Turfe: como entender e apostar na corrida de cavalos que movimenta R$ 1 bilhão por ano no Brasil

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Em 27 de março de 2010, um brasileiro faturou – sozinho – um prêmio 23 de milhões de reais.

Um sujeito sortudo que se arriscou na Mega Sena? Nem sujeito, nem sortudo. Foi o cavalo Glória de Campeão, que venceu a Dubai World Cup e foi para o Guiness Book junto com o jóquei gaúcho Tiago Josué Pereira ao receber a maior premiação já paga na história do turfe: US$ 10 milhões.

Arrematado por “singelos” R$ 30 mil enquanto ainda era um potrinho, Glória foi um investimento certeiro. Em menos de cinco anos competindo profissionalmente (uma temporada e meia dominando pistas nacionais e mais três correndo o mundo), ganhou R$ 33 milhões em prêmios de corrida e se tornou o equino mais rentável da história do Brasil.

E essa é apenas uma fatia. Estima-se que o turfe, modalidade mais popular de corrida de cavalos no Brasil e no mundo, movimente mais de US$ 120 bilhões todos os anos pelo mundo inteiro.

A História: da Grécia e Reino Unido ao Brasil

Corridas de cavalo só não são mais antigas que a corrida entre homens. Há registros de competições que vêm desde o Egito e da Grécia Antiga, e o esporte já era disputado nos Jogos Olímpicos realizados em 648 A. C.. Da modalidade clássica, surgiram diversas variações: hipismo, corridas com obstáculos, corridas de longa distância, corridas de charrete ou até batalhas de charrete, como mostram filmes sobre o Império Romano.

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Na Idade Contemporânea, a Inglaterra é o país do turfe. Esporte favorito dos ricos e nobres britânicos, ganhou o apelido de Esporte dos Reis e cresceu junto com a despontada da Inglaterra como grande potência econômica ainda durante a Revolução Industrial. Corriqueiramente ligado a aristocratas e seus charutos, o esporte caiu nas graças de trabalhadores dispostos a apostar e abriu seus tentáculos pelo mundo. Primeiro, houve uma expansão pelo resto da Europa, geograficamente mais próxima. Mas a coisa pegou mesmo nos países de colonização inglesa, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e países africanos e asiáticos com a mesma língua.

Para chegar ao Brasil, o esporte contou com a ajuda de um precursor poderoso: Dom Pedro II. O monarca ajudou a financiar corridas - esteve presente na primeira prova do Jockey Club fluminense, na Gávea, em 1869 -, trouxe cavalos da terrinha e adorava galopar (ainda que tenha sofrido vários acidentes por isso).

Sucesso e queda no Brasil

O primeiro registro da chegada do esporte ao país é um manifesto publicado no Jornal do Commercio, em 6 de março de 1847. A iniciativa deu início ao Club de Corridas, que durou apenas três anos e serviu de embrião para o nascimento do Jockey Club fluminense. Quatro anos depois, nasceu o Jockey Club de Curitiba. Mais dois anos, o de São Paulo. Em 1907, o de Porto Alegre. Dessa forma, o desenvolvimento regional do turfe motivou encontros nacionais e, em 1932, oficializou-se o Jockey Club Brasileiro e o esporte viveu sua fase de ouro durante as duas décadas seguintes.

A derrocada da popularidade começou nos anos 1960, com a mudança da capital política do País para Brasília e um decreto do Presidente Jânio Quadros que confinou as corridas aos finais de semana e proibiu, entre outras coisas, a entrada de menores de 21 anos e a criação de postos para recebimento de apostas fora do hipódromo.

O futebol confirmou a ascenção como esporte nacional depois dos títulos da Copa do Mundo e, com o tempo, os brasileiros começaram a se apaixonar também por outro tipo de corrida: a Fórmula 1, que ganhou espaço impulsionada pelo sucesso de Fittipaldi, Piquet e Senna.

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A regra é clara (a maioria, pelo menos)

A lógica central do esporte é simples. A porteira de largada se abre e jóqueis e cavalos partem em disparada pela pista, geralmente oval. Quem chegar primeiro é o vencedor.

Cada uma dessas provas é chamada de páreo e, durante uma reunião ou programa turfístico (termo equivalente a um dia de provas em um hipódromo), são realizados entre 8 e 12 páreos. Cerca de oito animais-atletas se alinham a cada prova, e índices de desempenho determinam quais cavalos estão aptos a participar para manter o nível da competição o mais equilibrado o possível.

Os critérios variam desde o sexo, número de vitórias, retrospecto recente, idade e raça do animal (no Brasil só há competições oficiais entre os puro sangue inglês, raça que melhor se adaptou ao nosso clima), e essas mesmas variações determinam a importância da corrida. Há os páreos comuns, em que perdedores recebem novas chances, as provas especiais, os clássicos e os famosos grandes prêmios, que reúnem o que há de melhor nas pistas.

A cada corrida, uma comissão é responsável por decidir se os resultados podem ser oficializados ou alguma irregularidade aconteceu. Assim como nas corridas de carro, um jóquei não pode invadir deliberadamente o caminho de quem tenta ultrapassar – essa infração é, inclusive, a principal causa de acidentes e ossos quebrados.

Caso o erro seja comprovado, as posições finais são invertidas. Outra punição recorrente é em relação ao peso: jóqueis e cavalos são pesados antes e depois das provas para garantir que não haja fraude. Se a balança final marcar mais do que 500 gramas a menos que o aferido no início da corrida por que um peso extra foi deixado pelo caminho, a dupla é eliminada automaticamente.

Assim como no atletismo, a preocupação com o doping também existe. Nos páreos comuns, apenas o cavalo vencedor é obrigado a passar pelo exame. Nos grandes prêmios, os cinco primeiros colocados têm a responsabilidade  de passar pelo teste.

Cavalos: como surgem as milionárias estrelas do esporte

A busca pelo cavalo perfeito movimenta tanto dinheiro e é levada tão a sério que existe até um profissional especialista: o hipólogo, que analisa características genéticas e o índice de vitórias esportivas de éguas, garanhões e seus ascendentes para indicar o casamento ideal.

Fruto do cuidadoso cruzamento de cavalos ingleses, árabes, centro-asiáticos e norte-africanos por volta do século 17, o puro-sangue inglês é a espécie campeã no turfe há mais de dois séculos. Capaz de ultrapassar o limite de 60 km/h, a raça detém o recorde de velocidade já registrada: em 2008, um cavalo chamado Winning Brew alcançou 70,76 km/h.

Mas ainda que a cobertura seja quase uma ciência, gerar um cavalo perfeito também é uma roleta russa genética. Cruzar dois vencedores aumenta a probabilidade de nascer um potro mais bem dotado geneticamente, mas as combinações são infinitas.

Há até data certa para o bicho nascer: no Hemisfério Norte, tem que ser no primeiro semestre; no Hemisfério Sul, no segundo. A altitude, a temperatura e solos planos também são determinantes: no Brasil, Bagé é considerada ideal para o ato (a inseminação artificial é proibida por lei, o garanhão tem que fazer a mágica acontecer), nascimento e a criação dos animais.

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Vitória de Winning Brew, o recordista mundial de velocidade

No Brasil, uma noite de amor com o Glória de Campeão, nosso Usain Bolt dos equinos, custa no mínimo R$ 10 mil. Nos EUA, um cruzamento efetivo entre cavalos reconhecidamente vencedores pode custar mais de R$ 200 mil. Nascido o potrinho, o cuidado é enorme desde pequeno.

O animal passa por um rigoroso processo de doma, alimentação e treinamento para que, com cerca de três anos e meio, estreie nas pistas. No Jockey Club do Rio de Janeiro, por exemplo, os treinos começam às 5h da madrugada, com uma cavalgada matinal que dura até 9h. Depois, a hora do prazer: os atletas são levados para dar um mergulho nas piscinas especiais para cavalos que existem por lá. À tarde, passam por um circuito de exercícios de fortalecimento muscular pelas ruas da vila hípica.

Para que tudo funcione direitinho, há um staff tão grande em volta dos bichos como há em qualquer atleta de ponta: além do treinador e do jóquei, trabalham com ele um cavalariço, veterinários e vet-nutricionistas. Eles decidem qual variação da dieta de aveia, alfafa, verduras e rações especiais cada animal deve ingerir. Claro, há mimos também: maçãs, cenouras e o clássico torrão de açúcar.

O objetivo é fazê-los ficarem grandes, fortes e… lindos. Alguns cuidados parecem estritamente estéticos, mas podem ser determinantes no bom rendimento do animal. Regularmente, os competidores passam por sessão de escovação e tosa e têm uma horinha na “manicure equina” com o ferreiro, que molda e troca as ferraduras de acordo com cada cavalo. Na busca pelo desempenho, também é comum que se use acupuntura, massagem e análises em ultrassom no processo de recuperação – alguns cavalos disputam provas apenas em intervalos de dois meses.

De acordo com suas características, cada cavalo se especializa em um tipo de prova. Os sprinters ou velocistas dominam os páreos curtos, de 1000 metros; os milheiros competem as provas de 1.600 metros (= 1 milha) e são os mais comuns, uma vez que a maior parte dos páreos varia entre 1200 e 2400 metros; por fim os fundistas, mais resistentes, são os ideais para suportar aquelas distâncias acima de 2400 metros.

Nos hipódromos brasileiros, as pistas ovais têm, em média, pouco mais de 2000 metros, com retas de 300 a 500 metros. As provas variam a distância entre 1000 e 3000 metros e podem ser disputadas em superfícies de areia ou grama.

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Páreo disputado no Jockey Clube do Rio de Janeiro (foto de Ismael dos Anjos)

Turfe e loteria: casa das apostas em um pais sem cassinos

Apostar no turfe é relativamente fácil: escolha um, dois ou até quatro cavalos, tente adivinhar sua posição em cada páreo e torça. Acontece que há muito mais mistérios entre a largada e o disco final do que supõem os apostadores e torcedores leigos. Afiliação dos cavalos, treinamento, jóquei, histórico de vitórias, tipo de piso e outras tantas variáveis determinam os favoritos e os azarões.

Ao contrário do que acontece na Mega Sena, em que a sorte é fundamental, no turfe leva vantagem quem perde horas e dias de estudos para mapear o currículo de títulos, vitórias e fracassos de cada animal no páreo.

Há quem conheça o estilo de cavalgar de todos os jóqueis e que, só no observar do cânter (o andar dos animais na volta de apresentação antes dos páreos), já é capaz de identificar um campeão. Parece besteira, mas mesmo na distância das arquibancadas é possível perceber detalhes que podem ajudar: quão bem disposto está o animal? Seu andar está altivo ou cabisbaixo? O equipamento está confortável em seu corpo ou pode atrapalhar o desempenho? Compensa ficar de olho. Parte das apostas no programa turfístico do Jockey Club do Rio de Janeiro têm bolsa garantida de pelo menos R$ 20 mil reais.

O valor é alto, mas ainda nada parecido com o que se pode lucrar nas casas de apostas norte-americanas e europeias, sobretudo na Inglaterra. No Reino Unido, a Olímpiada de Londres movimentou 30 milhões de libras em apostas. O Grand Nacional, principal prova de turfe dos britânicos, gira anualmente cifras na faixa de 250 milhões de libras. Nos EUA, os investimentos na criação de cavalos de corrida impactam a economia em R$ 200 bilhões todos os anos, entre prêmios, apostas, direito de transmissões e comércio de animais. Em um leilão, a égua vencedora Pure Clan foi arrematada por US$ 4,5 milhões - e por um haras brasileiro, diga-se de passagem.

No Brasil, o esporte e as apostas têm recuperado o fôlego depois de um período em baixa. A volta do público e a criação de competições mais relevantes, como o Desafio dos Campeões vencido pelo jóquei brasileiro e recordista mundial Ricardinho, estimulam os apostadores de longa data e atraem os principiantes. Não à toa, nosso negócio com turfe já é grande: cavalos e jóqueis de ponta são exportados daqui para os grandes centros. e o esporte já movimenta a cifra de R$ 1 bilhão por aqui. Destes, R$ 600 milhões são em apostas – um dia comum de reunião facilmente ultrapassa o R$ 1 milhão em apostas). Prato cheio para um País em que não há permissão para funcionamento de bingos, cassinos e o popular jogo do bicho é contravenção.

Ao passar um dia no Jockey Club, você vai perceber que os habitués trocam dicas sobre barbadas e se agitam com livrinhos recheados de informações pelos restaurantes, camarotes e arquibancadas do hipódromo. O público é sênior, tradicionalmente formado por homens a partir dos 50 anos que já fizeram uma carreira bem sucedida, mas se rejuvenesce com a ajuda da globalização digital. As telas no centro social exibem corridas e resultados de todo o mundo, e não é preciso sequer estar nos Jockeys Clubs para apostar. Você pode fazê-lo em casa, pela internet, em um dos diversos modelos de apostas possíveis:


  • Vencedor (ou ponta): a clássica aposta única, em um cavalo para vencedor do páreo;


  • Placê: aposta em um cavalo que pode chegar no primeiro ou segundo posto. É a mais fácil de vencer;


  • Dupla: aposta em dois cavalos para primeiro e segundo lugares, independentemente da ordem de chegada. Pode ser simples (dois cavalos), parcial (três cavalos) ou combinada (número livre de cavalos);


  • Exata: aposta na ordem exata dos dois primeiros colocados em uma prova. Pode ser simples, parcial ou combinada;


  • Trifeta: aposta na ordem exata de chegada dos três primeiros cavalos em um páreo. Também pode ser simples, parcial ou combinada;


  • Quadrifeta: aposta na ordem exata de chegada dos quatro primeiros cavalos em um páreo (assim como as outras, pode ser simples, parcial ou combinada);

Quanto mais complexa for a aposta, maior é o prêmio. Por isso, existem também as apostas especiais:


  • Betting 5: aposta mínima de oito combinações para acertar as duplas dos últimos cinco páreos da reunião. Além do movimento das apostas, há uma bonificação dos Jockeys Clubs;


  • Pick 3: aposta acumulada da combinação dos dois primeiros colocados de três páreos e mais a posição de um terceiro cavalo, de escolha livre. Para acertos absolutos, há bônus de 100%;


  • Pick 7: aposta prévia nos cavalos vencedores das últimas sete provas do programa turfístico. Caso ninguém acerte os sete nomes, leva quem obter o maior número de combinações corretas;


  • Super Betting: aposta certeira nos vencedores do últimos três páreos da reunião. Há bonificação dos Jockeys Clubs para os vencedores.


  • Fast 6: aposta certeira nos nos vencedores dos seis páreos mais importantes da reunião.

Considerado um azarão na edição de 2010 da Dubai World Cup, o Glória de Campeão pagou R$ 58 para cada R$ 1 apostado. E se há alguma coisa que não falta neste esporte onde homens e cavalos são quase um só é emoção. A vitória foi apertada, por um nariz.

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10 milhões de dólares + apostas: definidos por um focinho a favor do Glória de campeão

Mecenas: Jockey Rio

Quer conhecer e acompanhar mais sobre Turfe?

O PapodeHomem e o Jockey Rio vão produzir uma série de conteúdos sobre o esporte que movimenta apaixonados por competição em todo o mundo nesse canal especial.

Acesse o novo site do Jockey Rio para conhecer e começar a apostar.

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publicado em 13 de Novembro de 2014, 22:01
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Luiz Felipe Silva

Acha que o jornalismo pode mudar o mundo. Inocente. Quer rodar o planeta para contar as melhores histórias e conhecer todas as pessoas do mundo, mas não larga Santo Amaro por nada.


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