Como aprendi a dançar

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Dançando.

Essa é a primeira resposta que aparece. Apesar de verdadeira, não é completa.

Cada vez mais pessoas estão descobrindo o sabor da dança de salão, voltando a se conectar, a ficar próximas, a se experimentar.

Mas tem uma coisa que muitas vezes sinto falta. Elas não estão dançando a música.

Há alguns anos fui arrastado para um bar latino por dois amigos, um peruano e um colombiano. Não gostava de salsa, não gostava de espanhol, e não gostava de cerveja. Meu esquema era cuba libre e indie rock!

Como todos tomavam cerveja, resolvi encarar. Como todos dançavam salsa, resolvi arriscar. Como ninguém pisava nos pés das moças, resolvi eu pisar. Foi um caos. Um caos divertido.

Fim de noite. Meias danças, várias garrafas e muitas risadas depois, era hora de voltar pra casa. Antes disso, meu amigo vem em minha direção e me entrega algo:

- O que é isso?

- Salsa. Ouça todo dia, durante uma semana.

- Mas por quê?

- Porque antes de aprender a dançar, você precisa aprender a ouvir a música.

Foi assim que eu aprendi a dançar. Aprendendo a ouvir.

O que vejo hoje são muitos experts em movimentos corporais compassados, mas que não necessariamente acompanham a toada da música.

Os homens principalmente acham que saber dançar é saber executar passos. Ledo engano. Saber dançar é saber conduzir a mulher nas curvas sinuosas de uma boa música. É saber surpreender, arriscar, ser inusitado. O inverso dos outros: é saber parar.

É assim que ela te diz que você está ouvindo.
É assim que ela te diz que você está ouvindo.

Não há passo mais firme e imponente que o não-movimento. O não-passo. A pausa.

Quando tudo leva a crer que você vai caminhar, puxar, rodar ou girar a dama, você para.

Ela, surpresa, não sabe o que vai acontecer. E sabe que não adianta adivinhar. Só resta a ela se entregar.

E se entrega, porque sabe que você está ouvindo, sentindo, liderando. Ela pode fechar os olhos e se deixar conduzir. Até a música acabar. Ou um pouco mais além.

Me disseram certa vez, "música é o espaço que existe entre as notas".

É nesse espaço que o homem coloca sua pausa.

E só consegue isso quem ouve a música.


publicado em 07 de Dezembro de 2011, 11:14
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Rafael Peron

Acha que mini-biografias são difíceis, mas ouvindo Marvin Gaye dá pra encarar. Quando tem problemas, gosta de olhar para o céu e dizer "rá". Quando tem alegrias, também. Do samba à salsa, prefere conversa de bar à escrever. Exceto desta vez.


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