Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

Um ditador na Copa do Mundo 2014

No que se trata do Regime Militar no Brasil, o nome de Sérgio Fleury é um dos com a maior ficha corrida. Ex-delegado do DOPS em São Paulo, Fleury ficou notoriamente conhecido pela capacidade em empilhar processos do Ministério Público. A maioria com o mesmo argumento: tortura.

Entre as participações efetivas e mais divulgadas de Fleury em missões, estão a tentativa de captura e morte de Carlos Marighella - ícone da esquerda revolucionária - e participação da Chacina da Lapa. Contudo, um importante capítulo da história brasileira destaca-se entre os , assim considerados na época, trunfos do militar: a chefia do supremo de interrogação de São Paulo durante o interrogatório [sic] de Vladimir Herzog, ex-diretor de jornalismo da TV Cultura e símbolo de resistência da imprensa da época.

A versão militar diz que Vladimir se enforcou na cela - como mostra a histórica e tão demasiadamente republicada imagem. Argumento que nunca convenceu, entre tantos, o ex-governador de São Paulo na época, Paulo Egydio Martins. Em entrevista ao programa Dossiê Globo News, Egydio defende que Vladimir foi assassinado pelo grupo liderado por Fleury. “Maquiou-se um suicídio (de Herzog), não houve suicídio, ele foi assassinado dentro das dependências do 2º Exército na rua Tutóia, em São Paulo”. Segundo o ex-governador, a morte do jornalista tinha como pano de fundo uma briga entre facções do Exército brasileiro à época: a Linha Dura e a Linha Branda, lideradas, respectivamente, pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.

Vladimir Herzog

Dezesseis dias antes da morte de Vladimir, na Assembléia Legistlativa de São Paulo, um então deputado da Arena pediu a palavra.

Cético, esse político prestou a oportunidade para tecer palavras de homenagens e elogios aos serviços prestados pelo delegado Sérgio Fleury e seu bando.

Fez mais. Engrossou denúncias contra comunistas e apontou a TV Cultura (já um canal do Estado) como uma emissora perigosa. E, mantendo o seu estilo agressivo e anti-comunistas, defendeu investigações mais árduas e atitudes de repressão a quem seguia uma doutrina anti-militar.

Esse discurso é tido como o maior incentivo para investigação, tortura e assassinato de Vladimir – mesmo com o jornalista tendo se dirigido ao orgão para um interrogatório sobre suas atividades "ilegais". O assassinato de Herzog tornou-se central no movimento pela restauração da democracia no Brasil, sendo considerado, por muitos, um dos maiores símbolos da luta pela liberdade e justiça em nosso país.

Mas a justiça é só para alguns. O tal deputado caçador de comunistas seguiu sua vida pública. Foi vice-governador de São Paulo quando Paulo Maluf foi apontado governador biônico por São Paulo, em 1979. Exerceu o cargo de governador por dez meses, em virtude da desincompatibilização de Paulo Maluf. No ano de 1985 foi um dos principais coordenadores da vitoriosa campanha de Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Parou aí.

Não teve mais sucesso político. Decidiu investir em outra paixão que já praticava desde 1982, na Federação Paulista: o futebol.

Deu certo.

Estamos falando de José Maria Marin: o presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

Paulo Maluf e José Maria Marin: mesmos conceitos

É esse o filhote da Ditadura, assim como tantos outros, que administra o futebol brasileiro. Curiosamente, sucessor de Ricardo Teixeira, dono de um mandato recheado de coronelismo e pouquísimo democrático. Com um - maléfico - diferencial: foi o dedo duro no caso Herzog.

E é por isso, como já destacado pelo jornalista Juca Kfouri, que você jamais verá a presidente Dilma recebendo Marin.


publicado em 04 de Dezembro de 2012, 13:24
File

Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura