"Após a morte de meu pai, sinto culpa. Como lidar?" | Mentoria PdH #23

"Meu sentimento, além do arrependimento e da vergonha, é de que me tornei um grande homem para meus amigos, mas um homem ausente para minha família."

Pergunta da semana:

"Muito recentemente meu pai faleceu e existe algo em específico que não consigo lidar, a culpa.

Ele não tinha nenhuma doença, nada aparentemente ruim, fazia exames anuais e na medida do possível tentava se cuidar, apesar de nos últimos anos ter engordado bastante. Nós ultimos 10 anos, meu pai trabalhava de segunda a segunda, das 9 da manhã às 11 da noite, tudo isso para poder realizar seus sonhos e prover para nossa família.

Ele faleceu subitamente. Do início do seu infarto até o momento final, foram só 3 horas.

E aí que depois da dor inicial, veio a culpa.

Foto por Fares Hamouche

Nunca tivemos uma relação ruim, longe disso, ele sempre foi uma pessoa boa e amorosa, sempre dizia eu te amo para ele no fim de nossas conversas ou no boa noite em casa, quando ele chegava e eu ainda estava acordado. Ele sempre foi muito preocupado e por trabalhar o dia todo fora, sempre ligava pra mim e pro meu irmão todos os dias, mais ou menos duas vezes ao dia. Sempre se dispôs a fazer o que estivesse ao seu alcance por nós e me dizia que quem sempre estaria ali, independente de qualquer coisa, seria a família, ele, minha mãe e meu irmão.

Acabei virando uma pessoa muito parecida com meu pai, muito carinhoso, mão fechada e de horas longas de trabalho infindável.

Por tudo dito acima, vêm as ações das quais me arrependo amargamente. 

Algumas ou muitas vezes ele ligava e eu não atendia naquele exato momento e o ligava depois, ou mesmo às vezes nem ligava de volta e ele acabava me retornando mais tarde. Na minha cabeça, ele simplesmente estava me ligando para saber se eu estou bem e bom, eu estava. Também sempre assumi que ele estivesse bem, então, a ligação não é nada urgente.

Além disso, dificilmente a ligação partia de mim no dia a dia, somente quando eu viajava a trabalho (muitas vezes ao ano), eu sempre ligava para ele quando chegava no destino para dizer que tudo estava bem.

Na mesma linha das ligações, as suas mensagens no WhatsApp não eram respondidas imediatamemte, diferente de mensagens de amigos que eram respodidas quase que no mesmo momento. As dele, sempre poderiam esperar um pouco, afinal, eu já sabia o que ele queria, mesmo sendo só um "Vitor, me liga", era basicamente a mesma coisa, só pra saber se estava tudo bem.

Me arrependo amargamente de todas essas pequenas ações, do quanto poderia ter atendido mais, ligado mais, respondido mais ou até mesmo visitado mais ele no seu trabalho. São pequenas ações que sei que teriam feito a diferença.

Meu sentimento, além do arrependimento e da vergonha por isso, é de que me tornei um grande homem para os meus amigos, mas um homem ausente para minha família.

Um pai e seu filho. Foto por Sebastián León Prado

Sinceramente, não sei que resposta procuro aqui, só sei que preciso de ajuda."

— Ricardo

Complemento especial sobre luto:

Recomendo dois artigos, de coração:

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publicado em 03 de Outubro de 2018, 12:29
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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