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Talvez esta carta faça apenas parte daquilo que chamam de processo de cura

Às vezes a gente só precisa começar a colocar as coisas para fora

Estou lhe escrevendo para que, quando eu quiser me lembrar dessa história, ter onde encontrá-la. Com a facilidade das mensagens instantâneas, a arte de redigir cartas se perdeu pelas linhas do tempo. Mas tem algumas coisas que nunca deviam morrer completamente. Essa é uma delas. É por isso que lhe escrevo.

Parece que você tinha razão. A vida tem mesmo nos atravessado impiedosamente. As marcas ficam e o tempo é irreversível. Nós também, eu sei. Acontece que tenho pensado que talvez isso não seja totalmente ruim.

Você se lembra da vez em que um ônibus me levou de Amsterdam até Londres? Naquele dia, acordei com um senhor me cutucando, já era hora de desembarcar. "Acorda, menina, já chegamos! Olha só. Olha! Como é estar aqui pela primeira vez? Não consigo me lembrar o que senti quando cheguei, mas deve ser uma sensação incrível. Olha, menina, nós já chegamos", ele me disse.

E eu não soube o que dizer em resposta. Talvez resquício das duas semanas que passei na Holanda; talvez porque, depois de muito tempo na estrada, seja difícil diferenciar as chegadas das partidas. Ou pode ser que as primeiras visões sempre nos ceguem um pouco e tomar consciência delas  nos faça entender que nunca mais olharemos as coisas do mesmo jeito, então, simplesmente não vemos e ficamos sem ter o que dizer, para não termos que nos despedir depois. Entende?

Acordei pensando nessas coisas: na saudade e em tudo o que não volta. No medo de que essas cicatrizes apodreçam; na irreversibilidade do tempo que, aos poucos, pode fazer com que eu não me reconheça mais. Então, não sei porque, me lembrei de que o Big-Ben é muito mais bonito quando visto do outro lado do Tamisa – apesar de a maioria das pessoas insistirem em se amontoar em frente a ele, em busca da melhor foto para postar no Instagram. Pensar nisso me fez perceber que não era Londres que me fazia falta.

Uma vez, você me perguntou: "Se as nossas almas tivessem retratos, será que seríamos Dorian Gray?". Você se lembra? Naquela época, acredito que tenha lhe dito que sim. Seriamos porque cometemos vários crimes contra nós mesmos. Viramos nossas próprias vítimas e, a vida que nos atravessa sem piedade, era arma que apontávamos para as nossas próprias cabeças. Inofensivos para os outros. Nunca para nós mesmos. E eu imaginava que isso já bastasse para que as nossas imagens apodrecessem nos retratos de antigamente.

Ou será que não? Hoje penso: será que não?

O que eu queria lhe dizer é isso: se esse tempo irreversível devora algumas coisas, também, nos faz enxergar outras – como o Big-Ben, que é bem mais bonito de ser observado do outro lado do Tamisa. E a prova disso são os seus olhos, que ficam incrivelmente doces quando você ouve o Leonad Cohen cantando algumas de suas músicas preferidas. Entende o que eu quero dizer? O melhor e o pior estão em toda a parte. Em nós mesmo. E o mal não são as essas nossas cicatrizes, da mesma forma que não é Londres que me faz falta.

O que essas coisas nos ensinam, eu não sei. Não ainda. De qualquer maneira, se já não é mais possível sermos os mesmos, também não deixo de gostar desse "isso" em que estamos nos transformando. E a doçura que (ainda) existe nos seus e nos meus olhos, sempre serão a prova disso. Suspeito, inclusive, que é ela que me faz falta – muito mais do que Londres.

Enfim, talvez esta carta faça apenas parte daquilo que chamam de processo de cura. Não sei. Só espero que todas essas marcas que deixamos um no outro, não nos impeçam de ver o que foi – e o que ficou – de bom. Sobretudo, que não nós impeça de lembrar. Que não nos deixe esquecer – pelo menos não completamente.

Era isso que eu queria lhe dizer.

Bem. Aproveite a primavera aí. Imagino que a rua deve estar linda, cheia de flores. E, enquanto elas não florescem por aqui,  sigo bebendo vinho para espantar o frio que tem feito em São Paulo.

Um beijo grande, com todo o carinho que – hoje sei – ainda existe em mim.


publicado em 05 de Julho de 2016, 00:00
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Amanda Cipullo

Editora do site Casos Rock n' Roll e formada em publicidade. Jornalista por acaso, atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que conta por aqui.


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