Os futuros que contrariam o boletim escolar

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Nas aulas de química, cada cálculo estequiométrico era encarado com atenção. O vestibular estava próximo. Esquece a festa, velho. Vamos focar no Machado de Assis. Tem Dom Casmurro para ler. O mapa conceitual de biologia vai ajudar demais. Só assim para entender de que forma podemos descobrir qual combinação vai gerar o bebê albino, nosso querido azinho-azinho.

Descrever com todos os detalhes esse esforço pró-vestibular seria lindo. Mas a verdade é que mal conseguíamos escutar o que a professora de química falava, tamanha a bagunça durante a aula. Para a maioria de nós, nas vésperas da Fuvest, a Capitu era no máximo a Giovanna Antonelli em “Laços de família”, clássico do noveleiro brasileiro. A emocionante descoberta do bebê albino era decorada e adaptada nas horas que antecediam os testes. “Não dá para considerar pelo menos o raciocínio, professora?”. Essa era a frase que ecoava durante as vistas de prova.

Escola: só te ensinando a passar na prova desde... sempre.

Éramos um relaxo. Tínhamos potencial, mas não nos aplicávamos. Era esse o discurso a cada vez que a baderna tomava proporções inaceitáveis dentro do colégio católico tradicional. Algo como arremessar as mochilas dos amigos do último andar do prédio, brincar com o extintor químico no rosto do colega do lado ou esconder todos os apagadores do colégio. Pré-adolescentes típicos.

Passaram-se uns sete ou oito anos desde que a turma de 2004 se formou. Perdi contato frequente com quase todos, mas fiquei impressionado com o rumo que as coisas tomaram desde então. A maioria estudou em faculdades razoáveis, medianas. Nada excepcional. Conto nos dedos os que encararam uns anos de cursinho e conseguiram entrar nas faculdades federais. Eis que, fazendo uma análise fria, até que nos viramos bem demais até aqui.

Os mais aplicados, mais bitolados e menos desenvoltos passaram longe da expectativa colocada sobre eles. Talvez pela pressão, talvez por conta das deficiências que a escola tradicional não mensura, estes ainda não vingaram. Os que impressionam mesmo são aqueles que, de acordo com o boletim, eram os medianos. Aqueles cujas notas se encaixavam, muitas vezes por dádiva dos céus, entre o 5 e o 7. Vários estão hoje ocupando posições promissoras em grandes multinacionais. Outros advogam em renomados escritórios, gerenciam projetos, escrevem para revistas conceituadas, montaram seus consultórios e estão moldando um começo de carreira de dar inveja.

Foda-se geografia, quero mais é tirar a média e voltar para o meu curso online de mecatrônica

Longe de mim criticar o sistema educacional. Seria uma crítica vazia, de quem não sabe como reverter a situação. Me lembro, porém, de uma série de lições que não aconteceram dentro da sala de aula, mas que, analisando hoje, percebo que serviriam para identificar os que despontariam profissionalmente alguns anos depois:


  • Tão (ou mais) importante do que o cálculo estequiométrico foi o esforço para organizar as festas e churrascos de final de semana. Quantas pessoas irão? Quanta bebida precisaremos? Quanta carne será necessária? Quem vai fazer o que? Os recursos eram limitados e a logística era complexa, mas de um jeito ou de outro, a coisa acontecia. Isso é gestão de projetos.

  • A experiência adquirida na negociação com as empresas que queriam nos vender a tão sonhada viagem de formatura também foi extremamente agregadora. Analisar os pacotes que o mercado oferece, conversar com os colégios vizinhos, verificar se eles possuem ofertas melhores que as nossas, conseguir vantagens para os que não conseguem pagar a viagem integralmente, lidar com os conflitos interpessoais que surgem em virtude de um evento tão esperado. Se trocarmos os “alunos” por “funcionários”, teremos um belo cenário corporativo sendo explorado por jovens sem nem idade legal para comprar cerveja.

  • Tínhamos uma bola para utilizar durante os intervalos e totalizávamos mais de 15 moleques agitados, sem professor para organizar a bagunça. Precisávamos dividir o tempo de modo que os requisitos básicos fossem preenchidos: “todos vão jogar” e “precisamos ser rápidos”. O intervalo só durava meia hora. Se fossemos traduzir a situação num jargão da moda corporativa, aquilo seria a semente de uma equipe auto-gerenciável.

  • Nas tradicionais olimpíadas internas, uma das provas envolvia arrecadar alimentos para doação. Enquanto uma das equipe passou de porta em porta, conseguindo 10 ou 15 quilos a cada 50 apartamentos visitados, a equipe concorrente ligou para todos os supermercados da região atrás de doação. Esse segundo time conseguiu quase uma tonelada de alimentos, contra pouco mais de 200kg arrecadados pela primeira. Grandes chances do aluno que sugeriu essa abordagem ser o analista ou gestor que vai propor a solução que ninguém havia enxergado antes. Isso é pensar fora da caixa.

Os que conseguiam levar dois (ou três) namoros simultâneos também poderiam ser citados aqui, na categoria dos “extremamente habilidosos com situações e palavras”, mas achei mais ético focar nos exemplos citados acima.

Coordenadores e diretores de escola, vale dar aquela analisada um pouco mais imparcial nos que passam longe do brilhantismo acadêmico.

Colegas de festas e churrascos, deveríamos ter badernado ainda mais.


publicado em 30 de Novembro de 2011, 07:10
Eduardoamuri

Eduardo Amuri

Autor do livro Dinheiro Sem Medo. Se interessa por nossa relação com o dinheiro e busca entender como a inteligência financeira pode ser utilizada para transformar nossas vidas. Além dos projetos relacionados à finanças, cuida também da gestão dO lugar.


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