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Olhar por outra perspectiva ou como aprendi a lidar com emoções difíceis

Melhor do que controlar nossas expressões e deixar de por pra fora nossos sentimentos é olhar com empatia para o que nos acontece

N.T.: o meu conhecimento é um resultado de experiências pessoais e psicoterapia. Não sou especialista na área, mas acredito que possamos crescer juntos compartilhando ideias.

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Nunca fui do time dos calmos. Estava sempre pronto para bater uma porta quando contrariado ou para ser agressivo com quem não estivesse de acordo com minhas expectativas.  E, claro, me achava coberto de razão.  Achava que as injustiças às quais era submetido me davam a justificativa moral para poder explodir e agredir até quem não tinha nada a ver com o assunto.

Alguns anos atrás, quando passei por uma série de grandes mudanças quase simultâneas na minha vida, a coisa piorou. O que acabou culminando com algum tempo de terapia. Me dei alta nove meses depois, num processo duro de autoanálise e autorreconhecimento.  

Saí de lá dono de uma serenidade que não conseguia ter antes, reagindo de forma tão diferente a certas situações que até me surpreendo, num processo de melhoria que venho aperfeiçoando desde então. Depois de uma longa conversa com um amigo, achei que seria uma boa ideia compartilhar como essa transformação aconteceu.

No filme "Tratamento de Choque", Dave Buznik (Adam Sandler) é condenado a pagar pelo seu crime fazendo terapia para raiva e comportamentos agressivos

Mudar um comportamento é complicado.  No fundo, ainda sou capaz das mesmas reações agressivas que sempre tive.  Se der mole, o instinto reativo ainda fala mais alto e acabo tratando as pessoas de maneiras das quais me arrependo instantes depois.  Sendo bem sincero, não sei se é realmente possível mudar reações tão bem sedimentadas em minha personalidade. Só que, cada vez mais, consigo domar a besta antes que ela machuque alguém, e isso é um aprendizado diário.

O primeiro passo para saber como mudar o sistema é entender como ele funciona.

Tudo começa com um evento externo, que pode ser qualquer coisa.  A buzina do carro de trás quando o sinal abre, uma topada no pé da mesa, o cachorro da vizinha chorando às cinco e meia da manhã, o filho que deixa a toalha molhada em cima da cama.

Depois que o evento externo acontece, a segunda etapa é quando ele é interpretado, consciente ou inconscientemente.  Essa interpretação pode ser feita com base em critérios objetivos ou não.  Aqui se pensa coisas como "lá vem a Sílvia tomando conta da minha vida de novo," "puxa, ela me xingou e ninguém faz isso comigo" ou "ah, não, dez minutos esperando o elevador de novo não dá." O resultado dessa segunda etapa é uma sensação qualquer. Raiva, desprezo, alegria, satisfação.

Fechando a cena, essa sensação é expressada: jogando o celular longe, gritando na janela, batendo a porta, tratando com hostilidade a primeira pessoa que aparecer pela frente.

Muitas vezes, a sensação resultante da segunda etapa pode funcionar como um novo evento externo, realimentando o sistema. E aí acontece tudo de novo: a pessoa vê que ficou triste por causa de alguma coisa e fica frustrada por causa dessa tristeza. Além disso, a forma de expressar a sensação também pode funcionar como um novo evento externo. Na raiva, a pessoa quebra um copo e então fica desapontada por ter agido de forma violenta mais uma vez.

Nesse ciclo, estamos sempre prontos pra atacar

Nossa primeira tentativa de mudança é na forma de expressar. É daí que vem o velho conselho de contar até dez antes de reagir, na esperança de sermos capazes de encontrar outra forma de botar pra fora o sentimento. O problema é que, geralmente, só conhecemos duas maneiras de fazer isso: ou da forma primeira que nos vem à mente ou engolindo em seco e guardar para nós.

Se a expressão violenta é ruim, guardar pra si um sentimento ao invés de expressá-lo de forma equivocada pode ser destrutivo. Primeiro porque não resolve o problema. De cara, essa repressão da resposta que queria ter dado é um novo evento que passa por uma nova interpretação, normalmente levando à frustração por não podermos falar o que queríamos.

Além disso, esse acúmulo de sentimentos ruins somatiza de alguma forma.  Dores no corpo e depressão podem surgir por conta disso. E, normalmente, de mãos dadas com o mau hábito de acumular está a teimosia em não querer se livrar daquele fardo.

E, como o acúmulo não dissipa sozinho, quando não conseguimos segurar mais uma decepção, geralmente botamos tudo pra fora de forma impensada e amplificada.

Temos então dois pontos de geração de mudanças benéficas: primeiro, aprender a mudar a forma de expressar as sensações que antes botávamos pra fora na forma de atitudes mal educadas e agressivas. Depois, algo tão bom quanto mudar a forma de expressar as sensações: interpretar acontecimentos de formas diferentes, por outras perspectivas. Ao invés de expressar a raiva chutando a porta, que tal nem mesmo ficar com raiva?

Pra isso, é preciso saber que é possível enxergar as situações de outros pontos de vista. E que visões diferentes não são necessariamente erradas.

Para tomar a iniciativa de tentar ver as situações com outra perspectiva, é preciso força de vontade e bastante desprendimento de suas próprias opiniões e conceitos presos há tempos na mente.  Pra mim, o que funciona é lembrar desta charge, que resume com perfeição este pensamento.

Começo a me perguntar: será que estou do outro lado do nove?

Durante a terapia, aprendi que é possível prestar atenção nos próprios pensamentos e elaborar melhor como chegamos até eles.  E isso é uma grande ajuda, porque ao descrever as razões para um determinado pensamento ou comportamento, acabamos compreendendo melhor toda a lógica que há por trás deles.

Nesse processo, acontece de, muitas vezes, percebermos que não havia uma razão sensata por trás daquilo, o que serve de estímulo para abandonar aquele pensamento ou atitude nociva.

Aprender a meditar foi de grande ajuda neste ponto, porque potencializou a minha capacidade de questionar as emoções que sinto, dar um passo atrás e pensar: "olha que coisa, eu fiquei com raiva por causa disso, porque será? E já estava pronto pra sair gritando de novo, como pode?"

A partir daí, começamos a perceber as origens e motivações reais daquela sensação. Aprendi a perceber que a reação indesejada está se formando lá no fundo da mente e então tomar medidas de contenção antes de agir de forma inadequada. A sede de agredir como forma de expressão vai embora e, no caminho, entendemos muito sobre como funcionam os nossos processos mentais.

Ao enxergar as situações de uma perspectiva diferente, geramos sensações completamente distintas. Se a sensação gerada é outra, a expressão é também outra. Ações como tapas nervosos no para-brisa do ônibus que parou sobre a faixa de pedestres deixam de fazer sentido, já que ao invés de ver o motorista como um imbecil que desrespeita as regras de trânsito, o enxergamos como mais uma pessoa que está sofrendo com o trânsito sem saber como lidar corretamente com ele.

Ainda tenho um longo caminho pela frente.  Algumas reações são mais rápidas que minha consciência e passo longe de saber lidar com outras emoções desagradáveis, como o desapontamento e a frustração.  Mas sei que descobri um bom caminho a seguir.

Aprender isso e descobrir que é só virar uma chavinha na sua mente que tudo muda, dá uma sensação de liberdade que é difícil de descrever. Quando se aprende que se é capaz de dizer "opa, pera lá!" antes de reagir impulsivamente, o monstrinho irracional que vive no fundo da mente se treme todo, amedrontado por ver que seu controle sobre nossas ações está enfraquecendo.

Para aprofundar a leitura

Perco o controle das emoções | ID #44

17 sinais de que o trabalho sujo começou | Como a gente se transforma? #6

Colocar-se em outra pessoa | Exercícios de empatia, 8


publicado em 19 de Outubro de 2015, 00:00
2007 03 19   fotinha

Mário Marinato

Ama caminhar pelas trilhas de sua terra natal, Cachoeiras de Macacu/RJ. Tenta aprender a tocar piano e espera viver até os 90, pelo menos. Escreve no Sarcófago


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