Uma DR com meu lixo

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Quando era moleque, nos meus dez ou doze anos, tinha algumas boas conversas noturnas com meu pai.

Não sei bem se conversas, talvez mais escutatórias. Naquela época me sentia razoavelmente certo de que meu velho tinha respostas pra tudo, uma espécie de pré-Google. E, em meio aos tais papos, me lembro até hoje das inúmeras vezes nas quais escutei "lixo será um dos maiores problemas e uma das maiores indústrias do futuro". Confesso que a voz grossa, acompanhada da barba bíblica e o óculos fundo usado por ele davam um ar ainda maior de profecia à coisa toda.

Futuro lixo

* * *

Esse não é um texto sobre grandes soluções estruturais e invenções dignas de Discovery Channel. Nem sequer tenho repertório pra entrar nesse debate, vou é ficar feliz lendo os comentários de quem já foi mais longe nesse caminho.

Vou falar sobre nosso quintal, sobre a lixeira abaixo da mesa onde escrevo.

Há sete dias estava hospedado numa pequena pousada em Cunha, região serrana próxima a São Paulo. Dentre vários pequenos detalhes ligados a bioconstrução presentes na pousada, um pra lá de simples me chamou atenção. O quarto possuía duas lixeiras, uma para o que fosse reciclável, forrada com jornal no lugar de sacolas plásticas, e outra para o restante do lixo.

Fizeram o que podiam e fazia sentido, dentro de suas possibilidades, para lidar melhor com o lixo produzido pela pousada que construíram. Lindo.

Dois dias atrás estava caminhando, com a namorada e família, na trilha rumo à Praia do Sono, passando pela região das Laranjeiras, ali pros lados de Paraty. No meio da jornada surge uma lata de cerveja jogada. Quase como se o mato fosse um triturador de qualquer-coisa-que-seja-enfiada-nele. Esvaziei o resto do líquido, pouco menos da metade, e carreguei na mochila até alcançarmos uma lixeira decente.

Pensei comigo, o que leva alguém a se comportar como um porco selvagem e tratar um pedaço de mata preservada como área de ninguém, lixão?

Afinal, a pessoa resolveu ignorar os 200 a 500 anos necessários para a decomposição completa da latinha sob a justificativa de, suponho eu, não estar afim de beber o resto, nem de carregar as 17 gramas de metal cilíndrico. Amassá-la para tornar a hérculea tarefa suportável também estava fora de questão.

Dentro do mínimo possível, essa pessoa preferiu fazer nada. Escolheu prejudicar um espaço coletivo.

Veja, sou um porco em redenção. E interpreto tal atitude como uma profunda desconexão com o ambiente. Não só do ambiente verde e arborizado e bonitinho das florestas e praias, mas de qualquer ambiente mesmo. Jogar lixo no meio da sua cidade é também uma violência. Em caso de chuvas, a soma dos pequeninos detritos trava o sistema de escoamento, causando tragédias sem fim. Cuidar do ambiente não é só brincar de patrulheiro nas férias, é, antes de tudo, zelar pela sua vizinhança no dia-a-dia.

Consumimos conveniência e jogamos fora os restos, onde for, como for. "Ah, e vê se não me enche, tô dando emprego pros lixeiros e renda pros catadores. Além do que, pago imposto pra isso.", disparam os mais agressivos.

Nos tornamos a sociedade do descarte. Noção fincada em 1955, por matéria da revista TIME.

Família feliz brincando de lixão
Família feliz espalha detritos pelo mundo, desde a década de 60

Além de amar o descarte, somos deslumbrados pelo esbanjo. "Melhor sobrar do que faltar" é fala comum em almoços e festas de família. Ter ou usar o suficiente é pobreza, muquiranice. Consumir além do necessário se torna prática comum, um sinal implícito de prosperidade.

Segundo pesquisa feita pela Universidade do Arizona, conduzida ao longo de dez anos, 40% a 50% dos alimentos comestíveis fabricados nos EUA são jogados fora.

Aqui, 120.000 toneladas de lixo são produzidas todos os dias. E 39.000 toneladas de alimentos são desperdiçados, também diariamente – quantidade suficiente para alimentar, com três refeições, 19 milhões de indivíduos.

E pra onde vão o lixo e as sobras? Qual o ciclo dessa história, da produção ao descarte?

Cerca de 96%, no Brasil, vai para lixões, aterros controlados e aterros sanitários. Porém, toneladas se perdem no asfalto, na mata e no oceano.

Olhando a fundo o caso das inocentes garrafas d'água:

E o que acontece com o lixo no oceano? Fica no fundo?

Nada disso.

"O Capitão Charles Moore da Fundação de Pesquisas Marinhas Algalita foi o primeiro a descobrir a Grande Mancha de Lixo do Pacífico - um enorme acúmulo flutuante de detritos plásticos. Agora ele alerta sobre o crescente e sufocante problema dos resíduos plásticos nos nossos mares", assim somos introduzidos a essa brilhante palestra no TED.

A VICE foi até as trincheiras, colocando uma equipe num barco com o Capitão Moore durante três semanas. Retornou com um belo documentário dividido em três partes:

Lixo Extraordinário, a motivação original desse artigo

Lixo Extraordinário, o filme

Trata-se de um documentário que acompanhou trabalho do artista brasileiro Vik Muniz no aterro sanitário carioca de Jardim Gramacho, um dos maiores do mundo, entre 2007 e 2009. Concorreu ao Oscar em 2011.

Descobri ontem que estava disponibilizado na íntegra. Ao começar a rabiscar umas linhas sobre o tema, acabou saindo todo o resto. Porém, se não fizer mais nada, o convido a assistir apenas esse filme.

* * *

Quando ponderava minha relação com o lixo por infindáveis regras sustentáveis e etc, necessárias para a balela de "salvar o mundo", ficava de saco cheio. Me sentia na aula obrigatória de religião da quarta série. Ao começar a pensar no que posso fazer, hoje, pelos espaços que já frequento e valorizo, as ações se tornaram instintivas.

Se gosto de trilhas e pretendo fazer muitas delas ao longo da vida, vou mantê-las limpas. Ao cultivar o olhar cuidadoso em um contexto no qual ele brota mais fácil, ele logo se transfere para outros. Mesmo sendo bichos ambíguos e confusos, há esperança pra nós. Comecei a ser, lento como tartaruga, mais atento com o lixo em casa e no trabalho, por exemplo.

Tendo o básico bem feito, por vontade própria, aquela vinda de dentro, os próximos passos surgem naturalmente.

Se também quiser ter uma DR com seu lixo:


publicado em 04 de Janeiro de 2014, 16:08
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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