Para reduzir acidentes e trânsito, ninguém mais vai dirigir

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— Papai, como foi que o vovô morreu?

— Já te falei filho, acidente de carro.

— Mas pai, acidente de carro não existe, fala a verdade, eu já tenho 7 anos!

— Eles não se acidentam hoje Dudu, mas na época do seu avô, eles trombavam uns com os outros e muita gente se machucava, ou até ia pro céu, como o vovô.

— Que louco!

— Pois é, filho, que louco...

will-smith-and-son

Essa conversa pode acontecer em 2300 ou daqui 50 anos. Fato é que tudo aponta para uma realidade em que acidentes de carros se tornarão tão incomuns quanto rebobinar o filme depois de vê-lo ou o Anderson Silva ter o cinturão de peso médio no UFC. E se parece distante, não se engane, é provável que você vá vivenciar essa mudança e provavelmente vai reclamar, seu saudosista. Mas uma coisa de cada vez.

Por que os carros batem?

Porque atrás dos volantes existem pessoas e, por mais avançados que pensemos ser, somos muito burros e lentos, essa é a verdade. Quebramos regras de trânsito como se fossemos ganhar pontos no GTA, bebemos e dirigimos, aceleramos como idiotas para frear no próximo semáforo. Acontecem falhas mecânicas, é verdade, mas a maioria esmagadora dos acidentes é causado pela pecinha de carne e osso que ainda é necessária para fazer os veículos andarem.

Ainda.

O carro que tudo vê

Sensores, sensores em todo lugar. É assim que um carro consegue dirigir sozinho, tentando olhar e calcular tudo o que acontece a sua volta. Identificar pedestres, ciclistas, motos, veículos, ou qualquer objeto em movimento, entendendo em tempo real sua direção de deslocamento e velocidade -- e todas as possibilidades que ele pode assumir a partir dali, desde manter tudo constante a fazer uma curva brusca ou frear até parar sem qualquer aviso.

O Google é hoje um dos expoentes nessa tecnologia, tendo seu próprio carro autônomo, mais um produto saído do seu laboratório de supernovidades Google X (assim como os óculos), até com permissão para passear por alguns lugares dos EUA, além de outros projetos em geral ligados a universidades. Já são anos de desenvolvimento e parece que ainda faltam outros tantos até que se torne um produto comercial (e parem de atropelar apresentadores de TV), mas dado o tamanho da revolução que significará, esperar um pouco mais valerá a pena.

Mas enquanto você é o único veículo que tenta sobreviver ao caos do trânsito sem ajuda de um humano com seus vários sentidos, é preciso copiá-los, principalmente enxergando e ouvindo tudo ao seu redor e simulando um cérebro em suas instantâneas decisões.

Reconhecer sinais de trânsito como placas, faixas pintadas no asfalto, esquinas, direção do tráfego, lombadas... dirigir é complicado, mas os computadores dão conta. É questão de tempo.

Preparando o caminho

Vocês se lembram da estrada automatizada do filme "Eu, robô", de 2004? É menos que isso, mas é tão interessante quanto
Vocês se lembram da estrada automatizada do filme "Eu, robô", de 2004? É menos que isso, mas é tão interessante quanto

Uma das formas de facilitar o trabalho dos carros autônomos é instalar nas próprias vias de tráfego, seja no asfalto ou em placas de sinalização, pequenos dispositivos para serem lidos pelos veículos com a indicação de direção do tráfego, velocidade limite, localização de lombadas, semáforos e outros dados. Com essas "constantes" em mãos, o carro pode se preocupar mais em analisar as "variáveis", reduzindo sua necessidade de sensores/câmeras e processamento, o que barateia a implantação dos sistemas nos veículos.

Por outro lado, vamos depender da instalação dos tais sinalizadores em todas as vias por onde os carros pretendam passar sem exigir um motorista, o que apresenta razoável custo inicial e de manutenção, num dilema de Tostines para o governo: sem esse equipamento as pessoas não compram carros autônomos, mas devo gastar tanto em algo assim se quase ninguém tem esses carros?

Não vamos contar com isso.

Mais do que se virar nas ruas

Para seguir sozinho, um carro precisa mais do que entender e reagir ao que acontece a sua volta, ele precisa definir o itinerário e talvez essa seja até a parte mais fácil atualmente. GPS e cartografia estão presentes na nossa vida, de tal forma que eu nem decoro mais os caminhos (o que é uma droga às vezes, mas guardo espaço no cérebro para outras coisas), então com sua geolocalização somada ao mapeamento das ruas e estradas é possível calcular a rota mais rápida, mais curta ou mais barata e partir por ela.

Tem seu porém: o tráfego.

Muita gente na mesma rua faz tudo parar, um acidente, uma manifestação na Av. Paulista, é preciso ter informações em tempo real para não ser jogado para um caminho lento ou impossível, e nesse ponto entra o crowdsourcing.

Deixe que conversem entre eles

Link YouTube | Vocês já conhecem o Waze

Existem duas formas de receber essas informações, das pessoas ou dos próprios carros. Hoje o Waze (recentemente comprado pelo mesmo Google dos carros autônomos, repare na coincidência), é o aplicativo de celular para navegação curva-a-curva com o melhor sistema de compartilhamento de informações entre motoristas.

Durante o percurso, com dois cliques na tela, é possível marcar alguma interferência na via ou até uma blitz policial (o que tem uma legalidade discutível) e assim ajudar os demais "wazers" a evitarem a surpresa. O próprio cálculo de rota leva em consideração essas informações e opta por caminhos alternativos.

Some a isso a possibilidade do próprio carro transmitir informações à central em tempo real, principalmente sobre sua velocidade instantânea e média. A CET morrerá de inveja (e perderá boa parte de sua utilidade) quando os carros souberem a velocidade do trânsito em cada via e assim puderem evitar as mais carregadas. Aquele caminho que parece ótimo, cheio de avenidas rápidas, está todo parado, então veículo, faça essa outra rota e ganhe bons minutos.

Para registro, existe a comunicação direta entre os carros, o que é mais útil para evitar colisões do que para o gerenciamento de tráfego, tecnologia esta que já existe.

Até que todos entrem no sistema

Esqueça o trânsito. Com todos os carros dirigindo de forma autônoma e conversando com uma central em tempo real para identificar o tráfego das ruas (mesmo com sistemas concorrentes, uma plataforma de interoperabilidade pode existir para que todos se comuniquem), ninguém será jogado para uma via que já tem uma quantidade razoável de carros e o congestionamento simplesmente não se formará.

As ruas não vão parar se uma inteligência melhor do que a nossa de achar que ir pela avenida principal é sempre a melhor saída estiver controlando os veículos - os carros se espalham mais, e o tráfego flui.

Esqueça os acidentes. Se os carros se comunicam com uma central, dirigem automaticamente enxergando tudo ao seu redor e reagem quando necessário, todos os acidentes causados por falha humana deixam de existir.

As falhas mecânicas ainda vão gerar suas vítimas, somadas agora as possíveis falhas no sistema de direção autônoma, mas com o desenvolvimento e redundância necessários, não é difícil imaginar quão ínfimos serão perto do que temos hoje.

Pra não dizer que não há desvantagens

Não, não são robôs caóticos pulando em seu carro
Não, não são robôs caóticos pulando em seu carro

Se já há quem se descabele ao saber que o governo tem radares que identificam as placas dos carros para multá-los por furarem o rodízio ou não estarem com a documentação em dia, afinal, eles vão saber onde você esteve e em que exato momento, não é de se estranhar que alguns fiquem de cabelo em pé com relação à privacidade.

É o preço que estamos nos acostumando a pagar pelos avanços tecnológicos e que, para ser amenizado, é balanceado com termos de privacidade, criptografia, anonimato de dados e outras técnicas que tornam esses receios menos relevantes. Sim, se todas as proteções forem quebradas, talvez seja possível identificar exatamente onde seu veículo está, esteve ou para onde está indo, mas não entre em pânico, as empresas responsáveis sabem bem da importância desse sigilo e farão de tudo para protegê-lo (mesmo que o PRISM possa indicar o contrário)

Já as vantagens, são muitas

Carros parados no congestionamento por vários e vários minutos poluem mais do que um que opte pela rota alternativa, um tanto mais longa, mas mais rápida. E nem é preciso dizer como se torna melhor a qualidade de vida de quem consegue fazer seu trajeto 15 minutos mais rápido. E não é só por 20 centavos, digo, por 15 minutos -- ou provavelmente 30, porque é ida e volta --, o que já seria bem digno já que são 5,5 dias a mais de vida ao ano, mas pela redução no estresse causado pelo período travado nas ruas, que por si só aumenta a produtividade no trabalho e nas tarefas caseiras, melhora o ânimo, incentiva mais deslocamentos para lazer que são evitados pelo desânimo de sair as ruas, e por aí vai.

E se os carros tem uma probabilidade de acidentes tão menor, por que carros tão grandes (já que segurança é uma das justificativas mais recorrentes para se ter um veículo enorme)?

Podemos finalmente partir para os diminutos e simpáticos veículos de um ou dois passageiros, relegando os maiores (e igualmente autônomos), no máximo, para viagens em família. Veja, nem é preciso um dos pais ao volante para levar o filho para a escola, por exemplo. coloque o garoto no carro, defina o destino e tchau filho, boa aula!

Sem uma senha/identificação biométrica o carro não vai mudar de rota e depois de entregar o rebento aos professores, volta sozinho para casa.

Quer mais? Você pode ler seus e-mails no caminho, se maquiar, voltar bêbado da balada. É como um táxi sem motorista. Aliás, por falar neles, para que ter carro em casa mesmo? Circulando sozinho e de forma tão ajustada e previsível, posso simplesmente chamar um "táxi" -- veículo monoposto, amarelo por favor, sem ninguém dentro -- que chegará em pouquíssimos minutos e me levará ao destino.

Rápido, barato, seguro, e de preferência, elétrico.

Automaticamente, ao identificar a carga baixa das baterias, ele se dirige para o posto de abastecimento mais próximo.

Mas eu quero meter o pé no acelerador

Link YouTube | Mas dá pra pisar fundo e do jeito que você quiser! Mas com lugar certo para isso

Vá pra pista amigo! As gerações que nascerem com um sistema automatizado já bem estabelecido talvez nem sintam essa vontade, mas para nós, que estamos acostumados aos roncos de motores respondendo a um pé no fundo do acelerador, restarão as pistas de corrida para sentir as centenas de cavalos e driftar nas curvas.

Não é tão ruim, nem tão estranho. Precisamos ir para ambientes controlados se quisermos fazer qualquer atividade perigosa (como treinar tiro), mas achamos normal dirigir como loucos pelas ruas? Pessoas ao volante são uma ameaça a sociedade, aceite isso.

Carros autônomos, ruas com sinalizações eletrônicas, itinerário automático, um ou dois lugares, táxis sem motorista, comunicação entre os veículos. O que você pensa sobre esse futuro cada vez mais provável?


publicado em 13 de Julho de 2013, 21:00
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Juan Lourenço

Criador do eco4planet para ajudar o planeta e do 2Centavos para descarregar a vontade de escrever sobre coisas, lugares e pessoas. É administrador, desenvolvedor, cinéfilo, gamer e boa companhia. Diz ele.


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