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Pessoas da FLIP

A FLIP reúne autores, editores e agentes literários de todo o mundo em uma cidade cosmopolita, linda e de poucos quarteirões. Todo mundo se esbarra na FLIP. A FLIP é para se esbarrar.

cigarrinho ao sol.

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A FLIP é para esbarrar no cartunista Arnaldo Branco, entrando no centro histórico, com sua cara de malandro carioca, vestindo a camisa do Flamengo. Que, aliás, ele já iria tirar: sua esposa, Liv Brandão, não deixa ele andar assim quando ela está por perto.

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Na FLIP, tiram-se fotos acanhadas.

timidez.

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Estar na FLIP é voltar para sua pousada, tarde da noite de sexta feira, pensando em ter que escrever esse artigo para o dia seguinte, e esbarrar em centenas de pessoas em volta de quatro fogueiras à beira-mar, e, no meio do fogo, distinguir um homem grande e negro, de modernoso óculos de aro branco, fazendo gestos teatrais e declamando poesias, e pressentir que se trata do agitador cultural de Niterói João do Corujão, em pleno Sarau da Academia da Amendoeira, realizado na casa do Príncipe Dom João há oito FLIPs.

Seu novo projeto: montar uma biblioteca no Haiti, batizada em nome de um coronel brasileiro que morreu no país e adorava leitura.

João do Corujão, no Sarau da Academia da Amendoeira. Foto de Julia Michaels.
João do Corujão, no Sarau da Academia da Amendoeira. Foto de Julia Michaels.

Alex Castro e João do Corujão. Ao lado, Antonio Campos, da Fliporto. Foto de Julia Michaels.
Alex Castro e João do Corujão. Ao lado, Antonio Campos, da Fliporto. Foto de Julia Michaels.

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Na FLIP, você vê Luis Fernando Veríssimo, andando encurvado pelas ruas de Paraty, sozinho, sem ninguém acompanhando, sem ninguém enchendo o saco. Respeitado em sua timidez.

Veríssimo andando sozinho pelas ruas de Paraty. Foto de Karen Bassetti.
Veríssimo andando sozinho pelas ruas de Paraty. Foto de Karen Bassetti.

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A graça da FLIP é esbarrar na cartunista Laerte e sua esposa na casa da Companhia das Letras.

Tínhamos jantar combinado com ela, mas acabamos tendo que desmarcar o compromisso.

Biajoni deu seu número de celular para Laerte e pediu, "e o seu?", mas Laerte não tem celular.

Ela usava maquiagem discreta, um vestidinho leve e um xale vermelho sobre os ombros. Mas, depois que saiu, as mulheres do nosso grupo só falaram de seus sapatos:

Nós aqui de sapatilha baixa pra encarar os pés-de-moleque de Paraty, e Laerte de sandalinha de salto alto! Isso é que é ser macho!

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Enquanto isso, em outra mesa da casa da Companhia das Letras, Angeli dava uma entrevista para dois jovens de olhos arregalados. De relance, ouvi:

Pode repetir a pergunta? Minha memória de curto prazo já não é mais o que era.

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A FLIP é para o repentista ficar amigo do hare krishna.

o repentista e o hare krishna.

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Você sabe que está na FLIP quando sua companheira de viagem, Julia Michaels, ex-editora na Objetiva e autora do blog RioReal, conhece o escritor Luiz Biajoni, meu irmão já entrevistado aqui no PapodeHomem e autor do romance "Elvis & Madona", e imediatamente faz questão de corrigir seu nome:

Biajoni? Essa não pode ser a ortografia original. Em italiano não tem J.

E Biajoni abaixou a cabeça e admitiu ser, na verdade, um falso Biaggione.

Julia Michaels, grande amiga e companheira de FLIP.
Julia Michaels, grande amiga e companheira de FLIP.

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A FLIP é pra tocar raul.

toca raul.

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Você sabe que está na FLIP quando tem uma conversa empolgada, em uma praia de Paraty, com Flora Thomson-Deveaux, a norte-americana de vinte anos que sacudiu o Rio de Janeiro ao dizer, basicamente, que a PUC era uma boate.

Flora fechou o blog Questões Estrangeiras, que mantinha no site da Piauí, e agora está enfurnada no Instituto Moreira Salles, lendo as vinte mil páginas da História da Nobreza Humana, escritas à mão, ao longo de quarenta anos, em cinco línguas, por Santiago, mordomo da família Moreira Salles.

Perguntei, por que essa pesquisa?

E ela:

Pelo prazer de saber que estou lendo pela primeira vez algo que ninguém nunca leu.
Flora e Alex, em debate. Foto de Julia Michaels.

Flora e Alex, em debate. Foto de Julia Michaels.
Flora e Alex, em debate. Fotos de Julia Michaels.

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Durante a FLIP, foi lançada a edição especial da Granta, "Os melhores jovens autores brasileiros", editada pela Objetiva. Os nomes dos vinte escolhidos foram mantidos em segredo durante vários meses e, para a surpresa de todos, não vazaram.

Autores consagrados, como o João Paulo Cuenca, que conheci na redação da falecida Tribuna da Imprensa, escrevendo crônicas pro TribunaBis, e nomes desconhecidos, como o Vinícius Jatobá, companheiro de júri na Copa de Literatura Brasileira.

Confesso: mandei meus trabalhos para a Granta e não fui escolhido. Com toda a sinceridade, dei um abraço no Cuenca e disse: "meus parabéns e minha inveja".

Um dos jurados reconheceu meu nome, se lembrou do meu conto e teve a gentileza de dizer que eu estava em sua seleção pessoal dos vinte melhores e que fiquei entre os finalistas, sendo eliminado somente na reta final.

Agradeci e virei minha taça de vinho.

a flip é pra contar história no umbral da porta.

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Minha companheira de viagem, Julia Michaels, é uma pessoa generosa. Não porque me trouxe à FLIP e me hospedou em Paraty, ou porque conhece todo mundo e me apresenta a eles com elogios imerecidos, ou mesmo porque entrou comigo na festa de lançamento da Granta.

Mas porque, em uma festa exclusiva com grandes nomes do mercado editorial brasileiro, muitos dos quais seus amigos e colegas, ela buscou os solitários, os tímidos e os perdidos, e fez com que se sentissem acompanhados, queridos e acolhidos.

Não conversou com o premiado Suketu Mehta, autor de "Bombaim: Cidade Máxima", mas sim com seu cunhado, um endocrinologista indiano, escondido em um canto escuro, e louco de vontade de contar suas impressões da mata atlântica.

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Na festa da Granta, reencontrei José Luiz Passos.

Quando apareci na Califórnia, fugindo do furacão Katrina, e ele era professor de literatura brasileira da Universidade de Berkeley, José Luiz foi o primeiro a me receber.

Hoje, tantos anos depois, já estou de volta ao Brasil e José Luiz se transferiu pra a UCLA. Publicou um romance pela Alfaguara e, em novembro, publica mais um.

Perguntei: Zé, se inscreveu nos jovens autores da Granta?

E ele:

"Alex, fui eliminado por idade... por dez dias!"

o poeta luis maffei falando na off flip.
o poeta luis maffei falando na off flip.

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Vim à Paraty por ter sido convidado para falar na OFF FLIP, graças ao trabalho da minha editora Raquel Menezes, da Oficina Raquel.

Em um dado momento, falando sobre teorias da literatura, todos estavam tão inteligentes e acadêmicos que tive que interromper.

Pra fazer literatura, eu disse, não era preciso necessariamente ser inteligente, articulado, embasado. Na literatura, a gente tenta criar sensações no outro: fazer rir, chorar, sentir medo. É como o sexo, onde você estimula o corpo do parceiro, buscando aqui uma cócega, ali uma mordida, quem sabe uma arranhada, talvez uma lambida. É uma atividade quase física que não requer nenhuma inteligência, apenas sensibilidade.

E completei:

A literatura é uma carícia no clitóris.

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Por fim, a FLIP é onde se escreve esse artigo. Primeiro, a mão.

a mão. foto de julia michaels.

Depois, no computador.

no computador. foto de julia michaels.


publicado em 07 de Julho de 2012, 11:00
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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