Assistam na íntegra a live que fizemos no Facebook com o Dr. Tiago Pádua (Oncologista) e o Dr. Lucas Ventura (médico de família) falando sobre o tema: "Por que os homens vivem 7 anos a menos que as mulheres". Vamo lá!

Doze horas de suor, asfalto e sertanejo universitário

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Dirigi por doze horas ontem, retornando a São Paulo após seis dias no Saco do Mamanguá, próximo a Paraty. Deveria ser uma viagem de cinco horas e meia, mas na volta das férias não há Waze que salve os pobres motoristas do inferno rodoviário da Rio/Santos.

Ao longo da maratona, procurei sintonizar rádios locais em busca de diversão. Em grande parte do trajeto o melhor sinal vinha da Nativa FM, que bombava uma seleção com os hits sertanejos do momento. 

Gusttavo Lima, sertanejo universitário

Curioso, me propus a prestar atenção nas letras (aí vão alguns dos trechos que ficaram na cabeça):

Pei Pei, de Hugo & Thiago
"Não sou de trocar ideia eu já parto pro ataque
Se a mulher me der moral já chega com vontade
De pei pei pei pei comigo é tudo ou nada
Comigo vai ou racha"


Ressaca, de Henrique & Diego
"Segunda é a Ana, terça é a Carminha, quarta é a Daniela
E quinta é o dia da novinha
Sexta é Adriana, sábado a Joana
Domingo a Isadora fechando o fim de semana"

Fiorino, de Gabriel Gava


"De Land Rover é fácil, é mole, é lindo
Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino
De Land Rover é fácil, é mole, é lindo
Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino
Simbora!"


Só tem eu, de Gusttavo Lima
"Mas estiloso igual a mim; só tem eu!
Safadinho e pegador; só tem eu!
O playboy que tira onda; só tem eu!
Os doidinhos todos me invejam tudo querendo ser eu
Eu te falei; eu sou um cara descolado.
Eu sou um rei; eu to na pista, eu to ligado
Namorador; eu tenho todas do meu lado...
Quem me conhece diz que eu sou homem safado."


Eu bebo pra ficar mal, de Lucas & Renan
"Eu bebo é pra ficar mal 
Se fosse pra ficar bom 
Eu tomava remédio 

Nada melhor que uma pinga 
Uma caipirinha 
Pra curar o tédio"


Eu não vou aceitar, de Bruno & Marrone
"Você não pode saber,
Que sou nada sem você e se você partir
Eu não vou aceitar, eu não vou aceitar
Eu não vou aceitar, eu não vou aceitar
Aceito tudo de você,
Tiro de mim só pra te dar prazer
Troco meu jogo por novela
Meu futebol por cem mil rosas amarelas" 


Depois de algumas horas de músicas com as mesmas narrativas, fiquei um bocado assustado.

Luan Santana, sertanejo universitário

São todos enredos de amor, virilidade e balada. As letras que escutei, sem exceção, descrevem estereótipos de homens e mulheres. 

Um homem que seduz sem pedir licença, sai com uma mulher diferente a cada dia da semana, é obcecado por status (seja ostentando seu carrão ou mostrando que é potente e sedutor mesmo com uma furreca), egocêntrico, exibido, bebe tanto quanto possível e, quando apaixonado, é dependente e imaturo como um bezerro desmamado.

Ela, safada, solteira, querendo sair com as amigas pra farra. Se fazendo de difícil, mas, na verdade, doidinha pra fazer sacanagem. Ou ciumenta, descontrolada, que já perdeu a vez com o cowboy fodão do parágrafo de cima porque passou muito tempo fazendo jogo duro. E por aí vai.

Me incomoda pensar como essas músicas são reflexo de uma cultura que está aí, enraizada - e talvez por isso o motivo de tanto sucesso. 

Vemos isso também nas novelas, nos funks, nos pagodes, na publicidade, por todo lado. Mas as músicas, de um modo especial, me pegam de jeito. São mensagens embaladas em ritmos irresistíveis, que serão cantadas e dançadas o ano inteiro, reforçando os estereótipos cretinos e aprisionantes que narram sem pudor. 

Sabe, meu coração se aquece quando passo um tempo no sítio com meu pai. Adoro o interior, gosto de farra e de umas tantas músicas sertanejas (como essa). Queria muito ver mais cantores sertanejos que peitassem colocar no topo das paradas músicas com versos de um amor genuinamente desapegado, das prisões que todo homem enfrenta, das curvas de uma amizade autêntica, das aventuras da paternidade.

Apostaria meu mindinho nesse sertanejo pé-no-chão, pra desbancar o sertanejo universitário. E se eu tivesse o mínimo tino pra voz e violão, já teria composto o primeiro hit


publicado em 04 de Janeiro de 2015, 21:54
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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