jovem, sem perder a elegância. Mais uma vez, ponto para o assessor!

Chegamos então ao último quesito da análise Aeciana.

Cores e Modelagens

No primeiro debate o paletó tinha um tom muito claro, semelhante ao valor (claro/escuro) do fundo do ambiente. Isso fez com que o candidato se apagasse em alguns momentos.

Quem tá com a roupa apagada, Marina?
Quem tá com a roupa apagada, Marina?

Este fato foi corrigido nos dois debates seguintes, em que Aécio voltou a ganhar vida ao contrastar com os valores (claro/escuro) do ambiente.

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No quarto debate, nova bola fora do assessor. A equipe pegou o terno que estava para lavar desde o primeiro debate e o colocou no Aécio outra vez, sem teste de câmera: o resultado foi, novamente, um semblante mais apagado e sem vibração. Como podem ver, a gravata com saturação e matiz semelhantes ao fundo também foi um equívoco, e reforçou a “camuflagem”.

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Da próxima vez, deixem o cabeleireiro escolher a cor da roupa social.

Observações menores

- Os ternos escolhidos para todos os debates são bem cortados, mas a modelagem utilizada é muito antiga. Se fosse atualizada, seria levemente mais estreita e curta na manga, com o tórax consideravelmente mais modelado ao corpo. Tal alteração tornaria o corpo do candidato mais atraente e harmônico, além, é claro, de deixá-lo mais vigoroso.

- Também teria sido benéfico realizar os debates sem a gravata, pois transmitiria a impressão de um candidato muito mais atual e realmente disposto a realizar mudanças. Como ainda estaria de paletó, essa escolha não seria um sinônimo de mudanças radicais (diferente, por exemplo, de Eduardo Jorge).

Conclusão

Imagem do candidato bem posicionada, mas passível de evolução.

E lá vamos nós para a segunda desta lista.

Com vocês, a pororoca que veio do Acre, Marina Silva

Marina tem o maior índice de evolução imagética na história desta corrida eleitoral. Ela deixou de lado as vestes do treinamento Jedi...

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... e a máscara do Asa Noturna...

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... para se transformar na mulher madura de uma propaganda imaginária de produtos da Natura (em 2010, seu candidato a vice era o fundador da empresa)!

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Hora de analisarmos sua imagem nos debates.

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Se tem uma coisa que esta mulher domina é o dom de escolher acessórios. Seus colares, não só nos debates como no dia a dia, são excelentes peças. Conceitualmente, a origem artesanal aponta o carinho com o fator humano. Por serem criações tipicamente regionais, também têm excelente apelo ao patriotismo.

Esteticamente, os colares também são uma ótima escolha. Ressaltam jovialidade e estilo próprio, visto que o que se esperaria de alguém em sua posição e idade seriam as tradicionais joias discretas e clássicas. Confiança é um outro fator que se destaca em quem tem segurança de utilizar maxi colares étnicos.

Outro ponto positivo em seu visual de debate é o prendedor de cabelo (veja bem, eu não disse o cabelo).

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Pela aparência da peça e pelo histórico de Marina, acredito que ele seja feito de capim dourado, que é um dos materiais mais interessantes para a produção de acessórios (ainda mais quando são produtos artesanais e nacionais). Mas como nem tudo são rosas e meio ambiente, ainda existe um longo caminho a ser trilhado para que ela seja chamada para um casting.

Marina, relaxa, meu amor

"Não consigo! Minha cabeça me puxa pra trás!"
"Não consigo! Minha cabeça me puxa pra trás!"

Que Marina é adepta ao cabelo preso, todos já sabemos. O que não sabemos é por que ela insiste em prendê-los sempre da mesma maneira, como se cada fio tivesse cometido um crime hediondo. Existem muitas opções que manteriam o estilo que ela deseja passar e que, além disso, contribuiriam para uma imagem mais flexível e afável. Frida Khalo ensina que sim, é possível:

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Outrora, ela mesma já soube algo melhor para fazer com o próprio cabelo.

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Há de se falar que Marina tem um ponto específico admirável: ela evita o uso de personal stylist. A candidata tenta escolher a maioria de suas peças, que têm como característica comum não serem caras e, muitas vezes, serem produzidas a partir de material reciclável. Mesmo que cometa erros gritantes, considero louvável a tentativa de produzir uma imagem coerente ao discurso.

Porém, é necessário lembrar à candidata que nem o Messias/Anticristo reencarnado (a nomenclatura varia de acordo com a direção para qual pende seu grau de miopia), Lula, conseguiu se eleger antes de dar um tapa no visual e aparar as arestas de uma natureza bruta.

Em relação às cores, Marina tem o tom de pele moreno claro e, portanto, deve evitar tons terrosos – que darão um aspecto pálido à pele. A melhor opção é abusar do branco e derivados, como Off White e Gelo. Ao contrastar estas escolhas com a pele, ela irá ganhar um aspecto mais corado e saudável.

Nos três primeiros debates ela entendeu bem esta lógica.

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Depois, ela se empolgou demais com o lance da coerência entre discurso e imagem e cometeu esta escolha de matiz. Uma espécie de verde-água, que ficou demais no sol e desbotou.

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Por sorte, sua pele manteve o tom corado, pois a matiz verde é a melhor para tornar tons de pele sadios (devido à oposição ao vermelho). Porém, a saturação não era alta, e o valor (claro/escuro) ficou muito semelhante ao fundo. O terninho fez o mesmo que o paletó cinza fez pelo Aécio: a criação de uma figura pálida e sem destaque no ambiente.

Para tentar respeitar ao máximo a proporção de escrita sobre cada candidato, irei para a última observação sobre Marina.

“Tô de jaqueta ou to de casco?”

Aqui estamos no maior equívoco da candidata: ela simplesmente não descobriu que número veste. Ou melhor, ela acha que descobriu, mas deve estar uns 30 quilos enganada e uns 20 cm equivocada.

Neste quesito, Marina nos lembra aquele amigo que nunca comprou roupas e sempre deixou esta tarefa com a mãe, que, temerosa com o crescimento espantoso do seu rebento, sempre escolhia um ou dois números maiores para cada peça de roupa. Selecionei alguns exemplos do tamanho desproporcional das peças.

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O principal reflexo deste erro é utilizado por seus oposicionistas para fazerem chacota e chamarem-na de “tartaruga” (mesmo que eles não saibam conscientemente que este é um dos principais fatores). O resultado do tamanho incorreto deixa uma enorme sobra na região do pescoço, como se fosse realmente uma folga para algum tipo de casco.

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Conclusão

A candidata é a mais autêntica e bem definida entre os três, tanto para o bem quanto para o mal.

E, finalmente, vamos para a última análise.

Dilma Rousseff e o Segredo da Esfinge

Dilma é uma incógnita. A personalidade forte e centralizadora conflita com a mulher de discursos engessados e nada incisivos. As roupas padecem do mesmo mal. Constantemente oscilando entre pólos opostos, buscam suavidade para alguém de postura rígida.

É inegável que ela soube utilizar seu posto político para aperfeiçoar e rejuvenescer sua imagem.

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Embora ela seja admiradora do estilo Carolina Herrera, eu nunca entendi bem por que optar por este topete gigantesco. Antes, ela já tinha conseguido alguns penteados bem mais suaves, interessantes e que tornavam sua face mais afável.

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Passado o puxão de orelha no Celso Kamura, cabeleireiro da presidenta, vamos falar sobre a imagem de Dilma nos debates.

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Ao analisarmos as combinações, é notável o desejo em ressaltar estabilidade ao adotar um padrão para a escolha cromática: vermelho-claro-vermelho-claro. O mesmo colar foi usado em três oportunidades, com apenas uma exceção (no primeiro debate, foi escolhido um colar de pérolas que possui a mesma proporção da joia repetida posteriormente). Se a ideia era transmitir solidez, a mensagem foi recebida. Até os modelos dos terninhos são parecidos.

O equívoco

Nos dois momentos em que a candidata usou vermelho, ela teve a imagem levemente comprometida – os outros dois candidatos não caíram nesta cilada de fazer referência direta e constante a qualquer partido que seja.

Aliás, tem muito tempo que os tucanos entenderam que militar a cor de um partido político pode soar agressivo e repelente para a maioria da população. Não à toa, vimos Aécio alternar gravatas azuis e vermelhas. Outro fator que deveria ser levado em conta é a agressividade da cor vermelha. Não é recomendável o uso indiscriminado do pigmento neste tipo de situação a não ser que se queira dar a ideia de uma posição mais agressiva (o que, creio eu, não tenha sido o caso).

A diferença de quem bota a mão na massa

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Estamos diante do maior mérito imagético de Dilma: uma sacada antiga, mas ainda imbatível.

Tanto Marina quanto Dilma estão com uma espécie de terninho claro, mas repare como um detalhe pode alterar a percepção da atividade realizada por cada candidata. Dilma veste uma peça com manga três quartos, o que dá a impressão de que ela está com as mangas arregaçadas para o trabalho. Marina, com manga tradicional e, ainda por cima, uma peça sobreposta a outra, tem um aspecto mais tecnicista e teórico. A imagem das candidatas juntas torna o contraste ainda mais poderoso. É como se Marina fosse a teórica que quer aplicar conceitos, enquanto Dilma é a pessoa que realmente coloca tudo isso em prática.

Creio que Dilma sabe o poder que esta imagem representa, e não é à toa que este a manga três/quartos sem sobreposição de blusas aparente é o único padrão que ela repete nos quatro debates.

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Tirando alguns acertos e erros menores e a sacada incrível citada acima, sinto falta de visualizar com mais clareza o que Dilma busca transmitir com a própria imagem.

Posso apenas fazer suposições sobre o porquê dessa escolha, e a hipótese que acredito ser mais lógica é a de que existe uma dualidade muito grande entre a imagem que a candidata deseja transparecer – flexível, suave, atual, disposta a grandes reformas e de perfil agregador – e a imagem que a candidata criou para si durante muito tempo – centralizadora, pulso firme e de pouca aptidão para lidar com grupos distintos e grandes rupturas.

Conclusão

Dilma é quem tem a menor porcentagem de erros, mas é também a candidata que possui a imagem menos clara entre os analisados.

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Adendo histórico

Se você quer saber quando toda esta preocupação com o vestuário dos candidatos na História Moderna começou, sugiro que assista ao primeiro debate televisionado, entre J. F. Kennedy e Nixon. Os desdobramentos desse evento resultaram, entre outras coisas, na estética do American Way of Life.

Adendo do He Man

Nos últimos dias, ouvimos bastante à respeito do aparelho excretor na fala de Levy Fidelix. É importante nos lembrar que encontrar alvos é algo extremamente fácil durante as eleições: a tarefa mais árdua é conseguir estudar o suficiente para escolher alguém não como um alvo, mas como uma direção nos próximos quatro anos.

Cruze sempre as informações e projetos do seu candidato e dos concorrentes. Lembre-se, a eleição não é uma competição de quem odeia mais quem, mas sim de quem tem melhores números, históricos, projetos e planos. Leia, estude e sempre diversifique suas fontes.

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É isso. Por hoje é só, pessoal. Como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido!

 


publicado em 30 de Setembro de 2014, 21:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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