Por que se expor a visões com as quais não concorda pode ser uma boa ideia

Os algoritmos estão nos afundando cada vez mais no conforto das nossas visões de mundo. Hora de fugir dessa armadilha.

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Uma importante marca foi alcançada em novembro 2014, sendo celebrada com bastante otimismo mundo a fora. Após bater o pico de 1 bilhão de usuários em 2005 e 2 bilhões em 2010, a internet finalmente alcançava três bilhões de pessoas no mundo.

Esse é um número que muda bastante a visão que temos da sociedade à nossa volta. Atualmente todos concordamos que, se uma empresa não possui site na internet, é como se não existisse para o público. O mercado de sites foi impulsionado exatamente por essa emergente percepção: já que tudo acontece online, nada mais óbvio que estar presente nesse novo ambiente. No mesmo passo, acompanhamos lojas físicas sendo fechadas e transferidas para o universo digital, seja devido ao maior alcance de clientes, suposta redução nos custos administrativos ou outras facilidades, factuais ou não.

Além dessa migração entre os domínios, do físico para online, vemos também que grande parte dos modelos de negócio já se iniciam com este foco. Operações importantes para milhares – se não milhões – de pessoas já são desenvolvidas inteiramente como “empresas digitais”. Grandes nomes como Submarino, Netshoes ou até mesmo a gigante Amazon, nunca possuíram lojas convencionais, mas são responsáveis pelo desaparecimento de lojas pequenas e até grandes redes.

Nesse cenário, é compreensível pensar cada vez mais em iniciar negócios inteiramente online, reduzindo o custo inicial e alavancando a capacidade de alcançar pessoas. Em 2 anos imerso em estudos e debates sobre empreendedorismo, nunca ninguém se aproximou de mim para sugerir uma ideia de negócio fora da internet. Sempre que apresentei algo ou observei uma ideia sendo demonstrada, a primeira pergunta que surgia era “posso dar uma olhada no site?”, assumindo a identidade online como um critério obrigatório para qualquer negócio.

Para enxergar a problemática existente nesse contexto, precisamos abordar as informações por um outro lado.

* * *

Em 31 de outubro de 2011, assustadores 7 bilhões de pessoas já andavam pelo nosso planeta, número que não parou de crescer desde então. Com todos os serviços e lojas buscando atender quem está vivendo suas vidas online, quem está tentando alcançar os 4 bilhões de pessoas que não estão na internet?

O problema pode parecer distante, já que tendemos a pensar que essas pessoas estão em regiões extremas do mundo, países selvagens do continente africano ou milhões pobres esquecidos na China. Só que não precisamos ir tão longe assim, basta olhar para nossos próprios números.

O Brasil possui aproximadamente 203 milhões de habitantes, dos quais estima-se que metade deles possuem acesso à internet, ou seja, temos mais de 100 milhões de pessoas sem nenhum acesso.

Para nós, conectados, é muito difícil até mesmo pensar que existe um universo totalmente excluído das tendências e costumes que nos sufoca diariamente. Nossa percepção toma como absoluta aquilo que temos contato frequente, considerando o restante como um mero desvio. 

Nossa infinita timeline, seja qual for a rede social escolhida, representa um gargalo de informação, um espelho distorcido que reflete apenas a realidade que gostamos ver.

A vida além do nosso reflexo

Quando clicamos no mágico botão like em algum conteúdo, estamos apontando nossa predileção, sinalizando que queremos mais informações similares. O sistema identifica um padrão na classificação do que foi “curtido”, atuando como diretriz para novos materiais. À medida que o tempo passa, mais homogêneo se torna o conteúdo apresentado e mais raros são os acidentes com informações conflitantes.

Com essa organização das coisas, Eduardinho acaba acreditando que todo mundo odeia o governo, enquanto Luizinho acha inaceitável que alguém não consiga ver todas as melhorias do último mandato. Como ambos não curtem conteúdos que representam o oposto de suas visões, cada vez menos esse tipo de post surge. No fim, quem apenas curte páginas pró-governo receberá sempre a visão de que tudo vai bem, assim como os que apenas lêem a revista que distorce informações contra o governo terão a visão de que as coisas estão piores do que estão.

Por isso, quando o cantor sertanejo morre, o jornalista se acha no direito de questionar sua popularidade, enquanto os fãs se irritam por achar que se trata de um descaso proposital. O jornalista pode realmente não ter visto nada sobre o cantor na vida, enquanto os fãs eram bombardeados por informações sobre ele diariamente.

Cada um vendo apenas o que quer ver

Agora que já conseguimos observar o problema e entendemos um pouco sobre como somos afetados, podemos entender algumas armadilhas que nos apontam diretamente para o erro.

Estar errado não nos traz uma boa sensação. É ruim, dá aquele embrulho no estômago, gosto ruim na boca e vontade de enfiar a cabeça na terra. Todos temos ego e sabemos que errar depois de fazer um enorme barulho proporciona um indescritível sentimento de vergonha. Mas sabemos que, quando colocamos nosso ego como peça responsável pela tomada de decisões, o caminho que a coisa tende a seguir não é dos melhores.

Luizinho está numa discussão no Facebook. Num post onde compartilhou uma notícia positiva em relação ao partido vermelho, algumas pessoas apresentaram notícias dizendo que ele está errado. Nosso personagem, ao invés de ler a sugestão, abre o Google e digita exatamente o que quer confirmar: “Não existe crise, lucros bancos 2015”. Agora ele tem uma coleção de sites que sustentam exatamente o mesmo discurso, bastando selecionar os maiores e colar como resposta. Eduardinho não faz por menos, pega os textos do colunista da revista de oposição e cola todos no debate..

Nenhum dos dois lados quer entender o que está acontecendo, apenas querem ganhar um debate.

Este é o típico jogo que não vale a pena jogar. O que podemos fazer é deixar de assumir lados radicalmente, buscar confirmar algumas fontes e, mesmo quando temos alguma certeza sobre o assunto, tentar apresentar de forma mais relaxada, sem apontar dedos.

Basta ver a diferença entre:

  • “Olhem que absurdo essa notícia!”

  • “Pessoal, me deparei com essa notícia e não sei se é verdade, alguém pode me confirmar?”

No primeiro exemplo só assumimos uma posição, no segundo, mostramos que só queremos entender melhor as coisas. No primeiro estar errado conta negativamente, no segundo não.

Por espelhos mais transparentes

Essa vontade de buscar visões e opiniões que combinem com o argumento que queremos sustentar acontece sem que precisemos nos esforçar muito. É como comprar um carro e depois observar que aquela cor e modelo são muito mais comuns do que lembrávamos. Não é que agora todos resolveram escolher um carro igual ao seu, você apenas repara mais porque tem um.

A tarefa de limpar a percepção exige um esforço que muitas vezes não estamos dispostos a fazer. Buscar visões opostas não é algo simples, exige tempo e leitura. Ao nos deparar com algo que dialoga perfeitamente com nossa expectativa, o mínimo necessário é buscar um conteúdo que confronte diretamente aquele discurso. Não suficiente, é preciso ler o discurso oposto com o entendimento que você já sustenta uma visão, ciente que você pode estar enganado e sendo afetado por uma distorção confirmatória.

É importante nos cercar de pessoas que pensam diferente de nós. Você gosta de Marx e Che, pendura bandeira vermelha no quarto e faz parte do movimento estudantil? Talvez seja interessante não parar de seguir aquele seu amigo de infância que agora passa gel no cabelo, usa terno azul marinho e faz posts sobre meritocracia no Facebook. Mais que isso, talvez seja interessante chamá-lo para tomar uma cerveja e buscar onde as opiniões se encontram, entender o local de fala de cada um e onde cada um está sendo radical, consciente de que, para qualquer um dos dois, mudar de ideia é doloroso e pode levar muito tempo.

Mais do que isso, é essencial lembrar que não é obrigatório mudar de opinião ou adotar o discurso alheio, apenas saber que um outro lado existe e nem sempre este é o lado errado.

Eu, particularmente, me peguei errado diversas vezes, terminando envergonhado por ter assumido uma posição tão forte de forma tão ingênua. É necessário entender que em alguns momentos agimos com emoção, no furor do momento, mas que uma certa auto-vigilância é necessária para evitar equívocos. Hoje busco entender situações e não assumir posições tão apressadamente.

E o você? Como faz para navegar nesse mundo de ruídos? Compartilhe conosco e nos ajude a respirar nesse mundo tão confuso.


publicado em 04 de Agosto de 2015, 00:05
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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