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Sonho de um Carnaval

Ah, Chico, se o teu malandro não existe mais, imagine os nossos! Nesse carnaval seremos representados pelo 'rebolation'. A abertura do carnaval da Bahia de Caymmi será feita, indiretamente, pela cantora americana Beyoncé.

E cadê nossas Carmens Mirandas e os nossos camarões e ensopadinhos com xuxu?

Não é saudosismo e nem reclamação à toa não senhor. Não vim para pedir o retorno das marchinhas dentro de salões calorentos, serpentina xexelenta caindo na língua e folião babão ingerindo lança-perfume a rodo. Como diria o grande carnavalesco (e filósofo alemão) Arthur Schopenhauer, "cada um com seu cada qual", e a folia brasileira é única justamente pelo caldeirão de uma caralhada de festas em um único feriado desse mês magricela que é fevereiro.

Dos bois do norte aos inferninhos em Porto Alegre (com os festivais de rock pra quem não gosta de batucada nenhuma), eu sou mesmo é a favor do carnaval divertido, independente da diversão.

Mas o desabafo aqui é pelo resgate da alma, da essência daquele carnaval da mesma época do futebol arte, do futebol moleque, do futebol envolvente. Daquela folia toda mais intuitiva e menos 'evento'. Sabe, colega, daquele carná do flamê e da terê!? É disso que eu tô falando!

Quero mesmo que o teu carnaval seja bem mais cerveja que marcas de. Que o calor seja infernal para que a mulherada desfile todos os quatro dias com todos os diminutivos a que se tem direito (sainhas, shortinhos, sandalhazinhas, alcinhas e piduricalhozinhos) e que todos os televisores caiam na mais temida pane nos momentos em que famigerados canais resolvam exibir infames programas de atrações bestiais em seus playbacks horrosoros. Que tudo nesse carnaval seja tão exagerado quanto essas últimas frases e que assim sempre sejam os próximos.

Ok. Eu sei que às vezes eu me saio um belo de um desmesurado. É que me caem suores de desejo de sentir um pingo sequer daquela alegria cantarolada nos bons sambas. Aquela paixão escancarada e cheia de dentes na cara do Cartola ao falar da Estação Primeira de Mangueira. O Carnaval, tão rechaçado por esse coração lá na meninice, agora virou objetivo de vida. Virou o derradeiro tijolo amarelo daquela estrada que todo mundo procura.

Ah, Chico, mas veja só. Enquanto tantos ficam procurando as emperiquitadas festanças com mais fotos que fatos, fiquemos aqui com a síntese de uma das tuas músicas: "Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã".

Link YouTube | "Samba e amor" (Chico Buarque)


publicado em 13 de Fevereiro de 2010, 10:04
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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