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Segunda é dia de Poker Night

Um colega de trabalho húngaro havia recém chegado ao Brasil para nos treinar durante um mês. Buscando integrá-lo à equipe, tentamos achar algum interesse em comum. O estrangeiro, que também gostava de beber cerveja em altas quantidades, mencionou que seu hobby favorito era Poker. Eu nunca havia jogado isso antes, mas alguns de meus colegas afirmavam saber jogar e, embora enferrujados, decidiram organizar um carteado sem maiores pretensões. Mal sabia eu que aquele seria o início de uma longa tradição entre esse grupo de amigos.

Prometeram que me ensinariam a jogar e asseguraram que poker era relativamente simples. Não havia grandes segredos, diziam eles. Lá fomos nós para o nosso primeiro Poker Night.

Precisamos manter nossa tradição de homens durões.

O começo: homens na vida, bebês no poker

Eram as cicatrizes da boemia. Na casa de um colega, os seis jogadores sentaram ao redor da mesa redonda de madeira. Cada um com sua lata de cerveja que, úmida e repousada na mesa, acabou deixando marcas permanentes ao longo de toda a superfície. As partidas iniciais serviram como ambientação para que os não iniciados aprendessem as regras básicas.

Ainda naquela fase percebemos que Poker não se joga sem aposta real, sem dinheiro. A falta de comprometimento com o dinheiro que se perde é o que torna jogadores irresponsáveis e os levam a realizar apostas e blefes absurdos. Um Poker sem que ninguém tenha nada a perder diminui a importância da estratégia e torna todos temerosos. Estipulamos então um buy-in de R$10,00. As fichas valiam, conforme a cor, 10 centavos, 25 centavos, 50 centavos e 1 real.

Inicialmente, vários jogadores inexperientes deixavam de faturar o pot por não reconhecer belas mãos. Entretanto, ao longo da madrugada todos começaram a compreender os conceitos básicos e a desenvolver certa malícia. A cada blefe que pagava, sob o efeito crescente de álcool, ríamos de tudo e parabenizávamos os ousados que se davam bem. Aprendemos a reconhecer a artimanha dos malandros que abusavam de atuação para ludibriar todos os outros jogadores. Mais do que dominar as regras do jogo, aquele passou a ser um embate entre habilidades de dissimulação e percepção.

Quando estávamos ficando embriagados, a dificuldade em detectar expressões faciais que ocultavam blefes descarados aumentava. Precisávamos comer algo para impedir que o álcool substituísse o que ainda sobrou da nossa razão. A única coisa disponível para comer naquela casa de solteiro eram dois pacotes de Doritos sabor nacho. No momento em que o anfitrião soltou os pacotes na mesa, como carniça ao redor de abutres, foram esvaziados em questões de segundos.

A jogatina continuou madrugada adentro, cada vez mais divertida. Ao final do jogo, quase de manhã, o grande vencedor se gabava escondido através de uma muralha de fichas. Ao contabilizar o valor de cada ficha rimos ao perceber que o sortudo da noite havia faturado uma fortuna próxima dos R$20,00. O maior azarado teria de explicar ao banco como conseguiu perder inacreditáveis R$7,23. O prejuízo mais significativo da noite ficava por conta da montanha de latas vazias de cerveja que jaziam amontoadas ao redor da lata de lixo também transbordando de cerveja.

A experiência foi ótima. Combinamos de repetir em breve. No escritório, ao longo da semana, toda a vez que cruzávamos nos corredores com algum jogador, parávamos para relembrar algumas das mãos mais engraçadas. "Cara, lembra a cara que tu fez quando, completamente incrédulo, viu aquele Full House com 10 e 7 ser batido pela fulla com valete e 7?".

Foi assim na semana seguinte também. Duas semanas depois, empolgados com as discussões que não se esgotavam nunca, marcamos o segundo Poker Night. Dessa vez, fomos preparados. Levamos CDs de blues, charutos, uma garrafa de whisky e mais cerveja. Ao final da noite que fora ainda melhor, surgia um novo milionário faturando cerca de R$18,00 enquanto o cara com pior desempenho perdia valiosíssimos R$8,15.

Créditos: www.gabrielutasi.com

No dia seguinte, todos já estavam comprometidos: "O poker night vai ser quinzenal". Após mais umas duas partidas, trocamos as latas de Skol por garrafas de Bohemia e os dois pacotes de Doritos deram lugar a dezenas de pacotes de Doritos e Cheetos. Antes que o vício nos fizesse amanhecer jogando bêbados ao som de blues, estipulamos um horário máximo de duração para os poker nights: começava às nove, encerrava às duas da manhã. Sem exceções.

Os mais empolgados começaram a estudar a teoria do jogo, desenvolviam táticas estranhas e estratégias peculiares. Algumas funcionavam, outras eram pelo menos divertidas.

Profissionalização: o ranking da jogatina

O ano acabou, vieram as férias e o poker night acabou interrompido. Entretanto, a vontade de reunir os amigos e rir bastante crescia na medida em que não organizarmos mais eventos como aquele. Ainda no início de 2008, decidimos retomar os trabalhos.

No dia seguinte, um dos jogadores mais chegado aos números, contabilizava os buy-ins, o número de jogadores, os ganhos e prejuízos de cada um. Com tudo no papel, criava uma tabela organizada contendo a lista com quem transferia quanto para cada um. Bastava responder o email apenas para quem deveríamos depositar o valor perguntando o número da conta e agência, dolorosamente transferir aquele símbolo da derrota e torcer para a sorte virar na semana seguinte.

Após umas três noites de poker, o nosso "gerente" de contabilidade percebeu que os emails com a lista de ganhos e prejuízos das jogatinas anteriores ainda estavam lá. Começou então a observar que alguns jogadores sempre ganham, outros sempre perdem, uns são irregulares... Sugerimos então criar uma planilha disponível para todos via Google Spreadsheets e registrar todas aquelas estatísticas de jogo.

Não demorou muito para que a planilha se tornasse uma completa e sofisticada evidência de desempenho que, obviamente, usávamos como ferramenta para se gabar em cima dos jogadores menos habilidosos. Em se tratando de desempenho, já que era justamente essa a proposta da planilha, por que não desenvolver uma forma para abstrair aqueles dados na forma de uma pontuação? Pronto, estava criado o ranking do nosso poker night.

Recordes de 2010:
Maior lucro acumulado:: R$ 439,30
Maior perda (numa única noite): R$ 160,00
Maior pot (numa única noite): R$ 197,60

A criação do ranking levou a jogatina despretensiosa a um novo patamar. Os assuntos nos corredores do escritório dificilmente fugiam da posição ganha (ou perdida). Calculávamos na ponta dos dedos o número de pontos necessários para superar os amigos e parar de ouvir as flautas quando não estamos no topo. Muitos jogadores passaram a levar a sério o estudo de táticas e estratégias. A repercussão do poker night cresceu e novos jogadores solicitavam serem integrados ao time.

Em determinado momento, as respectivas dos jogadores começaram a reclamar da indisponibilidade de seus homens durante a noite do poker. Não trocávamos a jogatina por – quase – nada nesse mundo. Algumas corajosas aventuravam-se prestigiando o evento, mas logo se irritavam com o ambiente altamente masculino regado a álcool, blues, densas névoas de cigarros e charutos, testosterona, palavrões e incompreensível diversão. Os ânimos frequentemente se exaltavam uma vez que não conseguíamos conter as emoções diante do surgimento de four of kinds e straight flushs. Éramos freqüentemente expulsos dos ambientes onde infernizávamos a vizinhança até às duas da manhã.

Poker com churrasco e chopp

Em 2009, procuramos encontrar uma solução para todos esses problemas. Um colega de trabalho cedeu seu "salão de festas" isolado no pátio de sua casa. A noite do poker foi transferida para segunda-feira, quando as excelentíssimas provavelmente prefeririam dormir e menos reclamariam de nossa ausência.

Como aquele "cassino" possuía uma churrasqueira, foi questão de tempo substituir os Doritos e Cheetos por um salsichão assado. Do salsichão para a enorme janela de costela e alguns corações também não demorou. Nos rebelamos contra a cerveja de má qualidade e o Poker Night de segunda passou a ser regado com Stella Artois. A deliciosa Stellinha nos acompanhou por algumas rodadas até que o gênio, colega nosso, teve a brilhante ideia de alugar uma choppeira completa com barril e serpentina. Começou com 15 litros que não chegou nem a uma da amanha. Em diversas outras oportunidades nem sequer o barril de 25 litros foi suficiente.

A maleta com fichinhas que começamos a usar em 2007 foi complementada com mais umas cinco. É ficha suficiente para todo mundo, considerando o que zeram seu buy-in e recorrem ao re-buy.

O resultado da noite anterior passou a ser pauta freqüente nos emails de trabalho. Para evitar misturar obrigação com lazer, criamos um blog e redirecionamos as discussões para lá. A regra da casa é que o chip leader da noite redija o review, toda terça-feira. Mais do que jogadas sensacionais, postamos no blog os momentos memoráveis, as cenas hilárias e o veredicto sobre a qualidade da carne e temperatura do chopp.

O Poker Night de segunda definitivamente deixou de ser focado na jogatina e passou a ser a noite do choppinho gelado, do churrasco e das risadas. Agora, toda segunda é dia de acompanhar o relógio e contar as horas para se reunir com os amigos, confraternizar e jogar um pokerzinho.


publicado em 07 de Fevereiro de 2011, 11:33
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Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.


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