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Conselhos a um machista em redenção

O diretor de conteúdo do PapodeHomem, Gustavo Gitti, nos fez o seguinte pedido:

 

"Eu, Gustavo Gitti, reconheço que diversas vezes penso, olho, falo, ajo influenciado pelo machismo, e trato as mulheres com preconceito e algum nível de inferiorização ou limitação.
Gostaria de entender como posso melhorar minhas ações e contribuir para cultivarmos um ambiente menos machista."

Abaixo, a resposta.

 

Caro Gustavo,

Mesmo quando bem intencionado, todo homem pode facilmente deslizar em comportamentos machistas. Não existem saídas fáceis ou pontos de chegada, mas podemos percorrer juntos algumas estradas. Para começar, existem algumas atitudes fundamentais.

Não é receita e não é modelo, tá? Há diversidade de anseios, desejos e comportamentos nas mulheres e também nos homens – em todas as pessoas. Com isso em mente, vamos às dicas para ajudar a formar os novos homens não-machistas.

 

1. Saia da postura defensiva

Quando falamos de machismo, não estamos reduzindo você ao seu machismo. Não é que você seja machista e nada mais. Reconhecemos que você também se comporta de forma atenciosa, inteligente, espirituosa. Cada um de nós é um mosaico.

 

2. Aceite abrir mão de privilégios

Faz parte da sociabilidade humana ceder, respeitar, reconhecer. "Quais privilégios?", você pode se perguntar. Desde ser melhor pago pelo mesmo trabalho que uma mulher, até avaliá-la e classificá-la pejorativamente pela sua disposição ou disponibilidade sexual. Se eu for de vestido curto para faculdade, se entrar embaixo do edredon com alguém num reality show, se pegar dois caras de uma mesma turma, o que me acontece?

Não interessa minha inteligência, meu senso de humor e nem minhas dicas de shows bacanas, nem se eu era de esquerda ou direita: a partir daquele momento eu sou a vadia, a puta, a biscate que não vale nada. E você? Quando você pegou duas mulheres na mesma noite, disseram o quê? Pois é. Privilégio é isso.

 

Não parece mas andar sozinho, à noite, por uma rua escura, também é um privilégio masculino.
Não parece, mas andar sozinho, à noite, por uma rua escura, também é um privilégio masculino.

 

3. Fique vigilante

Nossa sociedade é estruturada por valores machistas. O comportamento, a aprendizagem, o trabalho, o lazer, a sexualidade são naturalizados com base em estereótipos biológicos.

Mas o masculino e o feminino não são regras fixas, pré-determinadas, naturais. São conceitos construídos, fixados ao longo de séculos de formação cultural e reproduzidos diariamente. Será que você consegue enxergar as entrelinhas?

Exemplos:

 


  • Mulheres não foram sempre preocupadas com dietas, achando que sempre podem perder mais três quilos.

  • Não é biológico categorizar mulheres em dois grandes grupos: as putas e as decentes.

  • A cientista que passou anos estudando e descobriu a cura para uma doença terá que dar entrevista falando que sempre arruma um tempinho para pintar as unhas.

  • A presidenta, senadora, deputada ou vereadora será questionada em entrevistas sobre o que mais gosta de cozinhar.

  • A universitária que cursa engenharia mecatrônica terá que ouvir milhares de piadinhas sobre mulheres que não sabem ligar uma cafeteira.

  • Nenhum homem terá seu trabalho ou seu blog avaliado como “coisa de homenzinho”.


  •  

Essa banalização de papéis nos cega para as distinções cotidianas. É preciso “estar atento e forte” e reconhecer que todo mundo pisa na bola, que todos somos passíveis de engano, que vez ou outra o contexto cultural fala pela nossa boca.

 

4. Evite piadas sexistas

Nem homofóbicas. Nem racistas. Não ria de piadas assim. Observe a sua linguagem. Por exemplo: quando você fica com raiva de uma mulher – seja por um problema no trabalho, no trânsito etc – qual o primeiro xingamento que lhe ocorre? Você já chamou algum homem de “boi”, “galo”, “piranho”? Já reparou a diferença de conotação entre “vagabundo” e “vagabunda”? Evite usar palavras que trazem essa carga de sexismo.

Ah, mais uma: falar “o homem” no sentido de “a humanidade” (“O homem está pesquisando a cura de várias doenças”) também é um bom indício de pensamento sexista.

 

5. Não rotule

Reflita se suas conclusões vêm de sua relação individual com a pessoa ou se são baseadas em generalizações sociais. Pode causar estranheza ver uma mulher em ambientes considerados masculinos, como estádios de futebol, cursos de engenharia, etc, mas não tire conclusões precipitadas. Não presuma que ela está a fim do jogador ou quer aparecer. Muitas mulheres gostam de futebol, curtem matemática, são hábeis em situações que exigem lógica.

Comportamento não vem de fábrica. É item customizado. Cada mulher, assim como você, é um ser em construção e deve ser compreendida individualmente.

 

"Pense", um conselho que nunca sai de moda.
 

 

6. Pense

Desde Sócrates (o filósofo, não o meia), reconhecemos que uma das coisas que caracteriza nossa humanidade é a capacidade de refletir sobre a reflexão. Na dúvida, antes de fazer um julgamento, pergunte-se: e se fosse um homem naquela situação?

Se a resposta for a mesma, beleza. Se houver inquietação, alerta vermelho, comportamento machista à vista. E se fosse um homem andando sozinho na rua de madrugada? E se fosse um homem dirigindo? Jogando bola? Falando sobre leis da física? Cozinhando?

 

7. Observe e transforme o cotidiano

Repare no trabalho invisível que sobrecarrega as mulheres. Por que as mulheres é que levam as crianças ao médico? Por que elas é que comparecem às reuniões de pais na escola? Por que você lava a louça e se sente “ajudando em casa” e ela esfrega os azulejos do banheiro, engoma a roupa, arruma os armários quando se chega do mercado, coloca as roupas na máquina?

Repare nas obrigações e culpas invisíveis que exacerbam esta sobrecarga. Por que “quem pariu Mateus que balance”? Se você quer realmente mudar, Gustavo, faça o trabalho doméstico. Porque eu posso ficar horas nesse bla-bla-blá reflexivo, mas nós dois sabemos que na hora do pega pra capar (olha a linguagem sexista aí, gente – tá vendo, eu também piso no tomate) o que vale é ação refletida.

Então, faça o trabalho doméstico. Experimente a rotina dela: chegar em casa e ainda ter a faxina para cuidar, o supermercado para fazer, a roupa para lavar. Melhor do que ler e se informar sobre a dupla jornada de trabalho das mulheres é entender na prática o que isso significa. Se quiser dar mais realismo à experiência, peça a essa mulher que ao chegar em casa te pergunte o que tem pra jantar e reclame: “Frango, de novo?!”

Como você notou, tenho muito a dizer sobre isso. Continuamos a conversa nos comentários.

 

Capa do livro "Pornografia para mulheres". Será?
Capa do livro

Para entender mais, leia essa pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc: Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado.

* Um texto de autoria coletiva das Blogueiras Feministas. Organização e edição de Nessa Guedes e Bia Cardoso.

 

Debate sobre machismo no PdH

Esse é o segundo de uma série de artigos publicados em parceria entre o PapodeHomem e as Blogueiras Feministas

Além de responder à enquete abaixo e ler o primeiro texto do debate, você está convidado para seguir o papo nos comentários.

Mais de 1400 pessoas responderam até agora (veja o resultado parcial).


publicado em 27 de Julho de 2011, 05:08
Nessa guedes

Vanessa Guedes

Profissional de tecnologia, escritora e metaleira. Mora em Estocolmo e cria três gatos. Sempre feminista e curiosa.


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