Uma questão de perspectiva

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É madrugada, entre sábado e domingo. Hoje, eu não quis sair. Não quis fazer como é o meu usual. Nada de ir pra Augusta, beber, caminhar sem rumo, nem pegar qualquer baladinha, nem encontrar com alguém para falar merda, rir e tentar acordar com uma ressaca minimamente gerenciável.

Ao invés disso, estou aqui, rangendo os dentes, com essa inquietação terrível, que não me deixa dormir. Na verdade, estou prestes a entrar em pânico, me sentindo miserável, ridículo, pequeno, totalmente incapaz. Talvez, mais ainda do que isso, me sinto burro.

Não quero dizer que vim parar em algum poço bem fundo, do qual não possa sair. Na verdade, para quem está de fora até parece que está tudo no seu respectivo lugar.

Até aqui, adquiri alguma experiência, vivi bons momentos, me diverti, tive bons amigos e relacionamentos e recordações. Tudo isso esteve lá, contribuindo para a noção de que uma história está sendo construída, de que algo grandioso está por vir.

Meu problema parece ser uma questão de perspectiva.

Observo os grandes caras fazendo grandes coisas – não os bons e os famosos, mas os verdadeiramente fodas, em um sentido que vai além da noção de sucesso – e eles não são vistos tão facilmente desperdiçando o próprio tempo com frivolidades ou pequenos anestésicos diários. Eles estão trancados em algum lugar, realmente estudando e produzindo. Não há espaço para entretenimento vazio não vinculado ao seu foco de atuação.

Enquanto todo mundo está preocupado em ter uma vida que atenda às expectativas e demandas individuais mais urgentes, essas pessoas estão profundamente comprometidas com o que quer que tenham tomado para si como "missão". Seja compor, pintar, escrever, construir prédios, cuidar da saúde das pessoas, consertar sapatos ou, de uma forma mais ampla, oferecer benefícios aos seres.

É ridículo pensar que a verdade mais óbvia e importante nos venha apenas como uma frase que não desperta nada a não ser uma vaga noção de um evento tão remoto como se ele jamais fosse acontecer. Não existe esse tempo para perder desperdiçando nosso potencial criativo.

Perdoem o clichê, mas cada dia sem verdadeiramente oferecer ou aprimorar nossas qualidades, é um dia que não vai voltar. Isso significa que, seguindo da forma como a gente sempre faz, vamos chegar ao fim da linha e perceber que talvez seja tarde demais pra sequer pensar em tentar de novo.

A realidade é diferente do discurso colorido que a gente costuma ver escrito em blogs ou nas atualizações dos facebooks mais entusiasmados: vai chegar o momento em que não vai ser possível recomeçar.

Que todos nós possamos encontrar o sentido mais profundo das nossas vidas e perceber que a casa está pegando fogo. Não dá mais pra ficar deitado no sofá, assistindo televisão.

* * *

Nota do autor: por coincidência, esse vídeo, com narrativa do Carl Sagan, brotou na minha frente enquanto editava o texto. A combinação dessas imagens com a fala poderosa do cientista-cosmólogo-astrônomo-astrofísico-escritor, parecem oferecer exatamente o que eu sentia que precisava. Espero que também seja útil pra você.

Link Youtube

"Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada "superestrela", cada "líder supremo", cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali - em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de submissão e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o "pálido ponto azul", o único lar que conhecemos até hoje." – Carl Sagan


publicado em 08 de Junho de 2014, 05:31
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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