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Por que você é amigo dos seus amigos?

1. O mundo ainda é um recreio

Lembra do primeiro dia na escola? Se recorda de quando seus pais se mudaram e havia toda uma nova vizinhança para desbravar? E na faculdade ou no primeiro emprego, como foi?

Tudo era estranhamento e admiração, o ambiente cheirava a desafio e a descoberta, a desconforto e entusiasmo. E a primeira coisa que fazíamos, então, era tentar criar novos laços de amizade.

Desde que passei a escrever no PapodeHomem, gente nova começou a me adicionar no Facebook e no Twitter. Rolaram e ainda rolam ótimos papos na internet. Mas três dessas amizades virtuais resultaram em encontros reais -- duas para beber umas cervas aqui em Porto Alegre, e outra para injetar cafeína na veia, em uma viajem profissional a Curitiba.

A sensação é de estar em um grande recreio, em que todos os alunos ficam entusiasmados para se conhecer mutuamente e trocar ideias. Foi o que me fez pensar na razão que nos leva a criar laços de amizades com algumas pessoas, em meio à multidão.

O que faz você ser amigo dos seus amigos?

Podemos encontrar a resposta ao nos lembrar das situações em que estávamos mais abertos a amizades. Quando tudo é novo, seja na escola, no trabalho ou na vizinhança, a primeira coisa que fazemos instintivamente é criar uma nova rede de amigos.

Stand by Me (1986) – amigos diante do mundo inexplorado
Stand by Me (1986) – amigos diante do mundo inexplorado

Nesses casos, as amizades servem como coordenadas, referências para mapearmos uma terra inexplorada, seja ela a sala de aula, o novo bairro ou o primeiro emprego. Quando somos adultos, a terra a ser mapeada e explorada com o apoio dos amigos é o mundo inteiro.

Junto deles, aprendemos a cartografia da própria vida e de suas possibilidades.

Os amigos são nossos intermediários diante do desconhecido. E o mundo, em sua enormidade, nunca deixa de ser um pouco desconhecido para todos nós. Quando nos aventuramos, quando viajamos, as novas amizades são os primeiros alicerces que buscamos para tentar compreender o inusitado.

E tal ocorre porque os amigos nos emprestam seu olhar para que possamos ver, através deles, tudo aquilo que não conhecemos. Um olhar que nos é familiar, pois se assemelha ao nosso, e que consegue nos apresentar o novo ambiente de um modo que podemos entender e apreciar.

Não deixa de ser um recurso de sobrevivência, e aquele friozinho na barriga em face do que é novidade nos faz abaixar a guarda e ir atrás de novas conexões.

É por isso que, quando não há nenhuma inovação em nossas vidas, quando o cotidiano nos consome em tarefas rotineiras e nada temos a explorar, o nosso círculo de amigos fica restrito àqueles que conhecemos em uma época anterior, em que tudo era entusiasmo e exploração. É por tal razão que, às vezes, nossos amigos de hoje são aqueles que conhecemos na infância, quando tudo era descoberta, ou na faculdade, quando tudo era promissor.

Nossos horizontes, às vezes, vão gradualmente se reduzindo. E, com eles, nossa habilidade de criar novas amizades.

Goonies (1985)
Goonies (1985)

Lembra-se de seus amigos de adolescência, e da energia que unia a todos diante da recíproca descoberta do mundo?

Como era fácil, então, ficar amigo de um amigo em comum, e assim por diante, até criar uma abrangente rede de contatos? Lembra do entusiasmo com que todos compartilhavam com as infinitas possibilidades do futuro?

Eu e meus amigos sonhávamos em mudar o mundo. Sério. Podia ser uma pretensão imatura, juvenil, mas por outro lado, estava conectada àquela fonte de energia ancestral que fez com que nossos antepassados experimentassem novos recursos e novas ideias, colocando a cabeça para fora da caverna.

Essa é a força que forja os laços de amizade: procuramos conexão com quem tem a mesma percepção sobre a vida.

O que nos liga a nossos amigos é a confirmação, em seu olhar, de nossa visão de mundo. Mas não se trata de uma visão intelectual, e sim emocional. É por isso que temos amigos com opiniões divergentes sobre política e religião. Ainda quando racionalmente discordamos, emocionalmente compartilhamos do mesmo sentimento íntimo em relação à vida.

2. A Sociedade Lunar e o Submarino Californiano

Mas quando tudo é inexplorado e pura descoberta para nós e nossos amigos? É aí que descobrimos que a amizade possui uma força em si mesma: ela é capaz de nos sustentar reciprocamente, e de nos fortalecer enquanto desbravadores de um novo mundo.

Foi o que os amigos da Sociedade Lunar descobriram. Hoje em dia, eles nos pareceriam um bando de caretas. Mas, para os padrões da época, eram uma genuína mistura de punks com investigadores de vanguarda.

Em 1760, na Inglaterra, um grupo de amigos jovens e curiosos, a maior parte deles de origem humilde, sem formação acadêmica e moradores da periferia, uniu-se para mudar o mundo.

Entre eles estava Mattheu Boulton, artesão que fazia brinquedos, mas que mais tarde produziu a primeira máquina a vapor; Josiah Wedgwood, modesto oleiro que posteriormente se tornou ferrenho abolicionista; Erasmus Darwin, físico, poeta, inventor e avô de Charles Darwin; e Joseph Priestley, descobridor do elemento oxigênio e ativista político radical, que tentou fundar um novo tipo de cristianismo evolucionista.

Monumento à The Lunar Society. Compare com a imagem dos Goonies acima
Monumento à The Lunar Society. Compare com a imagem dos Goonies acima

Esse grupo de amigos batizou a si mesmo de Sociedade Lunar, por um motivo bem-humorado: seus encontros eram noturnos (já que precisavam trabalhar para viver, diferentemente da aristocracia) e só em dias de lua cheia (pois a luz da lua facilitava o retorno a pé para casa).

Eram amigos que trocavam ideias e planos sobre as possibilidades de mudar a sociedade em todos os seus aspectos. Ao grupo inicial, outras pessoas foram se unindo ao longo dos anos, como o então desconhecido Benjamin Franklin, futuro declarador da independência americana.

Os amigos da Sociedade Lunar influenciaram a Revolução Industrial e o espírito científico que se alastrou pelo ocidente depois deles. Eram homens que levaram adiante aquele mesmo sentimento de assombro e entusiasmo na descoberta do mundo, que todos nós compartilhamos com nossos amigos durante a infância e a adolescência.

Três séculos adiante, em outubro de 2013, a revista New Yorker fez uma matéria sobre um grupo de amigos que, de forma descompromissada e sem cartilha ideológica, formou o The Sub (diminutivo de submarino), turma dedicada a explorar novas tecnologias e manifestações artísticas.

São a mais promissora onda de criadores e empreendedores da ensolarada Califórnia.

A rede numerosa e multifacetada de amigos que compõem o The Sub se reúne em uma oficina de carros desativada em um bairro de periferia em São Francisco, no qual rolam festas, exposições de novos artistas plásticos e apresentação de bandas iniciantes.

Entre os participantes do The Sub está Johnny Hwin, que já ganhou uma grana preta com os primeiros aplicativos Quizzes do Facebook e com o serviço de divulgação musical Damntheradio.

Celebração do The Sub
Celebração do The Sub

3. O pequeno grande mundo dos amigos

Seja no século dezoito ou no século vinte e um, quando amigos turbinam aquela energia que nos faz procurar, em meio a multidão, a amizade de quem compartilha conosco de uma mesma visão de mundo, os resultados são surpreendentes. Não é apenas o desenvolvimento de uma capacidade coletiva de olhar o mundo como um local de contínuas descobertas e desafios. É também o poder de transformar esse mesmo mundo, de acordo com aquela visão.

Isso pode ser revolucionário. Pequenas mas decisivas transformações na sociedade podem começar a partir de laços de amizade.

Nosso já conhecido Stanley Milgram, aquele que revelou um lado sombrio da natureza humana, fez outro experimento, dessa vez sobre relações interpessoais.

Ele enviou cartas aleatórias a pessoas do centro-oeste americano, solicitando-lhes que as reenviassem a certos moradores do leste dos EUA, caso os conhecessem pessoalmente, ou a conhecidos que, por sua vez, tivessem contato pessoal com aqueles moradores. Antes de repassar as cartas, deveriam anotar seus nomes em um cartão que acompanhava o envelope.

O experimento foi a primeira comprovação da Teoria do Mundo Pequeno, segundo a qual entre você e qualquer outra pessoa do mundo há uma cadeia de cinco ou, no máximo seis conhecidos.

No máximo 6 elos ligam você ao resto do mundo
No máximo 6 elos ligam você ao resto do mundo

Trata-se de uma ampla rede de conexões que envolve o mundo inteiro e que começou a ser prevista por visionários como o húngaro Fringyes Karinthy no século dezenove, como resultado da evolução dos meios de comunicação e transportes.

Para Fringyes, no célebre texto em que antecipava muitas das conquistas modernas, essa conexão entre todos poderia nos conduzir a um período de progresso e paz sem precedentes.

Ainda que nem todos os elos dessa cadeia de cinco ou seis conhecidos consistam em amizades, sempre há, entre tais conexões, laços que são baseados no compartilhamento de uma mesma visão de mundo. São amizades em potencial, relações que, se fortalecidas, podem varrer o globo terrestre com grande rapidez e energia, potencializando a capacidade de transformação coletiva.

A restauração daquele vigoroso entusiasmo adolescente, capaz de materializar uma rede de amigos a partir da mesma vontade exploratória, pode um dia fazer o que nenhuma revolução barulhenta e armada foi capaz de realizar, sem traumas, até hoje: tornar o mundo um lugar melhor para todos nós.

Mecenas: Nivea Men

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Todos os dias, ao acordarem, homens fazem o que precisa ser feito. A insatisfação existe, é verdade, mas  aprendemos, trabalhamos, caímos e nos levantamos. Suamos a camisa, em contínuo aperfeiçoamento.

Neste canal especial do PapodeHomem, teremos diálogos e debates sobre diversas questões do homem. A conversa também acontece no Facebook oficial de Nivea Men, eles tem dito coisas bem interessantes por lá.


publicado em 26 de Fevereiro de 2014, 07:16
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Victor Lisboa

Não escrevo por achar que tenho talento, sequer para dizer algo importante, e sim por autocomplacência e descaramento: de todos os vícios e extravagâncias tolerados socialmente, escrever é o mais inofensivo. Logo, deixe-me abusar, aqui e como editor no site Ano Zero.


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