Toda a beleza despercebida desse mundo

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12 de janeiro de 2007. Eram 7:51 da manhã de uma sexta-feira. Horário de pico em uma estação de metrô de Washington. Um jovem homem, vestindo jeans, boné e camisa manga-longa posiciona-se próximo a uma das paredes. De um pequeno estojo, tira um violino. Aloja o estojo aos seus pés e, estrategicamente, põe alguns trocados nele.

Então, ele toca.

Nos próximos 43 minutos executa seis peças clássicas para cerca de 1097 transeuntes. Desses, apenas sete indivíduos param para apreciar e, ao final de sua apresentação, arrecada o total de 32 dólares.

Ninguém sabia, mas o músico anônimo daquele dia na estação de metrô era o violinista mundialmente conhecido Joshua Bell, numa experiência proposta pelo The Washington Post.

Bell tocava com uma aquisição relativamente recente, o violino de 3,5 milhões de dólares Gibson ex-Huberman, feito à mão por Stradivari em 1713.

O sacana foi ignorado.

A experiência proposta pelo jornal não é nova, eu sei. Mas, certamente, ela ainda pode suscitar uma porrada de diálogos.

Quero enveredar por um caminho específico. Quero sair em defesa da beleza marginalizada, fora-de-contexto, sem price-tag.

O pecado do desperdício

Todos os dias a maioria de nós acorda com um script mais ou menos programado do que fazer e de como se sentir. De uma forma geral, salvo exceções, esse script é seguido rigorosamente, como se houvesse um chefe de setor interno nos mantendo focados no “trabalho”.

Por várias vezes me vi acordando e, quase de imediato, pensando:

“Puta que pariu, sei exatamente o que vou fazer hoje.”

E fazia de acordo.

Isso me causava um sentimento bem desagradável, parecido com um gosto ruim na boca, que vez ou outra aparecia e perdurava. Prestava atenção em muita coisa que poderia servir de solução pro tal problema e quase não focava a minha própria rotina e todo meio que a envolvia.

O fato é que a rotina costumava enfiar-me constantemente num estado de piloto-automático. Bastava vir alguma atividade que não exigia minha interação direta — e pronto — minha atenção e minha produtividade estavam minadas.

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Abolir a vida de rotina não é lá muito simples, mas comecei a experimentar alguma mudança quando comecei a de fato tentar melhorá-la. Forcei-me a sair do piloto-automático, e prestar atenção. Olhar as obras sem moldura do cotidiano que me cercava. A beleza marginal. O tipo de artefato de luxo sem etiqueta que só poderia ser encontrado por olhos que a estivessem procurando.

Quando falo de “beleza marginalizada” me refiro a qualquer estímulo sensorial que possa provocar algum tipo de experiência interessante. Só que, descontextualizado, fora do script costumeiro. Nada de teatro, shows, cinema, museu, ou galeria de arte. Já sabemos onde encontrar beleza nesses lugares, é intuitivo.

Seria algo como a pichação ambígua de um muro. O jeito de andar daquele rapaz. A risada do cara do lava-jato. Música desconhecida do táxi. Ixoras de 7 pétalas. Imponência de árvore grande balançando com vento. A moçoila bonita com vestido estampado de melancia. Cheirinho de terra molhada, com sabor de chocolate. Gente maquiada. Aquele céu que deveria criar um feriado na cidade, só para ser olhado. Ou quem sabe ver a singela beleza de um artista de rua, como quem vê beleza em artista mundial.

Perceber o mundo de forma similar aos haicaístas.

“Um verdadeiro haicai tem que ser tão simples quanto mingau e, ainda assim, fazer com que você enxergue a coisa como ela é, como o melhor deles, provavelmente, aquele que diz: ‘O pardal saltita pela varanda, com as patas molhadas’. De Shiki.
Dá para enxergar as pegadas molhadas como uma visão na mente e ainda assim naquelas poucas palavras também dá para ver toda a chuva que caiu naquele dia e quase sentir o cheiro das pinhas úmidas.” –Japhy Rider, personagem de Os Vagabundos Iluminados de Jack Kerouac.

Todos os dias somos expostos a milhares de eventos aleatórios, completamente doidos e erráticos, mas com potenciais de beleza incríveis. Pouco a pouco, eles vão sendo seletivamente ignorados por nossos olhos letárgicos e desatentos. Nossa mente, de forma contínua, trabalha para que não percebamos os Joshua Bell’s tocando em cada esquina da vida.

No filme Beleza Americana tem um lance que se relaciona de forma bastante interessante com isso. O personagem Ricky Fitts é um jovem deslocado tanto no ambiente escolar, como no familiar. Ricky grava o seu mundo com uma câmera e acumula dezenas de filmes no seu quarto. Numa das cenas icônicas do filme, Fitts mostra à sua vizinha, Jane Burnham, uma de suas gravações.

Link Youtube | A beleza despercebida

"Você quer ver a coisa mais bela que eu já filmei? Era um desses dias, quando se está a um minuto de nevar. E tem aquela eletricidade no ar, você pode quase ouví-la, certo?
E esse saco estava dançando comigo, como uma criancinha me implorando para brincar com ela. Por quinze minutos.
Esse foi o dia que me dei conta que tinha toda essa vida por trás das coisas, e essa incrível força benevolente que queria que eu soubesse que não havia motivo para ter medo. Nunca. Gravar é uma desculpa esfarrapada, eu sei. Mas me ajuda a lembrar... Eu preciso lembrar...
Às vezes tem tanta beleza no mundo. Eu sinto como se não pudesse aguentar.
E meu coração simplesmente transborda."

Parece esquisito, mas há alguma coisa extremamente sensata e benéfica em ser esquisito dessa forma. Os melhores artistas, escritores, filósofos e toda a penca de gente que costumamos ouvir e admirar (nossa mãe inclusa), eram francos observadores desse mundo. Insaciáveis quanto ao hábito de observar e sensibilizar-se.

Eu mesmo já demonstrava um esforço tímido para tentar me tornar um indivíduo mais sensível e atento, mas a excentricidade de Ricky Fitts acendeu uma fagulha das boas.

Comecei a prestar atenção nos pormenores da minha rotina, mesmo nas partes mais aparentemente inertes dela. E descobri uma vida incrível por detrás de todo o que eu inicialmente pensava ser insosso nela.

No caminho usual que fazia de carro todas as manhãs, comecei a notar quantos elementos curiosos compunham as cenas que eu via. Ou então as belas fotos que essas cenas poderiam dar, caso uma Nikon recaísse sobre elas.

Toda poesia que emanava, e poderia surgir dali. O tipo de coisa que só por ter a chance de ser observada, de alguma forma doida e aleatória, pode fazer diferença nas nossas vidas.

Coroas sem camisa jogando dominó às seis da manhã. O Kadett 91 rebaixado. Os botõeszinhos de flores nas rachaduras da calçada. A feição daquele soldado gordinho que ficava pra trás nas corridas matinais do exército. E tudo isso no caminho de sempre.

Muita informação potencial que deixava de existir por desatenção.

Em meio aos carros, as cores
Em meio aos carros, as cores

Não estou falando que você deve se atrasar pra uma reunião importante para ouvir música clássica no metrô. Na verdade, falo sobre reaproveitar os momentos tediosos e desatentos da nossa vidinha de gado.

O que eu diabos fazia no assento do ônibus, na fila da lotérica, ou no caminho pra padaria? E por que coisas do tipo eram tão tediosas? A contemplação das parcelas normalmente desperdiçadas de vida me tornou uma pessoa mais produtiva e menos entediada. Tem sido muito bom. Já deu pra achar muita coisa provocante.

Afinal, quantos insights e boas ideias já surgiram a partir de coisas pequenas e belas, normalmente ignoradas? Você mesmo deve ter algo a contar sobre isso.

Passo a imaginar quantos textos e crianças deixaram (e deixarão) de vir ao mundo só pelas nossas doses de desinteresse diário.

E você, como tem percebido os estímulos que estão no seu caminho todos os dias?


publicado em 13 de Abril de 2014, 10:47
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Lucas Maimone

Soteropolitano e torcedor do Vitória. Se amarra em ler, assistir filme, ouvir um som, ou simplesmente aproveitar uma boa companhia.


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