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“Ah, mas você não torce sério, né?": A saga de quem torce pra times menores

A vida de quem não joga bem, torce para um time menor e ainda assim ama o esporte com a bola nos pés

Nunca gostei de janeiro. Nada contra o verão, mas passar trinta dias sem futebol é algo difícil de lidar. Em dezembro, a falta da bola rolando passa despercebida, afinal há o clímax do fim dos campeonatos. E, francamente, com tantas festas e feriados é mais fácil ignorar que algo importante está faltando. Mas em janeiro a coisa fica bem mais complicada.

Desde pequeno, lido com isso da mesma forma: um misto de leituras intensas sobre o mercado da bola e um olhar atento para a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Que só é o que é – uma espécie de adesivo de nicotina dos torcedores para crises de abstinência – porque ocorre em janeiro. Se fosse em qualquer outro mês, quando há outros campeonatos, a copinha teria, infelizmente, uma importância muito menor.

Legal... mas ainda não é o que é pra ser

Eu não jogo futebol. Desisti disso há mais de uma década, quando me dei conta, bem, quando me dei conta de que eu era muito ruim com uma bola nos pés. Péssimo. Na infância, eu só estava entre os primeiros a serem escolhidos para determinado time quando ainda não tinham me visto em campo e a escolha era na base da amizade. Mas, com alguns minutos de bola rolando, ficava claro que eu tinha sido uma escolha terrível. E a partir daí, ninguém me queria mais no seu time.   

Não que isso me incomode. Para mim, futebol é na arquibancada. Gritando, cantando, roendo unhas, pulando de alegria ou sendo incapaz de falar. Já basta, é emoção para uma vida inteira em 90 minutos. Eu acordo com um nó na garganta e com um incômodo na barriga todo dia que meu time vai entrar em campo, não importa se é amistoso ou jogo importante. Acordei assim hoje.

E já nem me lembro qual foi a última vez que deixei de estar no estádio no dia de uma partida, pelo menos não num dia em que eu estivesse em Belo Horizonte. Eu deixo de ir em campo, mas só quando eu estou fora da cidade – e, nesse caso, fico colado no radinho.

O irônico dessa história é que muita gente acha que eu não sou um torcedor sério. A primeira pessoa que me disse isso foi um professor, na quarta série. É que eu nasci numa cidade que quase pode ser dividida ao meio. Em BH, mesmo quem não gosta de futebol aprende, desde cedo, a responder a mesma pergunta: você é cruzeirense ou atleticano?

Nenhum dos dois, eu respondo desde sempre. Eu torço pro América. “Ahh, mas você não torce sério, né? Não tem como torcer de verdade para o América”. Eu só perdoei aquele professor porque tenho certeza que ele não entendia nada de futebol. Para quem gosta do esporte mais popular do mundo, uma vez que você escolheu uma camisa, é impossível não torcer. Não importa quantas derrotas digam o contrário.E, no meu caso, foram muitas. Vi meu time cair para a série B. Várias vezes. E cair para a C, para o Módulo dois do campeonato mineiro e ficar sem divisão nacional. Estava presente quando o América só não caiu para a série D por conta de uma combinação surreal de resultados, na última rodada.

Também acompanhei alguns títulos, goleadas a nosso favor e momentos gloriosos, claro. Vibrei enlouquecidamente com campeonatos estaduais, regionais e com vários acessos em sequência, na ressurreição do América, do Módulo dois do mineiro para a série A do brasileiro, que disputamos no ano passado.

Neste ano, vejo meu time ser líder da B; no ano passado sofri, jogo a jogo, com a lanterna da A. Mas, por mais que eu goste das vitórias, no fim, o resultado não vai afetar meu comportamento: em dia de jogo estarei na Rua Pitangui, em frente ao Independência, comerei um tropeiro, tomarei uma ou duas cervejas e entrarei no estádio. Nervoso a ponto do corpo gelar.  

Acho graça de quem não entende como eu posso torcer de forma tão intensa para um time que não está todo ano na ponta da tabela, disputando títulos. Para mim, futebol é família, um membro importante dela, sempre mencionado nos almoços de domingo. Quase que uma pessoa, alguém que nos dá muitas alegrias, algumas das mais importantes da vida, e com quem temos um monte de memórias em conjunto, mas que também pode nos dar tristezas e nos decepcionar. E, não importa o que ela faça, nossa única opção é amar e torcer a favor.

Não torço só por causa de títulos, vitórias ou taças, por mais que eu goste de tudo isso e sonhe com glórias ainda não alcançadas. Na realidade, eu torço porque não tenho escolha e nem quero. Na minha vida, futebol não é divertimento, lazer ou arte, por mais que muitos tentem transformá-lo em coisas mais simples. Não é o tipo de coisa que você abandona se ficar ruim. Simplesmente não dá para fazer isso.

A maioria dos torcedores pode até falar que vai largar o time, frase típica das derrotas mais sofridas, mas, esse é o ponto, nunca realmente o faz. No meu caso, o pior momento foi em 2010, ano em que o América disputava a série B (tínhamos subido da C no ano anterior). Com as obras da Copa, o Independência, o estádio do América, e o Mineirão estavam fechados para reforma. Com isso, os times de BH tiveram que mandar seus jogos na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, a 90 quilômetros da capital mineira. Todo jogo em casa envolvia uma viagem.

A Arena Jacaré

O problema não foi a distância. Também não foi a chuva. E nem a hora ridícula para um jogo de futebol, às 21h50 de um dia de semana e num estádio a 90 quilômetros da casa dos torcedores. O problema foi o Athirson ter marcado o terceiro gol da Portuguesa, virando o jogo no último minuto. O América, que tinha um jogador a mais em campo, ganhava a partida até os 35 do segundo tempo, mas tomou a virada em 10 minutos.

Com frio, cansado, com uma longa viagem pela frente até meu colchão e a obrigação de acordar muito cedo no dia seguinte para ir ao trabalho, eu jurei que não voltaria mais. Eu e os outros torcedores (loucos?) que pagaram para assistir aquela partida. Mas, passada a raiva, no jogo seguinte todo mundo estava lá de novo. Eu fui. E 2010 acabou se mostrando um ano bom: subimos para a série A.

Também me lembro de como tudo isso começou. Aos sete anos, fui com meu pai num jogo do América contra o Atlético, pelo campeonato mineiro. Perdemos. E ali, no meio daquele sofrimento típico das derrotas, da frustração dos jogos que você tem certeza que poderiam ter terminado de outra forma, eu ganhei um time. Como Nick Hornby escreveu em Febre de Bola, “Eu me apaixonei pelo futebol do mesmo jeito que me apaixonaria mais tarde pelas mulheres: repentinamente e inexplicavelmente, desprovido de qualquer senso crítico e sem me importar com as consequências”.

O próprio Hornby chega a discutir o papel do futebol na formação de crianças: ele foi levado para o campo pelo pai, após um divórcio traumático que separou a família, numa tentativa de ter algum contato com o filho. O curioso é que o escritor tem uma irmã, que não ia a campo com os dois, afinal estádio não era lugar para mulheres, pelo menos não no final dos anos 60. Hoje felizmente a coisa melhorou um pouco e já percebemos muitas mulheres, de crianças a avós, nas arquibancadas.

Torço não apenas pela evolução nas arquibancadas, com o dia em que superaremos algumas coisas básicas e que infelizmente ainda aparecem no futebol. Como músicas e ações preconceituosas e o incentivo a uma violência sem sentido e que, essa sim, é realmente capaz de afastar torcedores dos estádios.  

Mas também torço por mudanças em campo: espero ver meu time disputar competições importantes também de futebol feminino - é uma vergonha que o esporte mais popular do planeta dê tão pouco espaço para mulheres. Além disso, teríamos o dobro de oportunidades para ir ao estádio.

Parece que isso vai começar a ocorrer em breve, com todos os times comprometidos em manter também equipes femininas. Só deixo uma sugestão: que os campeonatos, dos times masculinos e femininos, nunca sejam interrompidos ao mesmo tempo. Seria o fim dos janeiros sem futebol.


publicado em 29 de Agosto de 2017, 09:30
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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