A melhor defesa pessoal

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Treino artes marciais há 18 anos e sou professor do estilo Wing Chun desde 2004. As artes marciais já fazem parte da minha vida há um bom tempo e, por isso, alguns amigos às vezes me perguntam coisas relativas ao assunto. Um deles veio até mim, pedindo para que eu falasse de defesa pessoal em sua empresa.

Naquele momento, comentei com ele que não me sentia confortável para falar sobre o assunto, pois eu mesmo não acredito muito no termo, da forma como vejo sendo usado atualmente. Sinto que a abordagem normalmente usada é de que se você treinar bastante, vai se tornar uma espécie de super-homem preparado para qualquer situação. Eu acho isso bastante arriscado, pois a realidade não é bem assim.

Quando eu era criança, antes de praticar artes marciais, costumava ser bastante nervoso. Era comum que garotos maiores que eu viessem me provocar e, como eu não aguentava lutar com eles, chegava a perder a calma e chorar de raiva. Apanhei bastante até tomar a medida de andar com uma faca escondida, para ter alguma vantagem nesses confrontos. Depois disso, de fato, eu me sentia mais protegido, pois as pessoas corriam sempre que descobriam que eu tinha a tal faca.

Em seguida, iniciei minha prática de artes marciais, o que me deu um pouco mais de habilidade para a briga em si. Eu não precisava mais da faca, porém, seguia tão frágil quanto antes. Internamente, eu continuava sentindo muita raiva e reagindo aos meus impulsos violentos.

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Importante frisar que, sim, as artes marciais trouxeram alguns avanços na minha capacidade de lidar com confrontos, com a raiva e a impulsividade. Mas não sinto que eu fui na raiz do problema. A impressão que me dá é que eu apenas tinha me tornado um bom ator, capaz de guardar a raiva e simular uma capa de tranquilidade.

Durante 16 anos, eu fui esse ator. Eventualmente, acabei encontrando um método de treinamento da mente, que se mostrou eficiente em me ajudar a lidar com esses aspectos internos.

Essa minha experiência brigando na rua e, posteriormente, me aprofundando em um percurso de técnica e treino de artes marciais me mostrou que existe um abismo entre o ambiente protegido das aulas de defesa pessoal e uma situação de perigo real.

Não é uma questão de qualidade da técnica. Não quero dizer, com isso, que as aulas de defesa pessoal não sirvam pra nada. É melhor saber alguma coisa do que não saber coisa alguma. Porém, esse treinamento é limitado. Você não vai saber, por exemplo, o que fazer com a descarga de adrenalina de uma situação real e o brotar do medo, raiva, ansiedade, entre outras emoções perturbadoras que acabam conduzindo a ações responsivas.

Isso é algo que está além da técnica. Pois, por mais bem treinado que você esteja, num confronto real, qualquer movimento mal-pensado, feito por impulso ou na hora errada pode ser a sua sentença de morte.

Daí, a importância de entrar, também, em um processo de conhecer o funcionamento dessas emoções.

Eu, quando iniciei meu caminho de treinamento de mente, entrei em contato com essa citação que, de certa forma, pode ser vista como uma boa descrição do funcionamento da mente em um momento de confronto.

“Qualquer emoção pode surgir apenas como um minúsculo pensamento ou sentimento, que depois cresce cada vez mais forte. Se você puder reconhecer esse pensamento no exato instante em que ele surge, será fácil deixá-lo se acalmar de novo. Uma emoção reconhecida nesse estágio é como um pequeno emaranhado de nuvens em um céu limpo e vazio, que não vai produzir nenhuma chuva. Se, por outro lado, você permanecer inconsciente de tais pensamentos e deixá-los se expandir e multiplicar, rapidamente haverá uma sucessão de pensamentos e sentimentos, cada um aumentando o anterior, e você vai achar cada vez mais difícil não apenas interromper a construção dessa emoção como também de impedir as ações negativas que ela pode induzir.” –Dilgo Khyentse Rinpoche

Talvez, o ideal seja encontrar esse ponto de estabilidade no qual você consiga manejar a situação de tal forma que não seja necessário fazer uso de alguma técnica de luta. Porém, se for inevitável, que você consiga agir com um certo nível de consciência onde não está respondendo aos impulsos emocionais de maneira automática.

E isso, provavelmente, seria a coisa que mais protegeria você em uma situação de perigo.


publicado em 04 de Abril de 2014, 21:01
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Gil Eanes Vivekananda

Pratica artes marciais desde os 14 anos, é instrutor (Dai Si Hing) de Wing Chun e Eskrima pela proWES – instituição fundada por seu professor, Sifu Cemil Uylukçu. Oferece aulas em Joinville/SC e viaja regularmente pelo Brasil para treinar grupos de alunos e instrutores.


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