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Descobri minha forma de mudar o mundo e te desejo o mesmo

Reuni minhas habilidades, enfrentei minhas crises e coloquei a raiva de lado para atingir em cheio o objetivo da causa que eu defendo

Sabe aquela vontade jovem, de querer mudar o mundo em busca do utópico amor universal? Pois bem, aos 39 anos eu continuo nessa.

Entre fazer faculdade de comunicação, artes cênicas, comerciais, novela, ser assistente de mágico em Angola, animador de plateia em programa de TV, modelo, tapeceiro, cantor, dançarino de axé e de street dance, busquei por formas de convívio em que a igualdade, equidade e respeito convivessem de forma harmônica. Pra mim, este é o amor universal. A convivência que priorize o impedimento da violência, das intolerâncias e opressões.

Mas para chegar aqui, neste momento em que minhas ações caminham em maior harmonia com meus pensamentos, passei por muitos lugares. O rap foi o primeiro despertar. Aos 13 anos comecei a escrever poesias, e com o rap descobri uma forma de expressar aquilo que se passava dentro de mim, através das rimas.

Nascer preto me colocou de frente com a discriminação desde muito cedo e o hip hop me mostrou a necessidade de não calar. Afinal cresci ouvindo artistas inspiradores falando da quebrada, de política, lutando contra o racismo, cantando por justiça social e também por amor.

O rap me inspirava enquanto linguagem e o teatro, com suas verdades, me colocou no palco. Lembro de quando assisti a uma peça que me tocou profundamente, aos 16 anos. Era uma colagem de textos de Nelson Rodrigues, interpretados pela Cia Tumc, do diretor Adamilton Andreucci. Nunca esqueci daquilo. Dois anos depois, quando entrei na faculdade, comecei a frequentar a Cia de Teatro de lá e no final do meu primeiro dia, tive a certeza que aquilo me acompanharia por muito tempo.

Através das artes cênicas fui descobrindo formas de entrega, a importância da troca. O teatro me ensinou a não ter medo do espelho e, junto disso, expôr tudo aquilo que me prende. Entendi que cabe aos artistas lidar com graus de sensibilização que para boa parte público não seria possível atingir se não houvesse tal troca humanizada entre a arte e o sentir. Algo tão íntimo.

Mesmo me expondo como ator, mostrar textos de minha autoria foi um passo bem grande. Criei meu primeiro blog de poesia em 2004, mas só quatro anos depois me entendi como poeta e escritor. Pra isso foi preciso deixar de escrever só em meus diários e, além de publicar, me dedicar por quatro anos escrevendo quase diariamente algo novo, fosse um poema ou uma canção.

A partir do momento em que você aceita um lado seu, é como se novas portas se abrissem nessa direção. Alguns anos depois, foi natural juntar meu gosto por escrever poesias com minha habilidade de se comunicar além da escrita, que obtive como ator. Foi quando criei o canal no YouTube e a página no Facebook "Diário Preto", em 2011.

Foram centenas de textos e vídeos em combate ao racismo na internet. Situações racistas na nossa sociedade infelizmente não faltam e então eu escolhia algum caso, como um clipe racista, uma notícia preconceituosa, um programa de TV com atitude duvidosa e despejava minhas análises, indignações, críticas, achismos e certezas. Algumas vezes em tom cômico, em outras prepotente, sério, raivoso.

Eram quase 10 mil seguidores ativos e assim conheci muitas pessoas, tive ensinamentos, trocas e a oportunidade de me conectar com gente que estava lutando junto por ideais parecidos. Mas depois de dois anos com esse trabalho, dando e tomando porrada, combatendo e sendo combatido, notei que o Diário Preto não era mais a ferramenta que me ajudaria a chegar em meu objetivo.

Lidar todos os dias com um tema tão pesado e presente em minha vida é delicado. Se a gente não se cuida psicologicamente, pode adoecer, se desestabilizar, começar a ser uma outra pessoa, triste, depressiva, com muita raiva. E foi o que aconteceu comigo. O contato consciente com a opressão nos deprime pessoalmente e, ao estar assim, você pode gerar isso também.

Os vídeos simpáticos e engraçados foram começando a perder a graça, as mensagem que chegavam pra mim eram cada vez mais pesadas, violentas, ameaçadoras. Me senti reproduzindo o negativo ao invés de contribuir com caminhos para as mudanças, e foi quando o Diário Preto chegou ao fim.

Mas nada como uma crise bem aproveitada. Passado o Diário Preto, ficou mais evidente para mim que minha busca era a de dizer tudo que eu dizia antes, mas de uma forma leve e mais eficiente. Para mais pessoas, sem especificar um alvo e sim os sintomas e, quem sabe, até arriscar os antídotos. Vi que o foco é a liberdade, a equidade, a queda de opressões primitivas num geral.

No começo de 2015 postei no Facebook a poesia "Pra mudar de opinião", um poema de boas vindas, de boa chegada, dispondo de sorriso e boa vontade, na busca pela “Formula mágica da paz” como cantou Racionais Mcs em 97.

Fui postando mais e mais “vídeo-poesias”, e voltando a fazer vídeos opinativos também, já com outro tom. Via cada vídeo como um novo grão pra fortalecer as asas e a gana por voar, pra quebrar gaiolas, pra se lançar pra longe dos cativeiros e só pousar em bom lugar pra fazer ninho. Dessa visão surgiu o Alpiste de Gente, em forma de canal no Youtube, página no Facebook e hoje espetáculo ao vivo também, com poesias musicadas e recitadas.

Link Youtube - Sorriso

Quando ampliamos a fonte de criação, tudo tende a servir como inspiração. Para mim, muitas vezes são questionamentos próprios, dúvidas, incertezas, inseguranças, ou mesmo coisas externas: o laboratório é cotidiano. E de uma situação negativa pode sair o positivo, como de um momento de choro, um sorriso pode nascer ainda mais pleno.

Um hacker não invade o sistema serrando computadores, e também é impossível lutar contra fuzis usando flores. Acredito que há um não-lugar, onde os enfrentamentos se conciliam, porque há um mar de possíveis revoluções pela frente e imagino que o Alpiste de Gente seja um navio nesse oceano. Foram cerca de 20 anos navegando, partindo do racismo para compreender que antes das distinções de cor, raça, classe e gênero, há um lugar a ser explorado, que liga todas as pessoas de forma empática: o lugar do afeto.

Link Youtube - Luto

Nesse trajeto, não somente as fontes de criação aumentam como também os meios. No meio de tudo isso, surgiu o Aláfia, uma banda na qual sou um dos 3 vocalistas (ao lado de Eduardo Brechó e Xênia França), e na qual eu reúno enfim meus lados de cantor, ator e poeta. A banda está há 5 anos na estrada, dialogando com a fome por mudanças e com a valorização das culturas de matriz africana.

O grupo começou com reuniões com meu parceiro Eduardo Brechó, sobre um possível trabalho inspirado nos Last Poets (poetas e músicos que surgiram do movimento black pelos direitos civis dos afro-americanos na década de 60), como Gil Scott-Heron, em poesias, africanidades e música. Depois de muitos encontros, de pessoas e ideias, e uma minuciosa pesquisa do candomblé ao funk, nasceu o Aláfia, uma banda autoral que cultua o palco, o baile black e a ancestralidade, e que hoje tem 2 discos e 12 integrantes.

O projeto Alpiste de Gente cresceu e a cada dia floresce mais. Virou uma produtora de conteúdo artístico com foco na diversidade, tendo como objetivo um espaço de convívio justo, respeitando os conceitos de sustentabilidade, acessibilidade em busca de formas sensibilizadoras, que humanizem cada vez mais nossa sociedade. O ponto de encontro é o canal no Youtube e a página no Facebook. São mais de 15 mil seguidores nas redes sociais e mais de 300 mil visualizações dos vídeos e conteúdos.

Para a versão ao vivo do Alpiste de Gente, montei o espetáculo “Mutum”, com linguagem cênica e musical. No elenco, além de mim, a atriz Flavia dos Prazeres e quatro músicos, Gabriel Catanzaro (Baixo/Violão), Maestro Fabio Leandro (Teclado), Pedro Bandera (Percussão) e Lucas Cirilo (Gaita), que também fazem parte da banda Aláfia.

Foto-colagens da artista Mariana Ser, como a acima, também fazem parte do Alpiste de Gente, e compõem uma série chamada “Sabiá”, compartilhando da mesma essência matriz.

Dessa forma, encontrei minha maneira de continuar transmitindo minhas mensagens e defendendo as causas que acredito de um jeito mais humanizado e pacífico. E eu gostaria de saber de coração o que vocês também têm tentado fazer para que possamos coletivamente melhorar nossa sociedade e nos harmonizarmos em direção a um espaço de convívio justo e digno para todas as pessoas.


publicado em 07 de Julho de 2016, 15:54
Jairo pereira

Jairo Pereira

Ator, escritor, poeta, cantor, diretor, videomaker, youtuber, pai... Jairo é vocalista e um dos fundadores da banda Aláfia e também idealizador do projeto Alpiste de Gente. Pode ser encontrado no Facebook.


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