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Você não precisa de mais disciplina | Pesadelos Criativos #6

Seu reservatório de força de vontade tem um limite e só dura um determinado tempo. Utilize-o com parcimônia.

Eu não vou mentir. Sou um ávido defensor da disciplina.

Realmente acredito que ela, quando bem aplicada, é o melhor caminho para quem está tentando sair da inércia. Afinal, quando você está paralizado e não sabe o que fazer, a solução, em geral, costuma ser simplesmente sair do lugar e fazer algo. O passo seguinte é fazer esse algo de maneira disciplinada, sistemática e direcionada.

Eu até já escrevi um artigo chamado “Cultive Disciplina”, baseado em um outro ótimo texto que traduzimos para o Papo de Homem, o “Foda-se a motivação, o que você precisa é disciplina”.

Há, no entanto, um porém. Todos nós já fizemos mil promessas de ano novo. Frequentar a academia, aprender um instrumento, fazer diários, estudar um idioma. Sabemos como é tentar inserir um novo hábito e falhar.

Quando pensamos nessas pequenas derrotas, aquela voz da culpa costuma sussurrar sibilante. “Você é um fracasso… quando você vai aprender a ser disciplinado?”

Parece que a solução é sempre mais disciplina.

Essa abordagem, com foco em objetivos claros e trabalho sistemático, às vezes ignora uma característica da nossa mente: nossos interesses flutuam muito. Ao longo de um ano tanta coisa acontece, tantas novas prioridades surgem que fica difícil manter o foco em apenas um conjunto de tarefas e hábitos que definimos meses atrás. É extremamente penoso continuar pensando na academia quando as contas estão vencendo, sua mãe fica doente, a firma está falindo e o emprego está por um fio. A realidade da vida é essa, a casa está pegando fogo, então, qual a necessidade de manter-se tomando uma xícara de bulletproof coffee diariamente às 8 da manhã?

Vocês não sabem o quanto eu gosto desse meme.

É essa exata pergunta que sua mente se faz todas as vezes que você tenta implantar um novo hábito e o mundo segue correndo ao seu redor. Qual é a importância disso aqui, afinal?

Hábitos que não são vistos como importantes, são eliminados automaticamente. Seu corpo cria defesas contra eles. Você de repente não consegue levantar da cama a tempo, sente sono ou fome ou sede ou prefere ligar o Xbox a realizar aquele velho sonho de aprender a tocar guitarra. Até questões mais essenciais como ir ao trabalho acabam caindo nesse padrão.

Em um determinado momento, saber que aquilo é importante não basta mais e a disciplina desaparece totalmente em um fosso escuro e vazio.

Ainda que em boas condições de pressão e temperatura, quando tudo está bem para você, manter-se focado é extremamente desgastante. Basta observar como dificilmente passamos de algumas semanas tentando implantar um novo hábito. Em geral, tendemos a um certo patamar, tanto no objeto do foco da nossa mente como no nosso nível de disciplina. Chega um determinado ponto no qual você não consegue mais manter o elevado consumo de energia que aumentar o foco toma.

Em termos de esforço mental, a situação seria semelhante a correr uma maratona eterna. Quando temos uma linha de chegada clara, podemos nos consolar contando quanto ainda falta para terminar. Porém, da maneira usual como tratamos a questão, não temos esse recurso. A vontade é de desistir, afinal, qual o ponto? Sofrer para sempre?

Nesse sentido, determinar sprints de disciplina pode ser uma abordagem mais efetiva. Ao invés de tentar ser disciplinado para sempre, você pode determinar um prazo factível mais ou menos curto (estipular um ano inteiro tem grandes chances de cair na seara da maratona eterna). Assim, você mantém a energia em alta até o fim do processo, pode determinar um descanso e então tenta mais uma vez. Eu aprendi que sprints de um mês funcionam bem pra mim, por exemplo.

Essa abordagem também é positiva em caso de deslizes. Afinal, seu processo está decupado em pequenos períodos, assim, quando inicia-se um novo mês, você já pode reiniciar sua tentativa de cumprir seu objetivo.

Além disso, não adianta tentar ser disciplinado em tudo ao mesmo tempo. Quanto mais rígida a sua agenda e quanto mais apertado for o seu cronograma, mais energia você consome. Há, claro, diferentes níveis de conforto, dependendo do desenvolvimento do foco de atenção de cada um. Porém, isso não muda o fato de que todos nós temos uma quantidade limitada de energia para aplicar.

Nesse ponto, acredito que o aspecto da motivação torna-se essencial, não como motor, mas como crivo. Sentindo em seus ossos exatamente para onde você quer caminhar, fica mais fácil determinar o que não fazer. Assim, você guarda espaço mental e energia para o que realmente importa.

Em geral, não precisamos de mais disciplina do que já temos. Acordamos todos os dias, tomamos decisões e repetimos ações com pouquíssimo esforço. Porém, muito do que fazemos não está alinhado com o que aspiramos de verdade.

A vida é repleta de possibilidades. Infinitas.

A tentação de fazer tudo, tentar tudo, é grande. Afinal, temos mil ferramentas ao alcance da mão que nos mostram o quanto todo mundo está criando mil projetos melhores que os nossos, aproveitando a vida muito mais do que nós, tendo experiências que nunca teremos e que estamos sendo idiotas ao perdê-las. Mas é impossível vencer essa corrida de ratos. Não dá.

Tendo um foco claro, ou seja, uma motivação bem delineada, é possível escolher para onde direcionar a sua disciplina o suficiente para tornar algo possível, sem esforços extenuantes que, lá na frente, vão minar a sua força de vontade e mais atrapalhar do que ajudar.

Portanto, quando falo em ser menos disciplinado, não quero dizer pra você largar tudo e seguir mudando de foco ao sabor de qualquer vontade que surgir. Não ser capaz de fazer aquilo que faz bem para si próprio e para os outros é, também, um tipo de prisão. Disciplina, em última instância, é uma ferramenta de libertação. Afinal, quer mais liberdade do que ser capaz de determinar algo para si e conseguir ultrapassar a limitação dos próprios impulsos em prol de um objetivo ou benefício maior?

O que eu sugiro, sim, é utilizar a quantidade de disciplina que você já possui, de maneira inteligente, o suficiente para atingir uma linha de chegada específica e durante um tempo limitado. Mas mais do que isso, sugiro um pouco de carinho consigo mesmo. Você tem limitações que transcendem o pensamento objetivo. Não importa o quanto esteja determinado, o corpo pede descanso, boa comida, bom sono, boas relações, afeto, etc.

Há certas coisas que não precisam ter dia e hora para começar e acabar. Às vezes, tudo o que você vai precisar é de uma tarde relaxando, jogando o seu videogame e vendo um filme com quem você ama.

* * *

Nota do autor: esse texto também rolou lá no meu Medium. Se gostou do que leu, acompanha por lá.


publicado em 04 de Fevereiro de 2018, 14:31
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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