Um café com Marty Mcfly

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O lugar era bastante familiar. Porém, aquela cafeteira não era como eu imaginava. Parecia maior na TV. Mais, sei lá, robusta. Mas ainda era uma cafeteira.

E sempre acontece algo de bom próximo de uma cafeteira.

Um balcão, poucas mesas, cardápio antigo, garrafas de whisky expostas e um ambiente tomado por Earth Angel, do Penguins. Com um pano surrado no ombro está o velho Lou, veterano atendente contador de historias que diz ter vivido os melhor anos daquela cidade. Além dele, apenas um cliente habita o estabelecimento.

Cabisbaixo cliente.

Veste um blazer cinza aparentemente esquecido no tempo. Camisa perfeitamente esticada, gravata com nó simples e sapatos pretos. Bebe café enquanto faz dobras no guardanapo e, de canto de olho, fiscaliza o preparo de suas panquecas. Sento ao seu lado e, ainda tentando conter a excitação, faço a pergunta planejada há 10 anos:

— Por que o futuro não é como você nos mostrou?

Silêncio. Um breve sorriso, um gole de café e a resposta vem com as sobrancelhas arqueadas:

— Ainda faltam alguns anos, filho. Quatro anos e alguns dias.

Marty Mcfly estava deprimido.

Que bom que a moda de duas gravatas não pegou

— As brigas.
— Que brigas?
— Com o Biff. Todas elas. As mais importantes e as que mais impressionaram. Todas começavam todas aqui.
— É, eu lembro. Eu vi. Eu não estava aqui, mas eu vi.
— Sei. Mas eu nunca lutei por ela.

Mais uma vez, silêncio. O nome "dela" era Jennifer, você deve lembrar. Ela havia o deixado. O motivo era desconhecido. Um dia Jen simplesmente decidiu partir de Hill Valley. Parecia que ela estava em Nova York trabalhando numa agência de mídias sociais, coisa do gênero.

— Eu enfrentei caubóis , índios e ursos. Andei em trem desgovernado, skates voadores e fui arrastado por cavalos. Briguei em bares, festas e no meio da rua. Levei um tiro. Pulei de um prédio. Apanhei. Apanhei muito. E tudo isso por quem? Por mim. E fui o maior egoísta de todos. Perdi minha mulher. Eu, que ironia, sou um homem sem futuro.

Comecei a desconfiar do café. Ou do que tinha na xícara. Os lamentos de Marty eram etilicamente deprimentes. Parecia ele vítima de um passado recheado de fracassos e decisões equivocadas. Nem de longe lembrava o primeiro ser humano a tocar "Johnny B. Good". Com a timidez de um coadjuvante, tentei auxiliá-lo.

— Mas… Você foi ao futuro salvar o casamento. Lembra?
— Sim. Mas eu consegui? Me responda, eu consegui? Não. Ainda nem é 2015 e nós não estamos mais juntos. Antes jamais tivesse ido.

Jennifer, Marty e o famigerado relógio da torre

Não seria fácil.

Era preciso agir.

— Calma lá. Essa autoflagelação é ridícula. Você viajou no tempo, fez tudo o que um adolescente queria fazer e é um dos maiores ícones pop de todos os tempos. Porra, você é Marty Mc”fucking"Fly!

Nesse momento ele parou a xícara 10 centímetros de distância da boca. Olhava para frente, para o nada, claramente racionando o que acabara de ouvir. Voltou a xícara até o balcão sem beber o café, virou-se pra minha direção e, pela primeira vez olhando em meus olhos, questionou retoricamente:

— Eu viajei no tempo?

Entendi se tratar de uma pergunta retórica. Logo, deixei-o seguir a teoria.

— É, eu viajei no tempo. Eu tentei mudar o presente da maneira mais preguiçosa do mundo. Não agindo dignamente e tomando decisões, mas reescrevendo o que já havia sido escrito e publicado. Eu podia errar, bastava voltar no tempo e corrigir.
— O presente.
— Hein?
— Você voltava no passado para mudar o presente. Mas você nunca mudou o futuro. Aliás, mudou o futuro indo até ele. Não no presente.
- Isso é… Como dizia mesmo o Doc? Ah, sim. Paradoxo. Paradoxo temporal.
— Exa… Não, não é um paradoxo. É vida real. O homem não pode brincar no tempo. Porém, ele não tem somente uma chance. Ele tem sim um presente e vários futuros.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que você não pode reescrever o passado. Mas pode mudar o futuro.

O terceiro e último silêncio foi mais longo. Contudo, positivo. A reação foi imediata. Quando reparei, ele já estava fora do café entrando num carro irlandês cinza. Ia, creio eu, iniciar uma mudança. Uma mudança da forma como devem ser as mudanças: imediatamente.

O grande barato do futuro é justamente esse controle que temos sobre ele. O destino não é escrito de uma vez, mas aos poucos, pausadamente e a partir, principalmente, de suas escolhas.

Isso significa que seu futuro não foi desenhado ainda. O de ninguém foi.

Então, meu amigo, viva numa boa.

Mas jamais, jamais mesmo, dependa de uma máquina do tempo.


publicado em 30 de Setembro de 2011, 04:01
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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