Sexo com o colombiano

Sozinha em Madrid, procurando o colombiano na festa com luz forte e som alto

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Um colombiano bêbado me olha com raiva.

— Você fodeu com ele?, ele pergunta.

Não respondo.

— Você fodeu com ele?, pergunta de novo.

— Por que você quer saber?, finalmente digo.

— Só me diz se sim ou não…

— O que você acha?

— Acho que sim, mas quero ouvir você me dizer!

— Ok! Sim.

— Aonde foi?

— Porra, cara… Por que você quer saber isso? Sei lá, por aí…

— Me fala aonde! Caralho, eu sabia que você tinha fodido com ele. Era óbvio!

— Se você sabia, então porque tá perguntando?

Primeiro ele fica em silêncio. Depois diz que precisa tomar uma bebida ou sei lá o que. Não entendo direito, só peço para que me espere. Digo que vou junto. Tento dizer, na verdade. Não dá tempo. Nos desencontramos e fico sozinha na pista de dança, com aquela música alta e luzes fortes que fazem com que eu pareça bem mais bêbada do que realmente estou.

Eu havia chegado em Madrid há apenas três dias. Nos conhecemos em uma festa do hostel em que eu estava hospedada. No entanto, naquela primeira noite, acabei indo parar no quarto de um espanhol que morava na suíça, mas falava português. Apesar disso, ainda queria saber o que se escondia por trás dos olhos agateados do colombiano que morava em Madrid.

Agora, no entanto, estava sozinha no meio da pista de dança, sem saber para onde ir ou voltar. E as luzes e a música insistiam em me lembram que é por isso que eu detesto esse tipo de balada.

Que porra eu tava fazendo ali?

Tento me lembrar de como começou a conversa de antes. Como chegamos até ali? Tento me lembrar do que ele disse. O que ele disse? Não sei, talvez não tenha sido exatamente aquilo… O que ele disse mesmo? Não sei, e resolvo que é hora de ir embora.

Na saída, troco meia dúzia de palavras em um idioma inexistente com o segurança. Ele não me entende. Eu repito. Ele não entende. "Não é possível que o meu espanhol seja tão ruim. Devo estar mais bêbada do que imagino", penso. "Caralho, como eu faço para sair daqui?".

"Pra onde você vai?", ouço alguém perguntar atrás de mim.  Era o colombiano de olhos agateados. Ele sorria e eu tentava imaginar qual bebida tinha tomado enquanto estava lá dentro para voltar feliz daquele jeito.

Sem perguntarmos nada um pro outro, seguimos juntos pela rua. Fazia frio pra caralho e o meu casaco não era quente o suficiente. Então ele me fala que mora perto, e o resto fica implícito. Na verdade, o resto é óbvio, e me parece uma boa ideia.  

Depois de duas ou três quadras, um lance de escadas e um elevador antigo, chegamos em um apartamento sem calefação, mas com um aquecedor estrategicamente colocado ao lado da cama: "para você não sentir frio”, ele diz. O tipo de gentileza que faz com que aumente o tesão e a gente se esqueça de como as roupas foram tiradas.

No entanto, ainda tem coisas das quais eu me lembro: um chico, com sotaque espanhol, sussurrando “gostosa”. De quatro, de lado, de qualquer jeito. De todos os jeitos. Ele dizia coisas que eu não entendia. Eu misturava dois, três, milhões de idiomas.

Sexo poliglota. Troglodita.

Lá pelas 16h, as roupas foram recolocadas – agora, definitivamente.

Eu ainda tinha mais alguns dias por ali e combinamos de nos encontrar de novo. Entretanto, nos dias seguintes, quando nos esbarramos casualmente pelas festas, não trocamos mais do que meia dúzia de palavras cordiais, que não combinavam muito com os sussurros em espanhol ditos antes – talvez porque a cordialidade seja o único jeito de disfarçar intimidade. Não sei.

Se da primeira vez que se nos desencontramos, foi entre a multidão que se amontoava na pista de dança, suspeito que a segunda tenha sido no caminho de volta, quando notamos que, sob a luz do dia, o encanto já não era o mesmo. Afinal de contas, nós dois já havíamos descoberto um pouco do que se escondia nos olhos um do outro. Só um pouco, mas o suficiente.

Logo depois, fui embora sem conseguir me despedir. Nunca mais nos vimos. Já não lembro se o seu nome era Juan Carlo ou Juan Pablo. Ainda assim, às vezes ainda me pego pensando: por que tanta raiva por eu ter transado com outro cara?


publicado em 21 de Junho de 2016, 00:10
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Amanda Cipullo

Editora do site Casos Rock n' Roll e formada em publicidade. Jornalista por acaso, atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que conta por aqui.


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