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Como as histórias funcionam: Paradigma

Nota do editor: esse artigo usa, para exemplificações, trecho s de histórias dos filmes Os Vingadores (2012), Tropa de Elite (2007), O Rei Leão (1994) e O Poderoso Chefão (1972), além da série Game of Thrones (2011), especificamente o enredo de Ned Stark na primeira temporada. Se você não assistiu esses filmes ou a primeira temporada da série, pode encontrar spoilers. Se já viu isso tudo, pode mandar bala.

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Se eu pedisse para que você me contasse uma história, como isso se daria? Provavelmente começaria do princípio, que é apresentar o mundo da história:

"Era uma vez numa terra muito distante..."

E ao personagem principal da história:

"... uma princesa linda, independente e cheia de autoestima."

Talvez a um personagem secundário, seja ele antagonista ou não:

"Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico".

Depois de apresentados os elementos essenciais da história, você então passaria para o meio, que é, como aprendemos nas aulas de redação, o desenvolvimento:

"Então a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito; uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me neste anfíbio asqueroso; um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo; a tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre".

O meio de uma história costuma apresentar um conflito (ou vários). Nesse caso, a princesa, sempre em busca de um príncipe encantado pelo qual ela se apaixone e case e tenha mil filhos, encontra um sapo que diz que é o seu príncipe encantado, só que no corpo de uma rã. O conflito é: acreditar na rã, beijar sua boca nojenta e ver surgir um príncipe ou deixar tudo como está?

Depois da apresentação desse conflito, chegamos ao final, que é a resolução do conflito e da história.

"Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma: - Eu, hein?... nem morta!"

Bem, pelo menos seria assim que Luiz Fernando Veríssimo me contaria uma história.

Histórias são contadas há milênios, desde quando os homens das cavernas se sentavam ao redor de uma fogueira, passando pela literatura e pelos teatros da Grécia, os menestréis medievais, chegando ao rádio, televisão, cinema mudo, quadrinhos e, mais recentemente, o cinema 3D.

Mesmo contadas das mais variadas formas, por diversas culturas nos lugares mais distantes, todas as histórias possuem, em maior ou menor grau, uma mesma estrutura, que foi denominada Paradigma, termo cunhado por Syd Field e que designa uma estrutura -- no caso de um roteiro, por exemplo -- firme pela qual a história vai se desenvolver. Esse esqueleto é que vai guiar toda a trama, como mostrado abaixo.

O Paradigma tem por base o ensinamento de Aristóteles, na obra Poéticas: “Todo é o que tem princípio, meio e fim”. A sentença, apesar de óbvia, tem o seu poder. Tudo o que produzimos têm início, meio e fim, bem como nossa própria vida e a maioria das coisas à nossa volta.

A história é uma metáfora para a vida, contada sem as partes chatas.

Princípio, meio e fim tornam-se os componentes básicos da estrutura de uma história, os Atos. Por ora, basta compreender que cada Ato corresponde a um dos momentos definidos por Aristóteles. Uma história pode ter vários Atos -- como Shakespeare, que costuma apresentar cinco --, mas o cenário mais comum, abordado no Paradigma, é composto por três:

Princípio: Ato Um -- Apresentação

"Olá. Eu vim aqui para te contar um pouco sobre a iniciativa Avengers"
"Olá. Eu vim aqui para te contar um pouco sobre a iniciativa Avengers"

Aqui a história é apresentada: seu assunto, a motivação do(s) personagem(ns), o contexto, o incidente incitante. Tenhamos por base alguns exemplos:

Após o roubo do Tesseract, vemos Nick Fury recrutar os heróis em Os Vingadores. São apresentadas as realidades de cada um deles, até se unirem graças ao perigo representado por Loki.

Em O Poderoso Chefão, conhecemos a família Corleone, um pouco da essência de Don Vito, como funcionava a dinâmica da família. Temos o incidente incitante, que é a reunião entre Don Corleone e Sollozzo, sobre a chegada dos narcóticos aos negócios, e o erro cometido por Sonny ao deixar escapar os seus pensamentos para alguém que não era da família.

"Eu tenho uma fraqueza sentimental pelos meus filhos e os mimo, como você pode ver. Eles falam quando deveriam ouvir.”

Em O Rei Leão, temos a apresentação dos personagens – Mufasa, o rei; Simba, o príncipe e protagonista; Scar, o irmão invejoso.

Tropa de Elite já começa com o tiroteio no morro da Babilônia, e então retorna para a apresentação do incidente incitante -- a reunião do BOPE que comunica a missão de pacificar o morro do Turano para a vinda do Papa, que desespera o Capitão Nascimento por conta da proximidade com o nascimento de seu filho --, dos personagens e seus contextos, Capitão Nascimento, Matias e Neto.

O primeiro ato se desenvolve até que algo ocorra ao protagonista ou seja causado por ele, que reverte a história em outra direção.

Como ocorre essa reversão? Bem, geralmente com uma cena forte, de acordo com os desejos do protagonista (ou contrários a ele). Em Os Vingadores, Loki invade uma festa na Alemanha, ocasionando a primeira aparição conjunta de heróis. Em O Rei Leão, é a morte de Mufasa. Em O Poderoso Chefão, a apresentação e os movimentos iniciados pelo incidente incitante culminam na tentativa de assassinato de Don Vito Corleone. Tropa de Elite volta à cena do tiroteio na Babilônia, dessa vez completa. É de onde Neto e Matias entrarão no curso do BOPE.

Meio: Ato Dois -- Confrontação

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Esse ato se guia pela necessidade dramática, que significa tudo aquilo que o personagem quer vencer, ganhar, ter ou alcançar.

É a unidade dramática (ou bloco, se preferir) em que o personagem principal enfrenta obstáculo após obstáculo, que o impedem de alcançar sua necessidade dramática. Toda história é impulsionada por uma necessidade dramática do protagonista, que é barrada, constantemente, por percalços.

No caso de Simba, um conflito interno, aparentemente perpétuo, vindo da culpa pela morte do pai.

O ato dois se baseia no pressuposto de complicar. Complicar significa, resumidamente, tornar a vida dos personagens difícil. Mas não é só isso. Deve-se complicar progressivamente, cada cena sendo mais difícil do que a anterior. Essas progressões ocorrem quando os personagens são colocados em um risco cada vez maior, exigindo cada vez mais força de vontade ou inteligência ou outra característica de destaque.

Capitão Nascimento, enquanto se diverte com recrutas que desistem ao longo do curso do BOPE, vive a confrontação da escolha por um substituto. Ele não pode deixar alguém incapaz em seu lugar, mas precisa de um substituto definitivamente.

Em O Poderoso Chefão, a tentativa de morte de Don Vito no hospital acaba levando Michael a matar Solozzo e o policial corrupto.

Em Os Vingadores, a captura de Loki e o seu plano de “liberar o Hulk” no “porta-aviões voador” da S.H.I.E.L.D., com os conflitos entre os heróis ao longo da trama (Homem de Ferro e Capitão América, estes e Bruce Banner com os segredos de Fury, o mistério do objetivo do Tesseract).

Essa unidade se desenvolve até o limite do conflito, que é quando, mais uma vez, algo ocorre ao protagonista ou é causado por ele, revertendo a história em outra direção.

Em O Poderoso Chefão, a morte de Sonny leva à reunião entre as grandes famílias, convocada por Don Vito, para garantir o retorno de Michael à América. Em Tropa de Elite, é a morte de Neto, após ser emboscado na favela. Em O Rei Leão, é o fim que é dado ao conflito interno de Simba com a aparição do fantasma de Mufasa. Em Os Vingadores, é a morte do Agente Coulson, que dá a motivação que Fury tanto precisava para que os nossos heróis se unissem contra Loki.

Fim: Ato Três -- Resolução

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É nessa unidade dramática que o protagonista consegue (ou não) alcançar sua necessidade dramática. É o conflito final, a resolução de toda uma história.

Uma história é uma jornada e o final é destino. Essa condição final, essa última mudança, deve ser absoluta e irreversível, além de ser clara e autoevidente, não exigindo explicações. Diálogo ou narração, com o intuito de explicar, é chato e redundante.

Não é porque esse último bloco é o da resolução que não existe conflito. Em Os Vingadores, após o fim do segundo ato é que ocorre a batalha de Nova York, em que os heróis lutam bravamente e sofrem com o alto número de soldados do outro lado; até que o Hulk aparece. Em O Poderoso Chefão, Michael se torna o Don Corleone e planeja com Don Vito a vingança pela morte de Santino, o assassinato dos chefes e pessoas chaves das outras famílias, e as mudanças da família Corleone. O ato -- e, consequentemente, o filme -- termina com Michael se tornando padrinho e consolidando o título de Don, ao mesmo tempo em que os assassinatos ocorrem.

Em O Rei Leão, Simba retorna às terras do rei e a encontra dizimada, controlada por Scar e as hienas. O final do ato é a luta entre Simba e Scar, e a vitória daquele, que assume seu lugar como rei da Pedra do Rei. Já o Capitão Nascimento tem em Matias sua única esperança de substituto, e na vingança contra Baiano, a resolução para esse conflito. Na última cena, ele dá a Matias a vingança desejada, resolvendo assim o seu problema (até que o filme 2 aparecesse para desmentir).

As histórias podem adquirir formas diferentes, compreender mais Atos, mas o Paradigma é um excelente ponto de partida para uma maior compreensão sobre as mesmas. O design em três atos é o mínimo.

Um último exemplo de uma história famosa atualmente e que engloba o Paradigma.

Game of Thrones é complexo porque possui muitos (ou nenhum) protagonistas, muitas tramas, todas entrelaçadas. Mas podemos pegar como base Ned Stark, personagem da primeira temporada.

O ato um começa com a apresentação. Descobrimos quem é Ned Stark -- senhor de Winterfell -- e quem são seus filhos, sua esposa etc. Tudo se inicia quando Robert Baratheon, o Rei, aparece e pede para que Ned seja a Mão do Rei; esse é o incidente incitante. Não entraremos em detalhes sobre as outras tramas (Catelyn, Tyrion, Jon, Bran, nem mais ninguém). Vamos manter a complexidade no mínimo.

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No ato um, como parte da apresentação, também descobrimos a situação que envolve o incidente incitante: Lysa, irmã da esposa de Ned, acusa os Lannisters de terem matado Jon Arryn, antiga mão do rei e quase como um pai tanto para Ned quanto para o Rei, Robert. A esposa do rei é uma Lannister e Ned quer agora descobrir a verdade e proteger seu melhor amigo.

O ato um termina quando, após a carta da irmã de sua esposa, e os temores acerca dos Lannisters, Ned resolve aceitar o pedido do rei e parte para Porto Real. Ou seja, com a situação envolvendo o pedido de Robert, a história é revertida em outra direção.

O ato dois é recheado de conflitos. Muitos mesmo. É um exemplo das complicações progressivas que disse no início do artigo. Ele chega em Porto Real e decide falar com o antigo escudeiro de Jon, ex-Mão do Rei. Antes de conseguir, este morre. Depois, Tyrion, do clã Lannister, é sequestrado. Ned descobre a verdade sobre os filhos do rei, confronta a rainha, sofre um grave ferimento em um confronto com Jaime, irmão gêmeo da rainha.

As coisas chegam ao ápice quando o rei, em seu leito de morte, deixa Ned como protetor e regente em seu nome, até que Joffrey, seu “filho”, esteja apto a governar. Mas Ned, em nome da honra, comete erros atrás de erros, e acaba sendo traído por Mindinho e é preso por traição. Esse é o fim do ato dois. Mais uma vez, ocorre algo ao protagonista (nesse caso, também é causado por ele) que reverte a história em outra direção. No caso, na história como um todo, pois o Norte se rebela, Renly se declara rei, guerras começam em todos os cantos dos Sete Reinos.

O ato três é ele na prisão. Varys, a Aranha (o careca de voz engraçada), diz que Ned pode ser honrado e morrer por isso, mas até que ponto isso será válido se a vida de sua família estiver em risco? Ele então decide confessar seus crimes perante o reino. Mas Joffrey não é piedoso e manda o carrasco cortar sua cabeça.

Agora que já exploramos o Paradigma, lançamos um desafio: além dos filmes em que quiserem projetar o modelo, que tal tentar encaixá-lo a uma série? Descrevê-la sobre a estrutura do Paradigma? Aguardamos nos comentários.


publicado em 12 de Agosto de 2014, 04:00
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Nicholas Nogueira

Carioca de Aquário, estudante de Direito, 23 anos e escritor de um romance que nunca chega ao fim. Escrevo no blog Além do Roteiro


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