Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

A maior não-entrevista da minha vida

Como o destino pode ser traiçoeiro com um jovem repórter

Nota editorial: esse texto faz parte de nosso conteúdo especial de hoje em celebração ao Dia do Rock, 13/07.


Foi no meio de uma tarde de agosto que o telefone tocou no hall de entrada do prédio onde eu morava no noroeste de Londres. 

Imaginei que fosse a confirmação do táxi que havia pedido minutos antes. Senti um calafrio quando a voz que conhecia tão bem perguntou por mim e se identificou. Não tive dúvida. Era o próprio John Peel, o lendário DJ da rádio BBC. O cara que por mais de três décadas alavancou a carreira de grandes astros do rock. 

John Peel

Pense em algum deles: é quase certo que só começou a bombar depois de receber a benção do radialista.

Fazia mais de um ano que eu esperava um contato dele. Na verdade já tinha até esquecido. E naquele momento só consegui pensar numa coisa: não é possível que ele esteja me ligando exatamente hoje, exatamente agora. Mal consegui ouvi-lo. 

Disse apenas algo como: “você não faz ideia de como me estou me sentindo, John. Eu queria muito entrevistá-lo, mas hoje não vai ser possível”. 

Nem hoje nem nunca mais, previ ao me despedir com um terrível senso de frustração.

* * *

O ano era 1987. 

Eu, jornalista free-lancer, gastava quase todo o dinheiro em música. 

Basicamente shows, revistas especializadas e discos de vinil – o CD era uma invenção recente. No rádio era só a BBC1. Ouvia e gravava em fitas cassete o programa diário de John. 

Depois editava tudo no equipamento "double deck" comprado de segunda mão. Ainda guardo algumas no fundo da gaveta. Naqueles dias, elas eram a trilha sonora do meu walk-man.

Tinha chegado a Londres no ano anterior com dois objetivos: aprender inglês e ver de perto minhas bandas favoritas. 

Já tinha ouvido falar do radialista responsável pelo sucesso de muitas delas. Mas ainda não tinha noção do tamanho da importância dele para o pop. 

As célebres Peel Sessions, gravadas nos estúdios da BBC, eram uma espécie de passaporte diplomático para o sucesso – só alguns mortais tinham acesso. No Youtube você encontra várias delas. 

Indico esta, dos Smiths, produzida em 1983: 

Ao saber mais sobre John e me tornar um ouvinte fiel, decidi que tentaria entrevistá-lo. Mas como chegar até ele? 

John era extremamente reservado. Recebia zilhares de cartas com “demos” de aspirantes ao estrelato. E atuava numa emissora gigantesca onde o foca aqui não conhecia ninguém. Sem internet ou celular, minhas chances eram mínimas.

Até que arrumei emprego na cozinha de um café. E lá brilhou a estrela que só acompanha os repórteres mais persistentes. 

Descobri que uma das garçonetes era filha de um funcionário graduado da BBC. Ela ajudou a arquitetar o plano: o pai entregaria pessoalmente a John ou a algum produtor do programa uma carta com o pedido de entrevista.

Estava confiante. Achei que John gostaria de falar pela primeira vez a um veículo de imprensa brasileiro. Ele era um tanto eclético no repertório musical – transitava com naturalidade entre o punk, o reggae e a world music – e certamente tinha referências sobre o Brasil.

Como única credencial, anexei à carta um bilhete escrito à mão que poderia chamar a atenção dele. A ideia foi do meu vizinho Bill Fitch, que, como John, nasceu nos arredores de Liverpool. 

Bill me convenceu de que uma mensagem curta e grossa de apresentação seria um cartão de visita certeiro para um liverpooliano. Em três linhas de gírias, ele basicamente me descreveu como um jornalista cara-de-pau e impostor.

John Peel e sua esposa

Tudo indica que Bill estava certo. Menos pelo meu caráter e mais pela assertividade da mensagem. 

Meses depois, naquela tarde de verão londrino, ele estava ao meu lado quando John me ligou. Sorriu ao perceber de quem se travava. E de certa forma dividiu comigo o sentimento de frustração. Afinal, estávamos ali justamente esperando o táxi que me levaria de mala e cuia ao aeroporto. 

Era a minha viagem de volta ao Brasil.

* * *

Quase duas décadas depois, em 2004, rebobinei toda essa história quando soube da morte repentina de John, aos 65 anos. Sofreu um infarto durante as férias no Peru. Sem um toca-fitas pra ouvir as velhas fitas, recorri à internet. Ainda bem que tem muito material sobre ele – incluindo o belo memorial fundado pela viúva.

Aproveite: é muito mais interessante do que qualquer entrevista que eu teria feito.


publicado em 13 de Julho de 2015, 15:13
Mario rezende

Mario Rezende

Não sou escritor. Sou jornalista. Portanto escrevo e conto histórias. Trabalhei mais de 20 anos em TV. Hoje produzo conteúdo para empresas.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura