Quando é que nós viramos adultos?

Uma conversa de homem pra homem. Ou devo dizer de menino pra menino?

Vamos começar a conversa de um jeito bem tradicional:

Oi, meu nome é Breno. Tenho 22 anos. Saí de casa aos 18 por conta da faculdade que agora estou quase acabando, acabei de arranjar meu primeiro emprego(!), assumi todas as minhas contas e estou há cinco meses pensando sobre o que é ser adulto.

É por aí mesmo. A pergunta-título desse artigo não poderia estar mais longe de ser retórica: algum de vocês pode me ajudar a responder o que é ser adulto?

Recentemente tenho pesquisado muito a respeito disso. Tanto para fazer pautas como essa quanto para responder as dúvidas que têm passado em minha cabeça mesmo. E já adianto, se você caiu aqui procurando respostas, sinto lhe informar que não será o caso. Talvez até, pelo contrário. Mas para começar a encontrar uma mínima linha de raciocínio, creio que devo começar pelos motivos que me levaram a ficar pensando nisso.

Em primeiro lugar, saí de casa bem cedo. Aos 18 anos, por conta da faculdade em outra cidade, vi minha mãe sair do prédio onde eu passaria a morar, chorando, por ver o filho caçula saindo de casa. O que me levou a pensar pela primeira vez que, apesar dos meus pais seguirem me ajudando financeiramente, dado que sair de casa é um marco pra tanta gente: será que virei um adulto?

A resposta que fui tirando com o passar do tempo é que não. Num apartamento dividido com mais alguns garotos, a gente brinca de morar sozinho, mas, no geral, faz só isso mesmo: brinca! Uma vez por semana, uma diarista nos salva da bagunça e da sujeira em que nos metemos, lava nossa roupa, limpa nossos quartos e até nos dá a bronca que, se fosse nossas mães, tomaríamos todos os dias.

A verdade é que, o fato de ter saído de casa, pode ter deixado mais claro ainda como nenhum de nós ali era, de fato, adulto. Perdi grande parte da disciplina que era obrigado a ter na casa dos meus pais, me vi comendo pior, relativizando bastante o que chamo de uma casa organizada e até passando a me exercitar menos e cuidar menos da minha saúde.

Olha eu.

Alguns anos depois, comecei a namorar. E o fato de ter sido minha primeira namorada já com meus 20 anos fez com que questões da vida adulta viessem junto no pacote. Levar uma vida compartilhada, se importar com o sentimento e o bem estar de uma outra pessoa e ajudá-la a cuidar da própria casa até mais do que ajudo na minha me fez perguntar pela segunda vez: será que virei um adulto?

E mais uma vez a resposta que fui tirando com o tempo é que não. Na verdade, espelhar as responsabilidades que ela já tinha consigo mesma: cuidar mais de si, assumir progressivamente as contas da casa, fazer planos para o futuro e coisas mais simples desde a maneira como ela se veste até a auto-moderação em relação à frequência com que se dá ao direito de fazer o que gosta; tudo isso me fez pensar que eu ainda era uma criança perto dela.

Olha eu de novo.

Daí veio a efetivação, meu primeiro salário, o pagamento das minhas próprias contas, a independência financeira que traz toda uma série de outras independências junto e me vi fazendo aquela pergunta pela terceira vez: será que virei um adulto?

A resposta segue em aberto porque ainda é muito recente, mas tenho a tendência de acreditar que não. Ainda não consigo me impor uma rotina saudável, vivo cedendo às tentações tanto em termos de comida como de entretenimento, postergo compromissos com outras pessoas e comigo mesmo e não mudei uma vírgula em relação aos cuidados que tenho com minha casa.

Olha minha casa.

Também me lembro da primeira vez que me peguei pensando a respeito disso por uma motivação externa. Já trabalhando num veículo masculino, mas ainda antes do PapodeHomem, entrei em contato com a pesquisa realizada pela Ketchum Global Research & Analytics que, em termos gerais, concluí que "os homens, conforme vão ficando mais velhos, tendem a 'adiar a fase adulta' para além das suas próprias idades". E que em geral, os homens achavam que virariam adultos aos 30 anos. Quando chegavam aos 30 diziam aos 35. E assim sucessivamente.

Depois, bem mais recentemente, descobri a pesquisa realizada pelo jornal inglês The Telegraph que basicamente fala que os homens só viram adultos aos 54 anos. Pois com a paternidade tardia e dificuldade de atingir a estabilidade financeira, só com essa idade eles passam a se ver livres das amarras de uma vida juvenil.

Agora há pouco, descobri gráficos publicados pelo jornal digital Nexo com base no censo realizado pelo IBGE em 2010 que dá conta da idade que os homens costumam sair de casa, estado por estado brasileiro. A conclusão é de que os homens tardam mais a sair de casa do que as mulheres em uma das manifestações de que eles têm relutado em assumir as responsabilidades da vida adulta.

O que dialoga bastante também com a defesa de psicólogos britânicos de que a adolescência só termina oficialmente aos 25 anos e mesmo com a crítica de alguns sociólogos de que isso tem sido usado como desculpa para criarmos uma geração de adultos infantilizados.

E por último, é claro, a própria pesquisa realizada pelo PapodeHomem em parceria com um monte de gente que deu conta de revelar uma série de travas/amarras/prisões da masculinidade em contexto brasileiro, entre elas o fato de que 81% gostariam de cuidar melhor da própria saúde e 44% sentem pressão por serem os responsáveis financeiros pelo sustento da casa.

Mas fora todos os outros problemas de nossas vidas, a tradução da última semana a respeito das dificuldades do nosso amadurecimento explodiu minha mente quanto à dificuldade de amadurecer e se reconhecer como adulto.

Eu sei que numa série de esferas, me comporto como alguém responsável. Aos olhos de muita gente, pareço bem mais maduro que a média das pessoas. Mas, no fim das contas, fiquei com mais dúvidas do que no começo:

  • Será que de fato existem ritos de passagem de uma fase pra outra?
  • Será que não se trata de um processo?
  • O que de fato define o que é ser adulto?
  • Pensar sobre isso faz parte do meu amadurecimento?
  • Ou será que não ter certeza só é uma prova da minha imaturidade?

Alguém nos ajude, Lázaro, a entender.

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publicado em 10 de Março de 2017, 00:05
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Breno França

Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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