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Como fiz as pazes com Neil Gaiman

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Lembro até hoje de como descobri Sandman. Eu tinha 17 anos e havia acabado de entrar na faculdade. Fui até a casa do Devanir que tem uma bela coleção de quadrinhos e ele me emprestou alguns encadernados. No meio estavam edições de Monstro do Pântano, do Alan Moore, Demolidor, do Frank Miller, e Sandman, do Neil Gaiman.

Apesar de ser bem mais fã do Moore, minha história com a obra do Gaiman é um pouco mais trágica e, por tanto, mais interessante.

Fiquei absolutamente hipnotizado pelas primeiras histórias de Sandman, pois era uma estranha mistura de terror, literatura clássica, mitologia e toques de contos de fada. Devorei tudo o que ele tinha – terminava na saga Estação das Brumas (minha favorita) – e comecei a procurar alucinadamente pelas edições posteriores.

Foi quando descobri que a maioria dos números da Editora Globo eram bem raros. Felizmente, a Editora Brainstorme estava relançando a série e aproveitei pra colecionar desde o começo. Até que a editora faliu e a série foi cancelada. Estava a deriva novamente!

Por sorte, encontrei uma coleção completinha que um ex-colecionador estava vendendo e aproveitei a chance. No entanto, como eu era um mero professorzinho de História (e ganhava mal pacas) tive que comprar tudo em conjunto com a minha namorada. Em poucas semanas, lemos todas as edições e ficamos absolutamente impressionados com a qualidade daquelas narrativas.

Uns dois anos depois, nosso namoro tinha terminado e para não ter que dividir todas as minhas coleções de quadrinhos falei pra ela escolher duas séries pra ela. Não é que a lazarenta ficou justamente com Sandman e X-Men (sim, eu tinha da GEP até a Panini, completinho)? Para me livrar de todo aquele relacionamento caótico concordei sem pensar.

Sandman
X-Men

Só depois fui perceber a cagada, mas já era tarde demais. Por sorte, a Conrad anunciou que lançaria edições encadernadas com acabamento de luxo da saga do Mestre dos Sonhos. Era minha chance de recuperar minha dignidade. Comecei a comprar de novo, mas desisti completamente de depois que o Grant Morrison abandonou a série.

Não demorou muito e lá estava eu com uma namorada nova. Naquela época, eu era ainda mais jovem e tolo do que hoje. Acreditava que eu deveria me envolver apenas com pessoas que tivessem gostos e interesses que os meus. Em pouco tempo, essa garota se tornou tão fã do Neil Gaiman quanto eu e estava comprando alguns dos volumes que faltavam. Parece que eu não havia aprendido a lição.

Como tudo nessa vida, esse relacionamento também foi pro buraco. O problema é que eu estava praticamente morando na casa dela e a maioria dos meus livros, quadrinhos e filmes estava lá. Apesar de ter buscado as minhas coisas rapidamente, demorei muito para conferir as caixas que ela havia separado. Mas como ela sabia do meu trauma com edições do Sandman perdidas, achei que por orgulho ela devolveria tudo pra provar que era melhor do que a outra.

Sandman

Eu não poderia estar mais enganado. Quando finalmente abri as caixas, percebi que estava tudo em perfeito estado e ela tinha mandado até algumas que eram dela. Porém, no meio de todas aquelas caixas pude perceber qual foi a única série de quadrinhos que ela decidiu manter. Claro que era . Ela havia superado o próprio orgulho só para punir o meu.

Não sei como o Neil Gaiman faz isso, mas ele costuma encantar as mulheres como um Incubus da literatura. Todas que lêem suas histórias ficam encantadas como serpentes e não são capazes de abrir mão de nenhuma de suas edições. Isso me deixou com um pouco traumatiza e com raiva do autor. Algo me dava asco na forma dele escrever daquele momento em diante. Sem falar que ele produziu uma sequência de trabalhos ruins, como Eternos, 1502 e Neverwhere.

Tudo mudou no ano passado, quando tive o prazer de ler o álbum escrito por Gaiman e com desenhos do genial Dave McKean (). Parece que depois de me casar e me estabilizar como um profissional dos quadrinhos aquela mágoa havia passado. Eu perdoei o cara!

Para comemorar essa reconciliação, decidi fazer uma semana especial no meu blog. Escrevi uma série de textos sobre os melhores trabalhos do autor lançados no Brasil recentemente e fiz uma promoção com seus melhores livros e HQs (se quiser, ainda dá tempo para os leitores PdH participarem).

Quer tudo isso? Clique na imagem para participar.

Foi incrível descobrir boas obras que ainda não havia lido, como Belas Maldições, escrita em conjunto com Terry Pratchett (autor da série Discworld). Outra que me deixou de queixo caído foi a emocionante história do apocalipse de um homem só da graphic novel Sinal e Ruído. Foi o suficiente para me convencer de que o cara realmente era bom.

Eu havia sido convertido novamente!

Hoje aprendi a lição! Comprei as edições de luxo importadas de Sandman para minha coleção e tenho Sandman – Edição Absoluta (Panini) para emprestar para amigos, parentes e minha mulher. Não sinto falta e nem raiva de nenhuma daquelas garotas, pois foram importantes para que eu me tornasse uma pessoa melhor.

Também não me arrependo de ter deixado aquelas maravilhosas histórias para trás. Se pensar bem, posso ter sido um péssimo namorado em todos os aspectos, mas nenhuma delas pode reclamar que não fui capaz de mostrar pelo menos uma coisa em que se apegaram por toda a vida.


publicado em 07 de Maio de 2011, 06:20
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Raphael Fernandes

Formado em história na USP, decidiu jogar seu diploma fora trabalhando como editor da revista MAD. Atualmente, também é analista de mídias sociais, roteirista e redator. Perde mais tempo lendo e escrevendo do que contando dinheiro. Twitter: @raphafernandes. Blog: www.contraversao.com.


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