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UFC ataca a liberdade de imprensa e barra jornalista por fazer bom jornalismo

Uma defesa daqueles que não se curvam diante dos poderosos mesmo tendo que enfrentar tantas pressões

Imagine que você é um médico.

Você está lá cumprindo o seu duro plantão de 18 horas quando de repente um cara muito odiado no seu país sofre um atentado e vai parar na sua mesa de cirurgia. Você naturalmente vai lá, opera o sujeito, salva a vida dele e em seguida recebe a notícia de que o hospital resolveu te demitir.

Imagine que você é um professor.

Você está lá dando sua quinta aula de história na terceira escola diferente do dia quando de repente um aluno cujo pai é muito influente arremessa uma borracha na sua direção. Você pede para que o aluno saia da sala de aula e vá até à diretoria, mas antes mesmo do sinal tocar, o aluno está de volta e o diretor te chama para uma 'conversinha amistosa' do lado de fora.

Agora imagine que você é um jornalista.

Você está lá cobrindo um evento periódico super concorrido quando de repente uma fonte revela determinada notícia quente sobre a próxima edição. Você que tem uma carreira inteira construída na área, checa a informação e publica. De repente, os seguranças do evento aparecem, te levam para uma salinha escura, confiscam sua credencial e banem você pra sempre do local.

Saúde, educação, interesse público. Os dois primeiros casos foram hipotéticos (por mais que sejam possíveis), mas o terceiro é verdade e aconteceu com Ariel Helwani, o mais premiado jornalista de MMA do mundo.

Esse é o tal jornalista.

Helwani é um jornalista canadense que cobre MMA desde 2006. Depois do começo na Fox Sports, ele passou a integrar a equipe do portal MMAFighting.com do Sports Blog Nation e ganhou o prêmio de "Jornalista de MMA do ano" em 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Ou seja, o cara tem repertório suficiente para ser considerado o melhor jornalista do setor. Acontece que o pessoal da organização do UFC não soube mensurar o poder de alguém que é costumeiramente aplaudido pelas pessoas quando aparece nas transmissões ao vivo.

Helwani ficou sabendo que o ex-campeão peso pesado, Brock Lesnar, voltaria ao UFC e participaria do evento de número 200, a ser realizado em 9 de julho. Confirmada a informação de sua fonte, Helwani publicou a novidade e tal 'vazamento' parece ter irritado a organização (e até o próprio lutador, segundo a própria organização).

Naturalmente, UFC e Brock Lesnar deviam ter outras intenções para realizar o grande anúncio. Intenções que provavelmente envolviam contratos de publicidade robustos e patrocinadores por toda a parte. Mas o bom trabalho de Helwani frustrou esses planos e deixou muita gente chateada, o que acabou resultado na condução do jornalista canadense pelos seguranças do UFC 199 até uma sala nos fundos do "The Fórum" (ginásio onde as lutas estavam rolando).

Ciente de que não poderia vir coisa boa daí, ele pediu a companhia de seus dois colegas de trabalho, a fotógrafa Ester Lin e o produtor de vídeo E. Casey Leydon. Chegando lá, recebeu a notícia do próprio Dana White (o todo poderoso presidente do UFC) de que suas credenciais de imprensa estavam confiscadas para sempre e que todos eles deveriam deixar o local imediatamente (antes mesmo da luta principal da noite acontecer).

Acostumados a acompanhar os duelos em tempo real através da transmissão de Ariel, os fãs logo perceberam que havia alguma coisa errada quando não obtiveram notícias do confronto entre Michael Bisping e Luke Rockhold. O próprio Helwani apareceu no Twitter para explicar o ocorrido:

Eu fui escoltado pelos seguranças da Zucca até o lado de fora do edifício antes da luta principal. Credencial caçada, também. Não vi Bisping realizar seu sonho.

Meus amigos de longa data Casey Leydon e Ester Lin também foram escoltados para fora do prédio comigo. Desculpe por não fazer a cobertura do evento esta noite.

Eu amo esse esporte e esse trabalho com todo meu coração. Não fiz nada de antiético. Só reportei notícias de luta. Só isso. E agora me dizem que estou banido pelo resto da vida.

Os tweets estão na ordem cronológica, de baixo pra cima. Você sabe como funciona.

A repercussão foi longe. E um grande movimento foi criado nas redes sociais para que a cassação de Helwani fosse confiscada. O próprio jornalista chegou a declarar esperar que, com a cabeça fria, a decisão fosse revista e pediu emocionado que a credencial de seus colegas que nada fizeram fosse devolvida.

Alguns dos tweets que encontramos buscando pela hashtag criada #freehelwani

Após testemunhar tamanha comoção, o UFC de fato voltou atrás, devolveu as credenciais para os três profissionais, mas não deixou de dar sua versão dos fatos:

“A versão que vem circulando não é completamente precisa. Eu não estou dizendo que você não tem o trabalho de reportar os fatos, mas, neste caso, os princípios da profissão são de vir até o UFC para comentar a história que você está prestes a reportar, mesmo que você ouça um ‘sem comentários'.”

Dave Sholler, porta-voz do evento. 

Vale dizer que Helwani foi demitido da Fox Sports pouco depois de ter vazado a revanche entre Conor McGregor e Nate Diaz para o UFC 202. A Fox jura que a demissão não teve nada a ver com isso, mas correm boatos de que a organização do evento pressionou a emissora pela demissão do jornalista e o próprio demitido confirma isso. Dessa vez, Helwani não ficou desamparado e seu veículo ficou ao seu lado.

Ao comentar a revogação do banimento, o portal MMA Fighting declarou:

Depois de uma conversa com os oficiais do UFC na segunda-feira a noite, os banimentos das credenciais do repórter Ariel Helwani, da fotógrafa Esther Lin e do cinegrafista E. Casey Leydon foram revogados.

Nós apreciamos o fato de que o UFC estava disposto a reconsiderar sua decisão, mas de qualquer forma, nós respeitosamente discordamos da afirmação da organização de que "as táticas recentes usadas pelo repórter Ariel Helwani estão além do propósito do jornalismo."

O SB Nation e o MMA Fighting vão continuar dando todo suporte necessário para o trabalho de Helwani e dos outros colaboradores da equipe.

E gostaríamos de agradecer sinceramente aos fãs, à imprensa e aos lutadores que nos apoiaram durante esse período.

Link Youtube - No programa do qual é anfitrião "The MMA Hour", Helwani deu todos os detalhes da situação. 

A história ainda teve outros pormenores com detalhes do que foi dito durante a troca de acusações, entre eles a justificativa dada por Dana White de que o jornalista estava sendo banido por ser "muito negativo", além de frases como "vá cobrir o Bellator, nós não te queremos aqui", "o Lorenzo [amigo de infância de Dana White e um dos donos do UFC] te quis fora da Fox e isso aconteceu. Agora ele te quer fora daqui" e a mais significativa "faremos todo o possível para arruinar sua carreira."

Dana White não gosta de ser contrariado.

Casos como esse nos ajudam a elucidar um problema crescente na sociedade atual: a confusão na cabeça de grande parte das pessoas entre o que seria a prática do bom jornalismo e o que é assessoria de imprensa. Confusão impulsionada pelo crescimento dos espaços privados de entretenimento, convivência, comunicação, etc.

O bom jornalismo investiga, apura, solta furos relevantes para as pessoas. É ético, responsável e uma das bases das sociedades democráticas nas quais vivemos hoje. Quando lembramos disso, nos damos conta de que não se trata de um "problema menor".

A maioria dos eventos que distribuem credenciais para jornalistas não espera e não admite que se fale mal do produto, seja ele um novo condicionador para cachorros ou as Olimpíadas. E, em tempos modernos, toda a máquina corporativa e seu poderio financeiro estão à disposição para que tal desejo seja atendido.

Tente se desvincular da ideia genérica de grandes emissoras de abrangência nacional cobrindo os bastidores da política em Brasília. Coloque-se no papel de um jornalista de emissora local do interior do Maranhão que descobre casos de corrupção na prefeitura de uma cidade dominada por coronéis.

Lá, a violência contra os "adversários políticos" ainda predomina. Lá, as relações de poder são muito mais estreitas. Lá, os poderosos fazem do espaço público o quintal de casa. E se lidar com tais pressões nesse espaço público é difícil, fica por sua conta imaginar o que pode rolar no espaço privado.

Longe de querer ficar comparando profissões, ser jornalista hoje em dia não é das missões mais fáceis. Em tempos onde a informação circula rápido e gratuitamente (o que é ótimo), está difícil encontrar recursos para continuar mantendo bons níveis de apuração e checagem dos fatos. O resultado é o que temos aí hoje.

Quando presenciamos casos de bom jornalismo, devemos ficar lisonjeados. Quando presenciamos casos de bom jornalismo punidos injustamente por isso, devemos (todos) ficar revoltados. Afinal, o caso de Helwani é pequeno. Ninguém ia morrer se não ficasse sabendo antes que Brock Lesnar voltaria a lutar (o que torna a reação ainda mais absurda). Mas e quando aplicamos isso em grande escala?

Um jornalista descobre que um cartel de empresas está fraudando licitações públicas, mas não vai publicar a informação sem antes perguntar se eles estão preparados para gerenciar a crise.

Um jornalista descobre que o político está recebendo propina para aprovar determinados projetos, mas não vai publicar sem antes perguntar se as passagens para fora do país já estão compradas.

Um jornalista descobre que o empresário está sonegando impostos, mas não vai publicar antes de saber se ele já quitou as mensalidades da escola bilíngue de sua filha.

Por isso, um grande favor que podemos fazer para nós mesmos e para os bons profissionais do mercado é escolher bem jornalistas e veículos que consumimos e damos audiência. O jornalismo bem feito beneficia a todos e é essencial para proteger a sociedade e seus interesses dos indivíduos em situação de poder.

Afinal, já dizia Millôr Fernandes: "quem se curva diante dos opressores mostra o traseiro para os oprimidos."


publicado em 08 de Junho de 2016, 14:00
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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