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Por um triz

Uma breve contemplação para você se aproximar do sofrimento e cair na real

Recentemente soube de uma história que ocorreu com um amigo de um amigo. A esposa de um cara soube que ele tinha uma amante. Ela pegou o filho que eles tinham juntos, entrou no carro, foi para a estrada e começou a dirigir na contramão, tentando bater nos carros que vinham em sentido contrário. Os carros conseguiram desviar até que o carro dela (com o filho) capotou. Imaginem quanto sofrimento no coração dela e do filho? Quanto sofrimento a mais poderia ter sido gerado se tivessem colidido com outro carro?

Há algumas semanas um amigo contou que sua esposa de 42 anos, pela qual era apaixonado e com quem tinha um filho, descobriu um câncer fulminante, e faleceu 3 meses depois. Ignoramos que esse tipo de coisa pode acontecer conosco ou com pessoas bem próximas também.

Na maior parte do nosso tempo tentamos reunir meios que possibilitem o nosso bem-estar — emocional, financeiro, estrutural, familiar. Com muitos tropeços aqui e ali, vamos caminhando nesse processo de tentar tornar nossas vidas cada vez mais agradáveis. Se você está lendo esse texto, provavelmente não precisa lutar pela sobrevivência, pois tem a sorte de ter as questões fundamentais como abrigo e alimentação minimamente garantidas. Ainda assim, é bastante provável que sua vida gire em torno de aumentar ainda mais seu bem-estar. Esse é o nosso foco: buscar o que é favorável e fugir do que é desfavorável.

De repente, um amigo se suicida, um irmão descobre um tumor no cérebro, um colega de trabalho é atropelado, uma prima é espancada pelo marido. Quando tudo parece estar indo bem, algo sai drasticamente dos trilhos. Se é conosco, achamos que falhamos na nossa tentativa de manter tudo da forma mais favorável possível. Achamos que poderíamos, se tivéssemos sido mais espertos e hábeis, ter driblado a inexorabilidade da impermanência. Somos pegos de surpresa pelo sofrimento, pois nunca nos demos conta que ele sempre esteve ali, à espreita, para se manifestar a qualquer momento. Descobrimos que não estamos no controle das situações.

O fato é que precisamos cair na real e viver com a noção do sofrimento viva, como pano de fundo de nossos olhos. Precisamos nos dar conta que nosso bem-estar é frágil: não sabemos quando as coisas vão girar e quando entraremos num ciclo emocional ou físico bem difícil. Isso tem acontecido de tempos em tempos com todos ao nosso redor, nós não ficaremos de fora.

Estamos tão focados em aumentar nosso bem-estar, que não nos damos conta que a vida está e sempre esteve permeada por muita dificuldade, as coisas estão sempre saindo dos trilhos na vida de alguém e a nossa vida será inevitavelmente a próxima a descarrilhar, em algum momento. Depois as coisas se endireitam por um tempo, mas depois entortam de novo. Até o descarrilamento final da morte, que, nunca é demais lembrar dado o quanto ignoramos esse fato, ocorrerá inevitavelmente com cada um de nós. 

Não percebemos que a nossa sanidade e integridade física estão por um triz, pois há uma grande fragilidade e um enorme potencial para o sofrimento pelo simples fato de termos uma mente e um corpo.

Se afrouxarmos um pouco o foco na busca unicamente da nossa felicidade pessoal e olharmos ao redor para ver o que está acontecendo com as pessoas, vamos descobrir coisas interessantes sobre o mundo e sobre nós mesmos. Vamos descobrir, por exemplo, que todos estão, como nós, buscando mais bem-estar e, nessa busca, acabam se atrapalhando e cedendo a impulsos ou se distraindo, o que resulta em ações aleatórias, como acidentes de carro, ou em ações equivocadas, que deliberadamente geram sofrimento, como corrupção e outros crimes.

Assassinatos, roubos, corrupção, acidentes de carro, de avião, doenças físicas e mentais, violência. Ao nos depararmos com o sofrimento que está por todos os lados, podemos cair na real e nos dar conta da fragilidade na qual todos nós estamos imersos. Estamos todos a mercê da mente do piloto do nosso avião. Estamos todos dependentes da noite bem dormida do motorista do nosso ônibus. Nossa vida depende da atenção dos motoristas quando atravessamos a rua. Num piscar de olhos, tudo pode girar e muito sofrimento se instaurar, da noite para o dia.

Sofremos ao nos depararmos com a imprevisibilidade e fragilidade da vida, tentamos encontrar culpados ou justificativas para entender o que está acontecendo. Mas, ao olharmos com cuidado, vemos que todos estão passando por isso. Não é nada pessoal do universo conosco.

O objetivo de se aproximar mais do sofrimento ao redor não é gerar pessimismo e uma noção de que o mundo é um lugar horrível, as pessoas são más e por isso "pare o mundo que eu quero descer". O ponto é que, a medida que ignoramos a existência de algo, quando aquilo se apresenta, estranhamos, somos pegos de surpresa e não sabemos o que fazer. Desperdiçamos o potencial pedagógico do sofrimento que permea nossas vidas constantemente.

Olhar o sofrimento pode parecer algo pouco animador de se fazer, mas os efeitos dessa prática são de uma vigorosa força! De fato, pode brotar uma depressãozinha ao percebermos o quanto o sofrimento é generalizado e assola, muitas vezes desnecessariamente, a vida das pessoas, por outro lado, essa tristeza é acompanhada de uma faísca compassiva, de um sentimento que nos apruma e nos fortalece emocionalmente, nos inspirando a fazermos o que estiver ao nosso alcance para mitigar o sofrimento pelo qual as pessoas passam.

Se vivermos com uma consciência mais clara do sofrimento e da impermanência, veremos as coisas de uma forma mais terrena, menos fantasiosa e infantil. Ao vivermos mais conscientes das mazelas do mundo, uma série de efeitos colaterais emergem naturalmente dessa visão: passamos a cuidar mais das nossas ações para não gerar impacto negativo sobre as pessoas, realinhamos nossas prioridades para não perder tempo e aproveitar que não estamos sofrendo tanto agora, cuidamos melhor das pessoas e das relações, pois sabemos que elas são frágeis e passageiras.

Quando paramos de ignorar o sofrimento que nos cerca e nos espera, ganhamos um eixo, reorganizamos as prioridades da vida, não admitimos mais perder tempo com coisas menores. Nos tornamos sensíveis e empáticos com relação ao sofrimento dos outros. 

Como vemos claramente que o sofrimento que o outro está passando poderia estar ocorrendo conosco, brota compaixão em nós: surge uma aspiração genuína de que as pessoas ultrapassem seus impulsos e distrações e gerem menos sofrimento umas às outras.

Ao observar episódios breves de sofrimento com os quais nos deparamos no dia a dia na rua, no supermercado, nos jornais, na família, no bar, veremos que o sofrimento está muito mais presente do que imáginávamos e, ao invés de ignorarmos, vamos olhar bem dentro do olho do furacão do sofrimento, vamos perceber que aquilo poderia ter acontecido conosco ou com pessoas próximas.

Vamos respirar fundo e reconhecer que a negatividade do outro, na verdade, é um pedido de socorro: ele quer ser feliz e não sabe como. 

Não responderemos internamente com mais negatividade, por reconhecemos que agir negativamente ou aleatoriamente, causando sofrimento aos outros, é a mesma coisa que estar em sofrimento, não tem diferença. 

Vamos fortalecer conscientemente nossa aspiração de fazer o nosso melhor para não trazer mais perturbação para o mundo e aumentar nosso impacto positivo.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

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publicado em 22 de Junho de 2015, 11:16
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Stela Santin

Stela Santin é uma catarinense sagitariana que adora chimarrão. Acha a vida extremamente intrigante e desafiadora. De resto, nem vai dizer do que gosta ou o que é, porque amanhã já mudou tudo. Pouco confiável.


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