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Dan Osman | Homens que você deveria conhecer #19

Medo. Todo mundo já passou por alguma situação em que se deparou com essa fascinante dinâmica.

Normalmente existem duas formas de reagir ao medo: nos retraímos ou sentimos uma explosão de euforia. Em perigo, sabemos que tudo pode acabar a qualquer instante. O cérebro dispara. A pressão arterial começa a subir, a cabeça fica pesada, o corpo aumenta a irrigação dos músculos e reduz a da pele. O calafrio surge. Os músculos se contraem chegando a tremer, enquanto seus pulmões se expandem e uma quantidade maior de ar começa a entrar.

Se a foto fosse até o chão, você nunca chegaria ao resto do post

Para entender Dan Osman, é preciso compreender essa sensação, ter vivido e sentido na pele essa sensação de euforia que sentimos quando somos expostos a uma situação de perigo. Este sentimento deve se manter presente durante todo o relato sobre a vida de Dan Osman. Ele mais do que ninguém gostava desta sensação e buscava isso da forma mais profunda e extrema, de uma forma que é até difícil de compreender.

Escalada livre (e veloz)

Dan Osman começou seu trajeto como escalador, e se tornou pioneiro em uma modalidade um pouco convencional, a escalada livre (free solo). Dan (ou Dano como seus amigos o chamavam) subia as mais altas e complexas paredes naturais sem utilizar nenhum tipo de corda ou equipamento. E não se contentava com o perigo da falta de equipamentos: ele também gostava de ir bem rápido.

Subindo em uma espécie de escalada de velocidade, seus movimentos precisavam ser rápidos e precisos. O estado de alerta e adrenalina eram altíssimos. Tudo deveria ser muito bem pensado. Qualquer erro em uma escalada livre pode ser fatal. Quanto mais alto Dan estava do topo, maior o grau de atenção, concentração e precisão necessários. Até chegar ao ponto em que não se pode mais errar, o momento em que se está a um passo do sucesso absoluto, ou do deslize mortal. Essa era sua vida.

Link YouTube | A 120 metros de subida em apenas 4 minutos (outros levam 4 horas)

Phantom Lord e a invenção da queda livre controlada

Toda a trajetória de Osman começa a mudar em 1989, em Cave Rock, Nevada (que ele chamava de Phantom Lord), durante uma escalada de dificuldade 5.13 – o nível mais alto atualmente é 5.15. Dan caiu 50 vezes enquanto tentava fixar um parafuso de ancoragem (chapeleta).

Osman percebeu que sua grande emoção não estava mais em escalar e sim na sensação do medo. Ele gostava mesmo era da queda. Seu interesse pela escalada já vinha diminuindo, algo fortalecido quando um grupo de franceses atravessou facilmente Phantom Lord por uma rota de dificuldade 5.14, sendo que Dan demorou um ano para concluir. Com sua paixão esfriando, precisava substituir a necessidade de aventura. Começou a experimentar algo completamente novo, a queda livre controlada.

Cave Rock, Phantom Lord

Dan começou brincando de lugares mais baixos. Fazia um sistema de ancoragem e se lançava do penhasco seguro apenas por uma corda convencional de escalar. Com o tempo Dan aumentou a complexidade do seu sistema de segurança e a altura dos saltos. brincadeira que tiraria sua vida. Toda a emoção da queda livre controlada era a forma com que o sistema de compensação funcionava, fazendo com que a velocidade de desaceleração fosse a mais abrupta possível e a sensação de choque com o chão a mais próxima possível da realidade.

O outro lado de Dan Osman

Depois de terminar a fase escolar, Osman largou tudo para passar uma temporada em um vale chamado Yosemite, muito popular entre os escaladores americanos. Levava uma vida totalmente alternativa, alheia as responsabilidades modernas e preocupações do cotidiano. Junto a amigos, Dan passava os dias escalando nas montanhas de Yosemite e durante noite se virava para dormir onde dava.

Como não tinha dinheiro, roubava o que precisava para comer e pagar pelo banho. Trabalhava apenas para conseguir o dinheiro necessário para manter seus equipamentos e continuar escalando. Dan quase não mantinha contato com o mundo externo, não costumava ligar nem enviar correspondências. Ao retornar a sua cidade, Osman e sua namorada tiveram uma filha, a quem deu o nome de Emma, mas logo em seguida se separaram. Apesar de toda sua distancia e irresponsabilidades, Osman sempre foi um pai presente para a filha, sem deixar que nada faltasse.

Dano não ganhava muito bem pela atividade que exercia e os riscos que corria. Gastava tudo que ganhava para pagar suas contas, e cuidar de sua filha, mas tinha uma quantidade enorme de multas, e outras contas que ele deixava para trás. Também precisava de dinheiro para pagar os hospitais que frequentemente visitava em casos de acidente. Mas Dan também deu um jeito para isso. Consultava-se com um médico e também escalador, que muitas vezes não cobrava, além de presentear Dan com equipamentos e acessórios que ganhava de seus patrocinadores.

Link YouTube | Saltando da Leaning Tower, em Yosemite (lugar que meses depois seria o sepultaria)

O último salto

Quando decidiu fazer os saltos com cordas, Dan Osman começou saltando da altura em que quedas normais de escalada aconteciam e que davam para ser sustentadas por equipamentos comuns de escalada. Conforme foi ganhando confiança, desenvolveu sistemas de ancoragens complexos para as cordas, de forma com que espalhassem melhor todo o impacto, possibilitando que ele conseguisse saltar de alturas que nunca ninguém se atreveu a saltar usando cordas de escalar.

Em outubro de 1998, enquanto se preparava para mais um salto rumo ao recorde que buscava tanto, o celular tocou. Sua filha Emma (na época com 12 anos) chorava dizendo que estava preocupada com ele. Dan avisou seus amigos que precisava ir embora, pegou seu caminhão e saiu para encontrá-la.

Dois dias depois quando voltou ao vale, Dan foi preso pelos policiais do parque. A prisão não tinha nada a ver com suas atividades arriscadas (algumas atividades como base jump eram proibidas no vale, mas eles saltavam escondidos) , mas com multas de trânsito vencidas, dirigir sem carteira e todas as coisas que Osman ignorava na vida cotidiana. Dan permaneceu 14 dias preso na cadeia de Yosemite. Enquanto isso sua família e amigos levantavam dinheiro para pagar a fiança de 22,5 mil dólares.

Ao sair da prisão, Dan foi passar um tempo com sua irmã e seu cunhado para ficar um pouco com a filha. Esse tempo fora o levou a certa reflexão, se convenceu que era hora de parar, que já havia passado dos limites com os riscos que corria e a qualquer momento poderia sofrer algum acidente.

No dia 18 de novembro, Dan ligou para um amigo pedindo carona até Yosemite para remover as cordas e estruturas que ficaram lá dos últimos saltos, os guardas estavam ameaçando confiscar todo o material. Quando chegou a Yosemite, após passar a noite escalando para chegar até as cordas, ao invés de removê-las, Dan fez um salto de 285 metros de altura (995 pés), a maior altura que havia saltado até então.

A corda estava há mais de um mês exposta ao tempo, pegando neve e chuva. O amigo que o acompanhava questionou sobre o estado das cordas porque as cordas perdem força quando estão molhadas, mas foi tranquilizado pela explicação de Dan sobre a resistência das cordas, as mesmas que alpinistas usam no Everest, projetadas para suportar as piores alterações climáticas, frio e umidade. Convencido também entrou na brincadeira. O conhecimento de Dan Osman sobre os equipamentos, sistemas de ancoragem e compensação eram enormes. Ninguém ousava discordar dele.

Link YouTube | Saltando com amigos

Durante a noite os dois compraram comida e ficaram conversando sobre o recorde que Dan Osman pretendia bater naquele dia, ninguém falou mais nada sobre desmontar a estrutura. Na tarde dia 23, Miles Daisher fez um salto e depois desceu até o chão. Quando voltou ao topo da Leaning Tower, encontrou Dan apressado arrumando sua estrutura para o grande salto. Queria pular antes de escurecer.

Daisher disse em alguns depoimentos que sentia uma má sensação quanto ao salto. Ele saltaria de um ângulo bem diferente do que saltavam normalmente, o que significaria que ele deveria pular por cima da corda de segurança, que seria difícil de ver por estar já estar bastante escuro. Dan adicionou 22 metros a mais de corda, três vezes mais corda do que adicionava de um salto para outro. Ficaria a 45 metros do chão quando o salto acabasse.

Dan ligou para outros dois amigos que não puderam chegar porque estavam presos na neve e disse que estava pronto para fazer o salto. Prendeu o celular no suporte do peito para que pudessem acompanhar, então começou a contagem, que logo interrompeu perguntando se Daisher estava filmando tudo. Dan interrompeu uma segunda vez a contagem porque achou ter ouvido os amigos falando algo no celular.

E então saltou. Seu amigo que observava a luz de seu capacete desaparecendo na escuridão enquanto a corda esticava, fazendo o som característico que tanto gostavam, soava como um chicote. Mas o som da corda foi interrompido antes do fim. Ouviu-se então um longo grito, e o barulho de Osman caindo por cima das árvores. Seu amigo desesperado correu até a ponta acreditando que tivesse apenas balançado contra uma corda, e gritou tentando contato, mas sem resposta.

Desceu de rapel o mais rápido que conseguiu e foi seguindo o rastro de luz de sua lâmpada de cabeça pelas pedras e árvores. Encontrou o resto das cordas e avistou Dan deitado no chão. Correu até o telefone público mais próximo, ligou para os amigos que estavam no celular com Osman e deu a inevitável noticia. Dan estava morto.

Imprudência, destino ou falha técnica?

Link YouTube | Reportagem sobre os últimos momentos

Existem várias hipóteses sobre as causas do acidente. Muitos chamam Dan de imprudente, dizem que o estado das cordas expostas ao tempo fez com que elas se enfraquecessem e se rompessem, e que ele não poderia ter sido tão descuidado assim. No entanto, em uma análise técnica da corda utilizada no salto, um engenheiro especialista em equipamentos de escalada, também escalador, diz que a corda estava em perfeito estado, e que ele mesmo escalaria usando aquelas mesmas cordas.

O perito explica que a mudança de ângulo fez com que as cordas se cruzassem, fazendo com que deslizassem umas nas outras em uma velocidade altíssima, gerando um enorme calor. As cordas e partes metálicas apresentavam derretimentos bem característicos, denunciando que houve atrito entre as cordas.

As cinzas de Dan Osman foram espalhadas em Cave Rock, no frio do Lago Tahoe, enquanto seus amigos faziam discursos e levavam flores.

Eles se uniram e formaram um fundo de arrecadação de verbas para ajudar na criação da filha, Emma Osman.


publicado em 28 de Junho de 2011, 08:26
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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